Embalada pelo bom desempenho na Série C, a Ponte Preta caminha com esperança rumo ao retorno à Série B e à reconquista de momentos gloriosos. Mas, além dos resultados em campo, há um personagem que rouba a cena no Estádio Moisés Lucarelli a cada jogo: o Gorilão.
Embora o mascote oficial do clube seja a Macaca, é o Gorila — dançante, irreverente e carismático — que comanda a festa nas arquibancadas.
Jailson, ou “B-Boy Negão”, como é conhecido, não é apenas o rosto invisível por trás do mascote da Ponte Preta. Ele é corpo, voz e alma de um personagem que ganhou vida no Estádio Moisés Lucarelli e que hoje ultrapassa os limites do campo para se tornar um símbolo de conexão com a torcida. Mas por trás da fantasia do Gorilão, está um artista, educador, dono de uma marca de roupas e militante da cultura periférica que usou o hip-hop para transformar vidas.

Raízes e cultura: a formação de um b-boy
Jailson nasceu em Alagoas, mas veio para Hortolândia ainda pequeno e, em seguida, para Sumaré. Foi na periferia do Interior paulista que teve os primeiros contatos com o breakdance. “Com sete anos, eu já via os caras treinando na rua de casa. Eu fazia oração pedindo pra ser aquilo quando crescesse”, relembra.
Com o tempo, se dividiu entre a bicicleta e a dança, até que escolheu o break como estilo de vida.
Através do grupo campineiro MOS Crew, mergulhou na cultura hip-hop e passou a atuar como b-boy, coreógrafo e arte-educador em projetos sociais. “Minha vida foi se resolvendo em Campinas, profissionalmente e pessoalmente. Hoje moro no Nova Europa, mas minha trajetória sempre foi guiada pela cidade”.
Quando o Gorila virou B-Boy
O convite para ser o mascote da Ponte surgiu em 2015, após o departamento de marketing do clube assistir a vídeos de Jailson dançando na internet. A ideia era trazer um mascote diferente, com influência do hip-hop. “Primeiro tentaram me colocar na roupa da macaca, mas não dava nem pra me mexer. Aí veio o gorila… Eu vesti e falei: ‘esse aqui já é um b-boy por natureza’.”
Desde então, o Gorilão virou um personagem marcante, com coreografias, improviso e interações que conquistaram torcedores de todas as idades. “A criançada tinha medo do gorila no começo. Hoje estão apaixonadas. E não só elas. Faço mais festa de adulto do que de criança!”, brinca.
Inspirado pelas batalhas de break, Jailson transformou cada apresentação do Gorila em um espetáculo único.
Improvisador nato, ele já viralizou com vídeos dançando na chuva, pulando em poças e fazendo suas graças para a arquibancada. “Cada jogo é um espetáculo.”
O carisma é tanto que até os torcedores mais atentos percebem quando Jailson não está no estádio. “Uma vez coloquei um substituto. Recebi mensagem na hora: ‘Hoje não é você’. Eu perguntei como sabiam. Responderam: ‘Pelo jeito de andar’.”

Educador e exemplo
Para além do futebol, Jailson atua como educador em projetos sociais como a Associação Anhumas Quero Quero e a Sociedade Pró-Menor Barão Geraldo. Ministrando aulas de break e cultura hip-hop, ajuda a transformar a vida de jovens de comunidades carentes.
“Eles copiam tudo que eu faço. Desde a roupa até o jeito de se comportar. A gente não está ali pra formar dançarinos, mas pessoas boas. Tem ex-aluno que hoje é advogado. Os bons resultados são muitos”, conta.
Para Jailson, o hip-hop, a dança e a cultura podem salvar um ser humano.
Ele reconhece que os projetos sociais são fundamentais para a comunidade periférica de Campinas e, por isso, destaca que as ações de incentivo poderiam ajudar ainda mais essas pessoas. “Existem muitos projetos em Campinas, mas faltam fomento e apoio. Não se constrói transformação com voluntariado apenas. Cultura é sobrevivência, é ferramenta social.”
Ele destaca o potencial dos jovens das periferias campineiras e defende que a cidade precisa enxergar isso como prioridade. “Com investimento, você tira uma geração inteira da marginalidade. Tem muito talento nas quebradas. O hip-hop muda vidas.”

Entre o amor pela Ponte e a missão pela paz
Hoje, Jailson é torcedor declarado da Ponte Preta. Vai aos jogos mesmo sem estar de serviço, e se emociona com o carinho da torcida. “Teve um tempo que fiquei fora por causa da pandemia e criaram até hashtag: #VoltaGorila. Aí eu entendi que tinha ido além.”
O Gorilão virou personagem de aniversários, casamentos, viagens e entrevistas.
“Já fui trabalhar em campeonato em Belém do Pará e tinha gente que sabia quem eu era. Não é fama, mas é reconhecimento. Isso é muito louco.”
Como mensagem final, Jailson é direto: “A gente precisa de mais paz nos estádios. Rivalidade sim, violência não. E às crianças e jovens da periferia, eu digo: não desistam. Às vezes, Deus usa caminhos inesperados para realizar sonhos. Nunca pensei em ser jogador, mas hoje levo muita gente ao campo. Como torcedor, como educador, como Gorilão.”
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