A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro é mais que uma notícia: é um marco histórico no Brasil, materializando uma vitória emblemática da Democracia contra o golpismo que, tantas vezes, corroeu e ameaçou as Instituições em nosso país. Para além da prisão de um militar golpista, a importância está no fato de que, desta vez, o sistema aguentou a pressão e respondeu à altura, mostrando que fardas, ameaças e chantagens não são maiores do que a Constituição e a vontade popular.
O veredito é inequívoco e a sentença, pesada: condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) diante das investigações sobre a trama golpista após ser derrotado nas eleições de 2022, o militar reformado, ex-deputado, ex-presidente e ex-mito deve cumprir 27 anos e 3 meses de pena em regime fechado. Os crimes falam por si: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de Golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
E não bastasse a abundância de provas e confissões (dele mesmo e de aliados) sobre a trama que visava rasgar a Carta Magna, Jair ostenta uma coleção de inquéritos que pintam um retrato completo da degradação ética: as joias sauditas (peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa), a ABIN paralela (espionagem ilegal de opositores e abuso de poder), e uma tenebrosa lista de investigações de crimes cometidos durante a pandemia da COVID-19 (prevaricação, fraude em cartão de vacina, negociação de propinas e crimes contra a humanidade).
Agora, preso na sede da Polícia Federal, o imbrochável vê subordinados e aliados abandonarem-no com a mesma indiferença desleal com que ele próprio abandonou tanta gente em sua escalada egocêntrica e desvairada pelo poder, empurrando e pisando em quem fosse necessário para chegar ao cargo mais importante do Executivo nacional. A solidão da cela é o espelho da sua própria postura, e será seguida pela rejeição, pelo ostracismo e pelo esquecimento.
O mesmo Messias que, quando chegou ao poder, parecia tratar com desprezo e prepotência o título que tanta gente desesperada e insatisfeita lhe concedeu através das urnas. O cargo era apenas um megafone para suas teorias da conspiração que incluíam kit-gay, mamadeira em formato fálico, o Foro de São Paulo e a ditadura comunista, doutrinação ideológica com a Lei Rouanet, ambientalistas e indígenas colocando fogo na Amazônia, o vírus chinês e a vacina que te faz virar jacaré, a ideologia de gênero que destrói famílias com drogas e aborto. Esse é o legado delirante de Jair Bolsonaro.

Enquanto o homem medíocre, elevado à criatura folclórica, simulava um governo a partir de redes sociais e fake news, enchendo o bolso de empresários das big-techs, os verdadeiros tomadores de decisões seguiam se movimentando no Congresso e nos Ministérios. Trabalharam arduamente para destruir garantias sociais, direitos trabalhistas, programas de combate às desigualdades, leis de proteção ambiental, entregando recursos naturais e a soberania do Brasil ao capital privado internacional. Esse também foi o legado de destruição estrutural de Jair Bolsonaro.
Diante da pior catástrofe sanitária do nosso século, a da Covid-19, a promessa do patriotismo desmanchou como areia diante da incompetência e da perversidade da família que faz de tudo para colocar a si mesma acima de todos. Ao invés de ampliar e fortalecer o SUS, de investir pesado em infraestrutura higiênico-sanitária e priorizar pesquisas, ciência e tecnologia nacionais, a máquina pública foi usada para negligenciar, mentir e, pior, lucrar com a morte.
Na política internacional, o fracasso foi retumbante: o Brasil, historicamente respeitado em assembleias e fóruns mundiais, virou motivo de chacota e desprezo, alinhando-se à escória ultranacionalista, xenofóbica, negacionista, intolerante, isolacionista e antidemocrática da ultradireita global. Na contramão dos caminhos democráticos, nosso país andou para trás movido por ódio, ignorância, medo, ressentimento e desinformação.
Diante de mais de 700 mil mortes durante a pandemia, salários cada vez menores, trabalhos cada vez mais precarizados, famílias endividadas, desabrigadas, e ataques constantes à Democracia, a voz do povo impôs a derrota ao projeto dinástico da família Bolsonaro. As urnas, as mesmas que ele tentou deslegitimar, devolveram ao poder um projeto comprometido com a justiça social, a preservação ambiental, a soberania nacional, a educação, a saúde e o combate às desigualdades.
Incapaz de lidar com a vontade do Povo, o clã Bolsonaro recorreu ao intervencionismo estadunidense, numa demonstração covarde e patética de viralatismo e submissão ao autoritarismo tacanho de Trump, que, hoje, volta a elogiar o governo Lula e declara interesse em aprofundar relações bilaterais com a maior potência do hemisfério Sul do planeta. Jair, enjaulado, doente, abandonado e desprezado, já era. E vai assistir, incapaz de reagir, à briga pelo espólio podre que deixou aos filhos, à esposa e a quem acreditou (ou ainda acredita) em mitos do terra-planismo.
A direita, diante do vácuo de poder, tende a se faccionar: a ala dos neopentecostais, insistindo em iludir a população com promessas dogmáticas e fundamentalismo religioso; os reacionários, pregando o combate à violência enquanto financiam e lucram com o narcotráfico, apostas e o genocídio da juventude periférica; e os neoliberais, sem dúvida os mais perigosos, capazes de promover os acordos com o Centrão fisiologista que segue aparelhando o Estado – não importa se há um governo de esquerda o direita no poder.
Por conta de grandes conquistas e vitórias no campo socioeconômico, como desemprego em queda, os menores índices de pobreza em décadas, isenção de Imposto de Renda para a maior parte da classe trabalhadora e a vitória na guerra diplomática com os EUA, a esquerda tem a dianteira na corrida eleitoral, mas não pode (nem deve!) relaxar. Ainda há muito a fazer para fechar as feridas profundas que a extrema-direita deixou no Brasil.
A prisão de Jair Bolsonaro é o fim de um ciclo bizarro, mas é apenas mais um capítulo do longo e permanente esforço civilizatório que sustenta as democracias. Como disse Dilma Rousseff diante do golpe que sofreu em 2016, “a história será implacável”. Não há ilusão que resista à materialidade da vida cotidiana. Não há mentira que se banque frente ao pensamento crítico-reflexivo. Não há mito que sobreviva aos fatos.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia











