As portas das salas de aula da EMEF Maria de Fátima Faria Área, no Jardim das Bandeiras, em Campinas, ganharam um novo significado. Na volta às aulas, os estudantes foram recebidos por rostos de mulheres negras inspiradoras, que fazem ou fizeram a diferença no mundo, em diversas áreas de atuação e profissões.
A iniciativa de ilustrar os rostos femininos de artistas, cientistas, cantoras, atletas, escritoras, pensadoras faz parte do Oásis Educar, promovido por jovens de várias escolas públicas de Campinas e que fazem parte da Academia Educar, da Fundação Educar.
“Essa construção coletiva realizada na EMEF Maria de Fátima Faria Área foi muito especial para os jovens da Academia Educar. Eles exerceram a liderança e ajudaram a dar vida ao sonho de outros estudantes e dos profissionais da educação”, destaca a gestora da Fundação Educar, Cristiane Stefanelli.
“Temos certeza de que estas portas com a referência de mulheres negras fortalecerão o trabalho de educação antirracista e valorização das mulheres que a escola vem realizando. O Oásis Educar sempre deixa a esperança de que juntos podemos fazer do mundo um lugar melhor para se viver”, completa Cristiane.
Foram os estudantes que escolheram quem seriam as protagonistas que estariam presentes nas portas. Em junho, os alunos e voluntários se reuniram em um mutirão para colorir o pátio e, na semana passada, foi finalizado por três artistas plásticos: Azevê (Fábio Azevedo), Instagram: @azeve.art; Arroz (Lucas Arroz), Instagram: @lucas_arroz e Nay (Nayara Gomez), Instagram @naiaragomes.art.
Para o artista plástico e muralista Fábio Azevedo, o Azevê, as imagens têm o objetivo de impactar na vida estudantil.
“São mulheres negras escolhidas por eles. Espero que traga a mensagem de representatividade, força, inteligência, capacidade. São pessoas geniais e inspiradoras que agora habitam essas portas. Espero que os adjetivos de cada uma dessas mulheres se reflitam na vida e no caminho de cada aluno”, diz o Azevê.
Outros dois artistas que foram convidados por Azevê para participar do projeto dentro da escola também ressaltaram a força da arte na vida dos estudantes. “Desde o mural que teve a participação de muitas pessoas da escola e outros voluntários até a finalização das portas, o projeto foi muito especial. Vimos o sorriso no rosto dos estudantes e agora que terminamos vamos deixar isso estampado no cotidiano, gerando neles esse pertencimento de que a escola é de todos e para todos”, diz Lucas Arroz (Arroz).

Já a artista Nayara Gomez (Nay) destacou a importância de retratar rostos femininos. “Para mim foi muito importante, principalmente como mulher. Estamos trazendo figuras que são mulheres poderosas e isso é muito inspirador. Podemos ser o que a gente quiser e essas mulheres são a prova de que todo sonho é possível”, destaca Nay.
Quem são as mulheres retratadas e o que elas fazem?
Na música, a escolhida foi a cantora Alcione, uma das mais notórias sambistas do país. Na comunicação, o destaque ficou por conta da jornalista Glória Maria, que, entre tantas contribuições, apresentou o Globo Repórter e protagonizou matérias inspiradoras para o jornalismo brasileiro.
Nas artes, quem aparece é a multiartista, ou ‘cantriz’, como gosta de se autodeterminar, Zezé Motta. No esporte, a escolha foi a jogadora de vôlei Fernanda Garay, que esteve presente na conquista do ouro na Olimpíada de Londres em 2012 e da prata nos Jogos de Tóquio em 2021 e a ginasta artística Rebeca Andrade.
Nas ciências, a escolhida foi a biomédica e pesquisadora Jaqueline Goes, reconhecida internacionalmente por coordenar o mapeamento do genoma da Covid-19. Neste ano, ela foi nomeada embaixadora da Ciência no Brasil. Já a professora, escritora e ativista Lélia Gonzalez foi uma das principais intelectuais do feminismo negro no Brasil.

A filósofa Djamila Ribeiro se tornou uma das principais vozes atuais quando se fala no combate ao racismo, autora de livros como “Pequeno Manual Antirracista” e “O que é Lugar de Fala?” E a escritora Carolina Maria de Jesus, que, apesar de ter apenas dois anos de estudo formal, é considerada uma das mais importantes escritoras negras da literatura brasileira, tendo ficado nacionalmente conhecida em 1960 após a publicação do seu livro “Quarto de Despejo”.
O que é o Oásis Educar?
O Oásis Educar é um projeto da Fundação Educar, inspirado na metodologia do Instituto Elos Brasil. Todos os anos, os jovens da Academia Educar selecionam uma escola pública para transformar. Após a escolha da instituição por meio de uma votação, os jovens visitam a escola selecionada, reconhecem suas belezas e ouvem a comunidade escolar para identificar os sonhos para aquele espaço.
Com os sonhos coletados, os jovens classificam o que é possível realizar e buscam recursos e doações para viabilizar a transformação. Antes de colocar a mão na massa, os jovens aprendem e discutem sobre o tema da transformação.
A tecnologia social do projeto, portanto, envolve cinco passos principais: reconhecer belezas, descobrir sonhos comuns, conhecer talentos locais, buscar recursos e colocar a mão na massa. Dessa forma, o Oásis Educar mobiliza todos para sonhar e concretizar a transformação do espaço físico da escola. Desde 2009, o projeto já transformou mais de 100 escolas e comunidades em Campinas e Patrocínio/MG.
A iniciativa mobiliza jovens participantes da Academia Educar, alunos e equipe da escola, familiares e voluntários, promovendo cidadania e protagonismo. No fim, todo o processo baseia-se nos princípios educacionais de aprender a ser, aprender a conviver, aprender a aprender e aprender a fazer.











