As escolas são o espaço por excelência de exercício da cidadania no Brasil. Solo sagrado do saber e da democracia, a gênese de uma nova sociedade.
Um dos direitos fundamentais no mundo contemporâneo, o voto é realizado nas escolas, para onde eleitor e eleitora vão a cada dois anos escolher seus representantes.
Quando infelizmente acontece uma tragédia como enchentes, as escolas se transformam no espaço de acolhimento. Um território de passagem antes da volta para casa.
Em função da realidade nacional, marcada por uma desigualdade extrema, as escolas também exercem outras funções, além daquelas para as quais foram idealizadas, ou seja, a prática do ensino e da aprendizagem.
Milhões de crianças brasileiras têm a sua melhor refeição nas escolas. A merenda escolar é o prato do dia para grande parte de nossas crianças e adolescentes.
Consequência de um trabalho a que me dediquei com o máximo carinho e atenção por muitos anos, tive a oportunidade de conhecer centenas de escolas, em várias regiões brasileiras. E pude perceber que elas transcendem, de fato, o seu papel original.
São o local de encontro das comunidades, o lugar para as artes, para a cultura popular, e também para o esporte e as festas mais animadas. Daquela escola pequenina em Pernambuco, em uma casa adaptada, com a amarelinha pintada no chão da sala de aula, até um edifício histórico como a Escola Carlos Gomes, em Campinas, as escolas são, enfim, referência e alimento de esperança.
Mas, infelizmente, muitas vezes não há o devido cuidado com a escolha do lugar de construção de uma escola, sobretudo se for pública. Essa condição ficou evidente com uma recente pesquisa, realizada pelo Instituto Alana, organização de defesa dos direitos da criança e do adolescente, e o MapBiomas, que faz o mapeamento ambiental dos biomas brasileiros. A ong Fiquem Sabendo também foi parceira do levantamento inédito.
A pesquisa revelou que 370 mil alunos da educação infantil e ensino fundamental estudam em escolas localizadas em áreas de risco climático. E esse contingente se refere apenas às escolas públicas das capitais estaduais, universo da pesquisa, onde foram avaliadas 20.635 unidades escolares.
De acordo com a pesquisa, 90% das escolas em áreas de risco estão situadas em favelas, comunidades ou próximas a elas, em uma distância de até 500 metros. Dessas escolas, 52,4% não têm área verde em seus lotes. No caso das unidades fora de favelas, 29% não têm área verde.
Esses dados indicam que há um nítido descuido dos gestores no momento de escolha dos locais para receber uma escola. E essa falta de atenção pode ser fatal, sobretudo no atual cenário de mudanças climáticas, com eventos extremos cada vez mais constantes e imprevisíveis.
Mas a desatenção não se limita às escolas públicas, que somam a maioria, de 59%, das unidades em áreas de risco. São escolas privadas, portanto, 41% daquelas localizadas em áreas de risco nas capitais estaduais, o que representa um importante percentual. De novo, reiterando que a pesquisa se limitou às capitais das unidades da Federação.
Com certeza o cenário inquietante se repete pelo interior do país, como pude constatar naquelas visitas que fiz a escolas em muitas cidades.
Durante séculos os locais privilegiados, estratégicos, de um assentamento humano foram reservados ou aos templos religiosos ou aos edifícios do poder, palácios, castelos, enfim. De longe, fora de uma comunidade, era possível avistar esses templos ou edifícios.
No centro urbano contemporâneo, os edifícios do poder são os arranha-céus envidraçados e metalizados, quanto mais altos melhor. Hoje há uma disputa, inclusive, nos chamados petroestados, pelos prédios mais altos, equivalentes à quantidade de dinheiro de cada lugar.
Seria muito melhor, muito mais edificante para qualquer sociedade, que o espaço estratégico no mundo contemporâneo fosse dedicado às escolas.
Que elas fossem ao menos situadas em locais seguros, cheios de verde, onde as crianças pudessem aprender a valorizar a nossa incrível biodiversidade e nossos recursos naturais únicos, singulares.
Transição energética, mitigação de gases de efeito estufa, créditos de carbono. Tudo isso é importante, mas uma nova cultura, uma nova sociedade, de fato sustentável, apenas poder começar com mais atenção às escolas, essas células civilizatórias, com a prática de uma educação socioambiental crítica e transformadora.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












