Um dos maiores equívocos quando se fala de sustentabilidade é a sua limitação à dimensão ambiental. Mas não é possível ser sustentável ambientalmente se não for também social e economicamente.
Este conceito está claro por exemplo no caso da proliferação da energia eólica em algumas regiões. Tem ficado evidente que alguns projetos eólicos não respeitam a realidade local, a comunidade local.
Esse dilema já existia na época da Agenda 21, uma das grandes sacadas da Rio-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992.
A Agenda 21 foi um dos documentos centrais aprovados na Rio-92. Era um documento enorme, com 40 capítulos, projetado como um roteiro para a construção de uma sociedade sustentável.
Já comentamos aqui como a Agenda 21 foi boicotada. Mas a questão é que ela deixava clara a necessidade de se encarar a sustentabilidade como equilíbrio entre o social, o ambiental e o econômico.
Para que não houvesse dúvidas, os primeiros capítulos eram todos dedicados a temas sociais. O capítulo 3 é justamente o de combate à pobreza, que deveria ser a maior prioridade global.
Depois dos capítulos sociais vinham os ambientais. E também existiam os capítulos dedicados a grupos sociais específicos, como mulheres, jovens, povos indígenas, cientistas etc. Ou seja, a construção da sustentabilidade deveria envolver todos os grupos sociais, e não ser exclusividade de alguns.
Pois bem, o combate à fome continua sendo a grande prioridade global e este desejo também ficou evidente nos Objetivos do Milênio, de 2000, e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que valem até 2030.
O Brasil é um claro exemplo de como a luta contra a fome deve ser permanente. O país já foi exemplo mundial de combate à fome e à insegurança alimentar. Entretanto, ao final do governo de Jair Bolsonaro já tinha voltado ao Mapa da Fome da ONU.
Existe o grande desafio agora de avançar muito no enfrentamento da fome.
No primeiro ano do atual governo, avanços foram obtidos, graças a uma conjunção de políticas públicas. Entretanto, o desafio ainda é grande. Basta uma caminhada pelas periferias das grandes cidades e mesmo nas ruas centrais das metrópoles para ver a fome se expressando, diariamente, cruelmente.
Nesse cenário é preciso ressaltar um exemplo inspirador que vem de Campinas e que está completando 30 anos em 2024. Trata-se do Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA), criado oficialmente a 25 de agosto de 1994, no momento em que todo o Brasil discutia a Campanha contra a Fome proposta pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.
A cidade já tinha experimentado ações semelhantes. Em 1968, a convite do Centro Regional do Serviço Voluntário Internacional, a Fundação FEAC foi a condutora em Campinas da Campanha Mundial contra a Fome, lançada naquele ano pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). No Brasil a iniciativa, que emergiu no ano de grande mobilização jovem em todo planeta, recebeu o nome de Campanha da Juventude contra a Fome. Em Campinas, a FEAC mobilizou jovens voluntários para participar.
Em 1994, com o tema novamente em pauta com força total, a FEAC participou de dois projetos. Um deles, liderado pela Prefeitura, a campanha “Dê trabalho, demita a fome”, que mobilizou empresas e várias organizações sociais. E a outra foi a ativa inserção no movimento que resultou no ISA.

O ISA nasceu da disposição de permissionários da CEASA-Campinas em se organizar para dar destinação adequada para as toneladas de alimentos que, não vendidos, eram descartados. O Instituto nasceu então como fruto da parceria entre os permissionários, a própria direção da CEASA e a Prefeitura, com o forte suporte da FEAC, da Fundação Educar DPaschoal, o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e o Instituto Credicard/Fundação Abrasso.
Darcy Paz de Pádua e Luis Norberto Pascoal foram ativos atores dessa mobilização, ao lado de Sady Santos Dalmas, da Abrasso, e claro dos permissionários. Em pouco tempo o ISA se tornou um dos pilares das ações de segurança alimentar em Campinas. Logo no primeiro ano de atividade efetiva, 1996, foram distribuídas 1.290 toneladas de alimentos.
E assim o trabalho continuou, com a distribuição de alimentos para organizações sociais credenciadas em todas as regiões de Campinas. Na pandemia de Covid-19 esse serviço foi determinante para o combate à fome na cidade.
O ISA é mais um claro exemplo de como Campinas, a cidade que completa 250 anos em 2024, brilha quando é corajosa, ousada e determinada. E é um farol a iluminar a trajetória da sustentabilidade, que precisa ser cada vez mais ambiental, mas também, necessariamente social e econômica. Três eixos se equilibrando, uma dimensão agindo e cooperando com a outra.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












