Vivenciamos tempos, no mínimo, interessantes, sob os pontos de vista da sociologia, da psicologia, da filosofia, enfim, dos comportamentos e hábitos humanos.
Os extremismos são naturalizados; a ponderação é criticada; o que importa é obter uma legião de seguidores que pensam e agem da mesma forma. É acolhedor sentir que muitas outras pessoas são iguais a nós, mesmo que nossos comportamentos e ideologias não sejam elogiáveis sob os prismas morais e éticos. Confortável, hodiernamente, é viver em “bolhas”, nas quais são confirmados nossos diagnósticos, idiossincrasias, e “sentenças”, por mais desproporcionais e absurdos que possam ser.
Até mesmo os ensinamentos do Mestre Jesus de Nazaré são distorcidos ou adaptados, no afã de nos servirem de pretexto, que nada mais é do que uma exegese de um texto fora de seu contexto. São os malabarismos interpretativos, com a única intenção de justificarem nossa maneira de ser e de pensar sobre determinado assunto. Há pessoas, inclusive da seara das religiões, notáveis na “arte” de “puxarem a brasa para a sua sardinha”. Detentores de “doutorado” na façanha de proferirem discursos repletos de ódio, divisão, numa visão tacanha da realidade. São os fariseus da atualidade. Jesus já se reportava a eles: “sepulcros caiados”.
Interessante observar que para essas pessoas o jornalismo profissional, a informação séria que passa pelo crivo da checagem e da reavaliação acerca da verdade da informação (transformando-se em notícia) sob o crivo da responsabilidade civil e penal dos veículos de comunicação e de seus profissionais, não seriam confiáveis. Para esses que vivem numa realidade paralela, o que tem valor são mensagens, vídeos e áudios de “whatsapp”, “e-mail”, e redes sociais; não verificam e não se importam se se trata de “fake news” desde que, é “lógico”, reafirmem o seu pensamento, o seu modo de ser, a sua ideologia. Só não se lembram, como diz o outro: “o diabo é o pai da mentira” (inclusive reportado em João 8:44).
O avanço tecnológico é esplêndido, nos facilita a vida em diversos aspectos de nosso cotidiano, todos sabem; todavia, comparativamente, é como uma faca, que pode ser utilizada na cozinha, para preparar alimentos, assim como pode ser empregada como uma arma para ferir ou matar outra pessoa. Por conta disso, nada mais prudente e justo do que a regulamentação das redes sociais e do uso em geral da internet. Esses locais não são “terra de ninguém”, como pensam muitos, sob o errôneo argumento da liberdade de expressão. Tudo o que é ilícito na vida em sociedade, também, por óbvio, o será no mundo virtual. São crimes, em ambos os âmbitos, a calúnia, a injúria, a difamação, o abuso e exploração sexual “on line”, “sexting e sextorsão”, aliciamento, “cyberbullying” etc.
Portanto, nada mais coerente e justo do que apoiar projetos de lei que estão em discussão para endurecer punições e aumentar a proteção rápida e eficaz a todos os usuários das redes sociais, principalmente defendendo e dando suporte às nossas crianças e aos nossos adolescentes, tendo em vista que mais de 60% das denúncias de crimes na internet no Brasil relacionam-se ao abuso infantil. É cediço que a exposição a crimes digitais resultam, em sua maioria, em depressão, traumas persistentes e ansiedade. Atrapalham e interferem no desenvolvimento emocional e na vida social saudável.
O debate em questão deve prosseguir de maneira séria e racional, em diversos espaços de sociabilidade (ambientes físicos ou virtuais), nos quais pessoas se encontrem, interajam e busquem o que, de fato, é melhor para nossa sociedade, com atenção especial e redobrada, repito, às nossas crianças e adolescentes. Pensemos nisso!
Armando Bergo Neto é advogado, ex-procurador geral da Câmara Municipal de Campinas











