O câncer de pele é o tumor mais frequente no Brasil e responde por cerca de um terço de todos os novos diagnósticos oncológicos do país. Só o tipo não melanoma soma mais de 220 mil casos por ano, enquanto o melanoma, menos comum e mais agressivo, registra quase 9 mil novos diagnósticos anuais.
Esses números são reflexo de anos de exposição solar acumulada, sobretudo em pessoas de pele clara, moradores de regiões com alta radiação e indivíduos acima dos 40 anos. Ainda assim, especialistas já observam um aumento de casos entre os mais jovens, reflexo de maus hábitos de exposição ao sol.
Entrando na fase mais quente do ano, na qual a incidência de raios UVA e UVB apresentam seus maiores índices no Brasil, especialistas em oncologia e dermatologia da Rede Américas, segunda maior rede de hospitais privados do Brasil, se uniram para responder às dúvidas mais frequentes sobre fotoproteção e explicar como transformar o protetor solar em um hábito diário, e não apenas um item de verão.
“O filtro solar faz muito mais do que proteger contra queimaduras. O uso diário reduz o risco de câncer de pele, previne manchas, evita o envelhecimento precoce e ainda representa uma medida de saúde pública a longo prazo. Incorporar esse cuidado na rotina é simples — e faz diferença real para o futuro da pele”, explica Luiz Reis, oncologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas.
O que é o FPS e por que ele muda conforme o produto?
O Fator de Proteção Solar (FPS) indica o quanto o protetor consegue blindar a pele contra os raios UVB, responsáveis por queimaduras e parte dos danos que levam ao câncer de pele. A numeração (30, 50, 70) depende da quantidade de filtros UVB presentes na fórmula, sua concentração e o tipo de veículo utilizado pelo fabricante.
O FPS 30 filtra cerca de 97% dos raios UVB, o FPS 50 chega a 98% e o FPS 100 a 99%. Embora a diferença pareça pequena, ela faz uma compensação final de proteção, já que a maioria das pessoas não usa a quantidade correta.
“É importante saber que o valor de FPS indica apenas proteção para UVB, não mede necessariamente proteção contra UVA, relacionada também a fotoenvelhecimento, manchas e câncer de pele. Ambas as informações devem estar indicadas na embalagem do produto”, destaca Luiz.

Como escolher um bom filtro solar?
Os especialistas concordam que a escolha correta do fator de proteção depende do contexto de exposição diária de cada um. Para a rotina urbana, os especialistas recomendam produtos com FPS 30 ou mais, sempre acompanhados de boa proteção UVA. Já para quem frequenta praia, piscina, pratica esportes ao ar livre ou tem pele muito clara, melasma ou histórico de câncer de pele, o ideal é optar por FPS 50 em diante.
A textura também faz diferença na adesão diária. Gel, creme, loção ou toque seco devem ser escolhidos de acordo com o tipo de pele e com aquilo que a pessoa realmente consegue usar no dia a dia.
“Para uso no mar, piscina, ou para atividades em que suar é inevitável, é fundamental que o produto seja resistente à água para manter a proteção, além de uma reaplicação constante”, reforça o oncologista do Hospital Brasília Águas Claras.
Qual é a quantidade ideal de filtro solar que devo aplicar no corpo?
Para garantir uma proteção eficaz, o protetor solar deve ser aplicado em quantidade generosa, criando uma camada uniforme cerca de 15 minutos antes da exposição ao sol. A medida ideal é de aproximadamente 30 ml para o corpo todo, o equivalente a um copo de café pequeno. Uma forma prática de orientar a aplicação é seguir a regra das colheres de chá: uma colher para rosto e pescoço, uma para cada braço, duas para cada perna, uma para o tronco anterior e outra para o tronco posterior. Além da quantidade correta, a reaplicação é fundamental e deve acontecer a cada duas horas e sempre que houver contato com água ou suor, para manter a proteção realmente efetiva.
Rodrigo Azevedo, dermatologista do Hospital e Maternidade Madre Theodora, também chama atenção para os protetores em spray e as versões líquidas.
“Eles são práticos, mas exigem cuidado porque é muito fácil aplicar menos do que o necessário. No caso do spray, não basta borrifar de longe, é preciso aplicar uma quantidade generosa, espalhar bem e evitar inalar o produto. O ideal é borrifar nas mãos e depois passar no rosto, para evitar qualquer indisposição.”
