O auditório do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) recebe nesta quinta-feira (12), o lançamento do livro “A poética do retrato”, de Dayz Peixoto Fonseca, que surgiu a partir de pesquisa sobre o fotógrafo retratista Victor Fiegert (1906-1969) que, ao longo de 20 anos, retratou famílias e personagens de Campinas e região.
Imigrante austríaco, Fiegert chegou ao Brasil em 1949 e viveu curta temporada em São Paulo, onde renovou a documentação de imigrante. Depois, tentou a vida em Campos do Jordão mas, finalmente, se decidiu por Campinas, onde aportou em 1950. Fiegert faleceu em 1969 e está sepultado no distrito de Sousas.
Conta Dayz que “a grande surpresa da pesquisa sobre esse fotógrafo, tão admirado em Campinas nos anos 50, foi o encontro, pela internet, de sua sobrinha neta, que atualmente vive no Canadá. Os campineiros o tinham como fotógrafo “genial”, apaixonado por sua arte e profissão”.
Dayz iniciou em 2014 o levantamento de dados e pesquisou retratos de autoria de Victor Fieger até criar uma coleção representativa da obra autoral desse artista, desconhecido das novas gerações.
“Fiegert está hoje apagado da memória cultural campineira. Pelo tempo, pelo esquecimento ou descuido dos historiadores, foi criada uma lacuna na história da fotografia e da cultura da cidade. Este livro se compromete a jogar uma nova luz sobre Victor Fiegert e sua estética fotográfica, ressignificando momentos importantes de sua arte, evocativa da vida cultural de Campinas nos anos de 1950 e 1960”, explica.
Na avaliação da autora, “com Victor Fiegert a arte fotográfica em Campinas celebrou seu apogeu. Campinas sempre foi terra de talentosos e experientes fotógrafos. Mas Victor Fiegert surgiu como uma grande novidade no cenário fotográfico local. Suas fotografias estavam fora dos padrões tradicionais de retratos e se enveredava por um estilo virtuosístico, desconhecido nos padrões brasileiros. Era apreciado por todos que se deixavam fotografar por eles. E suas fotos eram guardadas ou mostradas como verdadeiras jóias”.

O Processo criativo de Victor Fiegert
A história de Victor Fiegert traz uma visão diferenciada e inovadora sobre o processo criativo em estúdio fotográfico. A formação cultural eclética desse fotógrafo que, com suas andanças por países da Europa, antes de vir para o Brasil, impregnou-se de traços de diversas culturas, as quais qualificaram suas atitudes e habilidades. Sua relação com os retratados era espontânea e criativa. Seu estilo, influenciado pela estética de pintores e fotógrafos inovadores, europeus e americanos, criava em seus admiradores o senso de que ele era um artista genial. Ele era alegre, de fala fácil, apesar do forte acento alemão se fazia entender. Era comunicativo.
Os retratados o viam como uma pessoa excepcional de trato fácil no momento do retrato. Daí brotava a naturalidade do retratado na cena do registro imagético. E no laboratório, ele era o mago solitário realizando sua alquimia: luz, sombra, retoques, superposição, solarização e outros recursos técnicos. E ele levava para a rua sua arte, através de uma vitrine fixada na parede de um prédio comercial, de frente para a principal avenida da cidade.
A vitrine com suas fotografias ampliadas ficou na memória de muitos campineiros. Ele antecipava o marketing cultural ou arte de rua? Campinas, cidade em que Hércules Florence inventou a fotografia, sempre celebrou essa arte. Segundo Dayz, “evidente que, nos anos 50 e 60 do século passado, ninguém perdia uma oportunidade de ir ao retratista registrar lembranças nas datas mais importantes da vida. Tais imagens faziam parte da vida e eram amorosamente guardadas em acervos familiares. A coleção que o livro traz, bem demonstra isso. É de se compreender que, somente através de uma pesquisa cultural independente e livre em sua metodologia, tornou-se possível reconstruir uma história biográfica tão complexa e distante de fontes primárias de informações”.
A história narrada no livro deixou feliz a escritora, que acaba de completar 60 anos de atividades culturais em Campinas. A escrita do livro traz o tom de uma crônica biográfica. E a coleção de fotografias que ela conseguiu criar, devidamente identificada e catalogada representa decisivamente a obra do fotógrafo. Nessa busca biográfica, Campinas, por sua vez, ressurge com suas características dos anos de 1950 e 1960 do século passado.
Foi uma época promissora e de transformações, quando Victor Fiegert participou de sua história cultural e social e acompanhou as transformações nas artes plásticas. Tornou-se amigos dos artistas de todos os segmentos, enquanto fotografava em seu estúdio, localizado num casarão antigo no centro da cidade. Por ser um homem solitário, enfrentou contratempos em seu final de vida. Morreu aos 63 anos, pobre e carente de acolhimento da sociedade que tanto o admirou. A coleção de retratos, que finaliza o livro, traz a possibilidade de ressignificar valores estéticos e sociais daquela época.
A escritora Dayz Peixoto Fonseca
Dayz Peixoto Fonseca nasceu em Miguelópolis (SP) e reside em Campinas desde 1956. Formada em Filosofia, Orientação Educacional e Pedagogia pela Universidade Católica de Campinas, atual PUC-Campinas.
Exerceu os cargos de Orientadora Educacional e de Coordenadora do Museu da Imagem e do Som na Prefeitura Municipal de Campinas, na qual se aposentou.
Professora de cinema, foi crítica do tema no antigo jornal Diário do Povo, atua na diretoria da CCLA desde o início dos anos 1990 e é autora de vários livros, entre eles O Viajante Hércules Florence – águas, guanás e guaranás e Landina / os fios da memória.












