Neste domingo, 7 de setembro, quando o país celebra a Independência do Brasil, a liberdade também será exaltada em forma de páginas, músicas e memórias no coração de Campinas. Na rua Barreto Leme, o Sebo e Lojão completará 36 anos de existência, resistindo como um dos últimos guardiões da literatura na cidade. Espaço onde os livros ensinam, preservam histórias e reafirmam a independência da cultura diante do tempo e das mudanças sociais.
Naquele feriado da Independência em 1989 a história começou para o mineiro Vitor Mezette. Enquanto ainda montava prateleiras e ajeitava o espaço recém-inaugurado, um cliente agitado esticou o pescoço para dentro da loja e perguntou se Mezette tinha um exemplar de Capitães de Areia (1937) – do escritor Jorge Amado.
Para a sorte do rapaz, o exemplar fazia parte do acervo inicial do sebo, mas compunha uma coleção com outros 19 títulos do autor brasileiro. Relutante a princípio, o comerciante então decidiu vender a obra diante da imploração do comprador. Esse, por sua vez, disse uma frase que Sr. Vitor guarda até hoje como um presságio: “Você vai ser um cara abençoado”.
“E eu fui. Estou aqui até hoje”, diz Mezette, emocionado.
De uma infância na colheita de café em Serrania (MG), o então jovem Vitor chegou a Campinas na década de 1970, e tão logo começou a trabalhar em uma banca de jornais na Avenida Campos Salles.

“Naquele tempo eu vendia muito faroeste, policiais… Coloquei na cabeça que um dia teria minha própria loja de livros usados”, lembra.
Espaço de histórias
O Sebo e Lojão se tornou referência para estudantes, apaixonados por literatura e curiosos em busca de raridades. “Hoje em dia o perfil varia bastante, mas vendemos muito mais para as mulheres, que procuram literatura brasileira e estrangeira”, comenta Mezette.
O espaço também abriga discos importados, que aos poucos voltam a ganhar espaço entre os clientes mais nostálgicos. São produtos novos e muitas vezes raros, com valores expressivos, garimpados pelo filho de Vitor, Pedro Mezette, proprietário de uma editora e que constantemente traz raridades do exterior.

Pedro ainda acredita que a história do Sebo e Lojão pode inspirar novos capítulos na vida cultural da cidade. Como a realização de uma Bienal do Livro em Campinas; evento que, segundo ele, “poderia unir leitores, escritores, sebos e livrarias em torno da literatura”.
“Campinas é uma das maiores cidades em economia e infraestrutura. Um festival literário aqui não só faria justiça ao tamanho da cidade como também ajudaria a fortalecer os espaços que resistem”, defendem os Mezettes.
Neste domingo, enquanto o país relembra o grito do Ipiranga, Vitor e sua família irão celebrar outro tipo de independência: a do livro usado que encontra novos leitores, a do disco que volta a tocar, a da memória cultural que insiste em sobreviver em poucos endereços de Campinas.
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