“A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia para dar um recado telefônico. Na própria calçada, uma vez comprada a ficha no jornaleiro, comunicam-se. Tão simples. Em outras cidades desse mundinho que é o mundo, já se fazia isso há muito tempo, mas aqui é novidade grande/gostosa”.
Em um trecho de uma de suas crônicas no Jornal do Brasil, o poeta Carlos Drummond de Andrade, descreveu com entusiasmo a chegada do telefone público, conhecido como ‘orelhões’, nas ruas de São Paulo. Drummond considerou aquelas “cuias invertidas” a céu aberto, geminadas em duas, três, quatro, como uma das grandes sacadas da década de 1970.
“A população tomou conta das cabinas, que não são cabinas, são uma cuia gozada, a céu aberto, uma cuia que fala. Simpatizou com elas. Aprovou-as”, observou Drummond.
Cinquenta anos depois dessa crônica, no entanto, pouco se observa essas estruturas nas ruas. Naturalmente.
Um país onde atualmente há 260 milhões de aparelhos celulares habilitados – maior do que a população nacional -, o gradativo desaparecimento dos orelhões é a tendência inconteste.
O jornaleiro, aquele lembrado na crônica, hoje já não vende mais cartões para orelhões. No Centro de Campinas, na Praça José Bonifácio, Sérgio Tinti, 61, é mais um dos que desistiram de comercializar os magnéticos. Primeiro porque pouco vendia, e segundo que muita gente reclamava que estava com defeito.
“Os poucos orelhões que sobraram estão com defeito. Mas tinha muitos que diziam ser problema do cartão, quando na verdade eles usavam todos os créditos e depois vinham reclamar de defeito. Não compensava mais”, relata.
Aliás, os cartões telefônicos brasileiros têm DNA campineiro.
Os primeiros testes foram conduzidos em Campinas pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás (CPqD). Era a migração de plataformas e sistemas – da ficha para o cartão. Isso aconteceu no início dos anos 90.

A banca onde trabalha há mais de 30 anos, em frente à Catedral Metropolitana, ocupa o mesmo espaço onde em 1982 foram inauguradas as primeiras cabines de telefone público de Campinas, fora dos comércios.

Ainda não eram em formato de conchas de acrílico, mas sim em estruturas de vidro que abrigavam oito aparelhos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Ao todo foram instalados 16 na praça, inaugurados à época pelo então prefeito de Campinas José Nassif Mokarzel. “Fazia filas gigantescas para fazer uma ligação. Todos ouviam as conversas um dos outros”, lembra o jornaleiro Tinti.
Mokarzel ficou oito meses no cargo, após as desincompatibilizações de Francisco Amaral e José Roberto Magalhães Teixeira. Tempo suficiente, porém, para Mokarzel entrar para a história da linha do tempo dos telefones públicos da cidade.

Sim, eles estão vivos
Uma volta pela região central ainda é possível encontrar orelhões em funcionamento. Apesar do desuso cada vez maior, outro comerciante de banca disse que em média vende de dois a três cartões por dia. “É pouco, mas tem gente que ainda usa e principalmente aqueles que sabem qual aparelho está funcionando”, relata.
Em frente a sua banca, próximo ao Palácio da Justiça, um orelhão solitário na calçada ainda está com sinal de vida. Sujo, enferrujado, é observado pela comerciante Flávia Santone, 18 anos, que passava pelo equipamento carregando dois celulares nas mãos.

“Nunca usei um orelhão. Só entrei para brincar quando era criança. Não sei nem fazer uma ligação”, confessa Flávia.

Pouco mais de 600
Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) indicam que cerca de 50% dos Telefones de Uso Público (TUPs), ou orelhões, realizam menos de duas chamadas por mês, tornando-se uma fonte de prejuízo para as empresas de telecomunicações.
Em 2016, ano em que Campinas tinha pouco mais de 4,4 mil orelhões em funcionamento, a Anatel atendeu a uma demanda antiga das concessionárias e autorizou a redução na oferta de orelhões de 6 para 4 por 1.000 habitantes.
Os últimos dados da agência, de outubro de 2024, mostram que a metrópole tem, atualmente, pouco mais de 600 aparelhos em funcionamento. Desses, 38 são adaptados para cadeirantes e 105 para deficientes auditivos.
No entanto, norma aprovada pela Anatel no ano passado, exige que as empresas de telefonia fixa continuem com a obrigação de manter orelhões em funcionamento.

Na mesma norma aprovada pela Anatel, a agência passa a entender que as ligações dentro de um mesmo DDD são chamadas locais, com aplicação de tarifas menores.
Atualmente, se um cliente deseja realizar uma chamada entre cidades diferentes dentro de um mesmo DDD, ele paga a tarifa Interurbana 1 — que será extinta pela Anatel. A nova regra passará a valer a partir de 2026.
A criadora do orelhão
Formada em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, Chu Ming Silveira notabilizou-se pela concepção dos protetores telefônicos, popularmente conhecidos como Orelhinha e Orelhão.
Ícones do design brasileiro e do mobiliário urbano mundial, os protetores telefônicos foram nomeados pela CTB quando de seu lançamento, Chu I e Chu II, respectivamente, em homenagem à sua criadora.

O ponto de origem de seu bem sucedido projeto foi o formato do ovo, segundo ela, “a melhor forma acústica”.
Em 1971, quando chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira, Chu Ming assumiu o desafio de criar um protetor para telefones públicos que reunisse funcionalidade e beleza. Que caísse no gosto dos brasileiros e se integrasse perfeitamente ao mobiliário urbano.
As cidades do Rio de Janeiro e São Paulo receberam os primeiros telefones públicos com os novos protetores, nos dias 20 e 25 de janeiro, respectivamente. A população logo criou apelidos para a novidade, como “Tulipa”, “Capacete de astronauta” e o definitivo, “Orelhão”. As informações sobre a história do orelhão constam em um site lançado em homenagem a Chu Ming.












