Os incêndios devastadores em Los Angeles, a capital mundial do imaginário formado pelo cinema, são extremamente simbólicos sob vários pontos de vista. No limite, pode-se dizer que aquelas imagens de bairros inteiros de mansões carbonizadas, lembrando muito a hecatombe ocorrida em Hiroshima e Nagasaki, expressam o fim (ou o prenúncio de) de uma era, que esvai em cinzas.
Pouca coisa foi mais poderosa, nos últimos cem anos, do que a força da máquina de Hollywood na construção de mitos e de imposição de estilos de vida. A sociedade contemporânea, globalizada nos moldes ocidentais, foi formatada por aqueles estúdios de cinema que os turistas invariavelmente visitam em tempos menos turbulentos.
Tal estilo de vida perseguido por grande parte do planeta, alimentado pelo consumismo, pelo materialismo e pelo culto do descartável, tem sido alimentado por um modelo energético fundamentado na exploração de combustíveis fósseis, por sua vez a causa das emissões atmosféricas que provocaram o aquecimento global.
Em outras palavras, é o estilo de vida que provocou ou no mínimo impulsionou as mudanças climáticas que, segundo muitos especialistas, estão contribuindo diretamente para a dinâmica alcançada pela propagação desmedida das chamas na Cidade dos Anjos. No coração do estado mais rico dos Estados Unidos e provavelmente do mundo.
Outros fatores repercutem nessa escalada inédita de incêndios, embora eles há muito tempo façam parte do cotidiano de moradores de Los Angeles e arredores. Um deles é a especulação imobiliária, que levou à multiplicação de mansões e palacetes em uma área sabidamente sujeita a fenômenos como esse que os Estados Unidos e o resto do mundo estão assistindo, atônitos. A maior potência bélica da história, de um poder incomensurável, não consegue enfrentar essa temporada monstruosa de fogo, morte e dor.
Fala-se muito atualmente dos refugiados ecológicos, as pessoas que têm sido obrigadas a deixar suas casas em função de eventos climáticos extremos. Como ocorreu no Rio Grande do Sul em 2024, como acontece em muitas partes do mundo após furacões, grandes enchentes ou secas extremas.
Mas até o momento não se imaginava que os ricos de Los Angeles também virariam refugiados ecológicos, claro que guardadas as devidas proporções, já que suas propriedades certamente estão, em sua maior parte, por seguros à altura de seu poder aquisitivo.
De forma geral, o que está acontecendo no centro nevrálgico do cinema global tem o potencial de ser um claro ponto de inflexão, como de certa forma o furacão Katrina já foi. Mais um duro golpe para os negacionistas do clima, como um dos maiores deles, que nos próximos dias se tornará o morador titular da Casa Branca.
Mas há um aspecto nessa tragédia que tem sido esquecido, negligenciado, na cobertura pela imprensa planetária. É o fato de que, antes de se consolidar como a maior produtora de filmes, Los Angeles tinha uma economia basicamente alicerçada na exploração de… petróleo.
Atividades sísmicas intensas resultaram na criação de muitos reservatórios de petróleo e gás na região de Los Angeles. Depois de extrações iniciais na década de 1910, a partir da década de 1920 foi ascendente a retirada de petróleo de modo relativamente fácil. As grandes empresas petrolíferas se instalaram lá e as estimativas são de que no Condado de Los Angeles tenham sido perfurados cerca de 7.500 poços de petróleo, quase 4 mil deles ainda ativos.
Centenas desses poços estão muito próximos dos principais focos gigantescos de incêndio no Condado, sobretudo na região de Santa Mônica/Palisades. A infraestrutura montada para a retirada de petróleo nessa área é igualmente gigantesca, somando-se toda a parafernália necessária para as operações. Calcula-se que 30% dos moradores de Los Angeles residam muito próximos de algum poço de petróleo.
Neste cenário, não há como dissociar uma coisa da outra. O poder do petróleo e o poder do cinema, bases de poder econômico, político e de prestígio. Há muita lição a ser aprendida desse episódio assombroso da série de eventos climáticos extremos que parece não ter fim e provavelmente não terá.
Mais do que nunca, as expectativas se voltam para o que Donald Trump fará na sua segunda passagem pela presidência. Em seu primeiro governo, de 2017 a 2020, dobrou a área pública arrendada para empresas de petróleo e gás em relação ao segundo mandato de Barack Obama, de 2013 a 2016. Já no governo de Joe Biden, que está nos seus dias finais, essa concessão de áreas públicas para a exploração de combustíveis fósseis caiu em mais de 90% em relação ao primeiro governo Trump.
Não há como negar que as decisões tomadas por Trump vão repercutir consideravelmente nos rumos das negociações relacionadas à emergência climática global.
Será que os ensinamentos deixados por tanto sofrimento na Cidade dos Anjos vão se transformar de fato em mudanças profundas, urgentes, mais do que necessárias, no centro do poder norteamericano, ou essas imagens tenebrosas, doloridas, serão material apenas para um novo blockbuster?
Em janeiro de 2023, o Condado de Los Angeles editou uma lei proibindo a perfuração de novos poços de petróleo e sinalizando a sua eliminação gradual em duas décadas. Foram decisivas para essa tomada de decisão pesquisas comprovando que é seriamente afetada a atividade pulmonar dos moradores próximos a poços de petróleo na região. Que deliberações ainda mais incisivas sejam tomadas após esses incêndios aterradores.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: [email protected]












