O câncer de colo de útero ainda representa um desafio significativo para a saúde da mulher no Brasil, embora existam meios eficazes de evitá-lo. A boa notícia é que o aumento da cobertura da vacinação contra o HPV traz esperanças de que as taxas de incidência e óbitos pela doença caiam nos próximos anos. Em 2023, foram aplicadas mais de 6,1 milhões de doses do imunizante. O número é o maior desde 2018 (5,1 milhões) e representa um aumento de 42% em relação a 2022, quando foram administradas pouco mais de 4 milhões de doses.
Janeiro Verde, campanha de conscientização sobre o câncer de colo de útero, é um convite à reflexão sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e dos avanços no tratamento dessa doença que, apesar de grave, tem altas chances de cura quando identificada em estágios iniciais e chances ainda maiores de ser detida.
Um estudo pioneiro realizado nos Estados Unidos – e publicado em novembro passado pela revista científica Jama Network – mostrou que a vacina contra o HPV reduziu em 62% as mortes por câncer de colo de útero no país entre as mulheres com até 25 anos. O levantamento mostrou em primeira mão a influência da vacinação contra o vírus nas mortes por câncer colo de útero.
“A vacina contra o HPV é altamente eficaz na prevenção da infecção pelos tipos de HPV que causam a maioria dos casos de câncer de colo de útero. Disponível gratuitamente no SUS para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, a vacinação é um passo crucial na proteção contra a doença”, reforça Fernando Medina, oncologista clínico do Centro de Oncologia Campinas.
Estima-se que, para cada ano do triênio 2023-2025, surjam 16.710 novos casos de câncer de colo do útero no Brasil, com um risco estimado de 15,43 casos a cada 100 mil mulheres e pouco menos de 6,6 mil óbitos por ano.
“A prevenção é a arma mais poderosa contra o câncer de colo de útero. Além da vacina contra o HPV, a realização do exame preventivo Papanicolau é essencial. O exame é capaz de detectar lesões pré-cancerígenas. Mulheres de 25 a 64 anos que já iniciaram a vida sexual devem realizar o exame regularmente, conforme orientação médica”, salienta o médico Fernando Medina, acrescentando que o uso de preservativos durante as relações sexuais reduz o risco de contágio.
O que é o HPV?
Principal causa do câncer de colo de útero, o papilomavírus humano (HPV) também está relacionado a outros tipos de câncer, como vagina, vulva, boca, ânus e garganta. O HPV é um vírus com mais de 80 tipos distintos já identificados e aproximadamente 30 infectam o trato genital, transmitidos por meio de relações sexuais.
O pico de incidência do HPV ocorre entre 25 e 30 anos de idade. Os subtipos HPV-16 e o HPV-18 são responsáveis por quase 70% dos cânceres de colo uterino.
Dada a origem da doença, a vacina é a principal forma de prevenção, juntamente com o exame citopatológico (Papanicolau). A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que este é o quarto tipo de câncer mais comum entre mulheres globalmente.
“A idade média observada nos dados nacionais (45-50 anos) está alinhada com as estatísticas internacionais. Países desenvolvidos tendem a ter diagnósticos mais precoces devido a programas de rastreamento mais efetivos”, explica Fernando Medina.
Avanços no Tratamento
Nos últimos anos, houve avanços significativos no tratamento do câncer de colo de útero, com novas terapias e abordagens que aumentam as chances de cura e melhoram a qualidade de vida das pacientes.
Técnicas cirúrgicas menos invasivas, como a cirurgia laparoscópica, proporcionam menor tempo de recuperação e menos complicações. A radioterapia de intensidade modulada (IMRT) e a braquiterapia, por exemplo, permitem direcionar a radiação com maior precisão, minimizando os danos aos tecidos saudáveis.
“Vale destacar as novas drogas quimioterápicas e a combinação de diferentes medicamentos que aumentaram a eficácia do tratamento. Aliado a isso, a imunoterapia é usada para estimular o sistema imunológico a combater o câncer e tem se mostrado promissora no tratamento do câncer de colo de útero avançado”, exemplifica o oncologista do COC.
Medina cita ainda a terapia-alvo. “Medicamentos que atuam especificamente nas células cancerígenas, bloqueando seu crescimento e disseminação, estão sendo desenvolvidos e testados para o tratamento do câncer de colo de colo de útero”, esclarece.
O câncer do colo do útero é uma preocupação significativa na Região Metropolitana de Campinas (RMC). “Estudos em Campinas mostraram que áreas de pior nível socioeconômico apresentaram taxas de mortalidade por câncer de colo de útero quatro vezes maiores do que as áreas de melhor nível. Isso reflete desigualdades no acesso a serviços de saúde e programas de prevenção”, detalha o médico.