Posso usar o protetor do corpo no rosto, e vice-versa?
As fórmulas de protetor solar para o rosto costumam ser não-comedogênicas, com textura mais leve, toque seco e melhor compatibilidade com maquiagem e outros cosméticos. Já as versões corporais são mais espessas e econômicas, pensadas para áreas maiores. Já os produtos cosméticos com proteção solar, como bases com cor e hidratantes, podem ajudar, desde que aplicados na quantidade adequada. Se houver dúvida sobre estar usando menos do que o recomendado, vale aplicar um protetor solar convencional antes da maquiagem.
“Os protetores corporais até podem ser utilizados no rosto, mas a experiência talvez não seja tão confortável. Eles tendem a ser mais densos, enquanto os faciais são desenvolvidos para não obstruir poros e ter acabamento mais agradável. No geral, a diferença está mais na sensação cosmética do que na proteção”, explica Azevedo.
Protetor solar clareia a pele?
Um dos mitos mais comuns que as pessoas levam para o consultório médico é de que o protetor solar clareia a pele. Essa percepção existe porque, na prática, manchas escurecem quando expostas ao sol. O hábito de utilizar o protetor solar todos os dias inibe a exposição e consequentemente evita o escurecimento da pele, dando a falsa sensação de clareamento.
O uso do filtro solar, na realidade, evita que novas manchas apareçam ou piorem.
“Algumas pessoas precisam redobrar o cuidado com a exposição nesse sentido. Quem tem melasma, pele muito clara, histórico de câncer de pele na família ou está passando por tratamentos dermatológicos, como ácidos e laser, tem uma sensibilidade maior aos efeitos da radiação. Para esses grupos, recomendamos o uso diário de protetores com FPS 50 ou mais e proteção UVA alta. Essa combinação reduz a chance de escurecimento de manchas, evita inflamações e ajuda a prevenir novas lesões provocadas pelo sol. É uma estratégia simples, mas que faz enorme diferença no longo prazo”, segundo o dermatologista de Campinas.
Qual é a recomendação para o uso em crianças?
“Para os pequenos acima de seis meses, os filtros físicos são preferidos porque irritam menos e têm menor risco de alergias. Crianças suam, correm, entram na água e esfregam o rosto com mais frequência, a reaplicação precisa ser mais rigorosa”, afirma a dermatologista Laura Zalis do Hospital São Lucas do Rio de Janeiro.
Além de iniciar o uso do filtro solar a partir dos seis meses, é importante lembrar que o produto é apenas uma das camadas de proteção. Antes dessa idade, a recomendação é evitar exposição direta ao sol e apostar em sombra, roupas com proteção UV, chapéus e horários seguros.
O protetor solar sozinho é suficiente?
Não é só para os pequenos que a proteção solar deve ser completa. Em casos de ampla exposição, a fotoproteção eficiente inclui roupas e tecidos com filtro UV, chapéu, óculos de sol, sombra e evitar horários de maior radiação (10h às 16h). O protetor solar é importante, mas não faz milagres.
“Em dias nublados, usa-se proteção da mesma forma. A radiação UVA atravessa nuvens com facilidade, por isso a fotoproteção deve ser diária, faça sol ou faça sombra”, comenta a dermatologista Laura Zalis.
Quando desconfiar dos sinais do melanoma?
O maior truque para não deixar nada passar é observar o que é “novo” ou o que “mudou” na própria pele. Pintas que aparecem do nada, lesões que crescem rápido, coçam, sangram ou simplesmente parecem diferentes das outras merecem avaliação. A regra do ABCDE continua sendo uma boa bússola ao avaliar manchas na pele: assimetria, bordas irregulares, cor diferente, diâmetro maior e evolução.
De modo geral, qualquer mancha ou ferida que sangra, cresce ou não cicatriza merece avaliação. Embora alguns tipos sejam menos agressivos, todos exigem atenção. A boa notícia é que o câncer de pele tem cura, com altas taxas de sucesso quando o diagnóstico é feito cedo.
“O tratamento varia conforme o tipo e o estágio, indo de cirurgia e terapias tópicas até radioterapia ou abordagens sistêmicas nos casos mais avançados. Isso deve ser avaliado caso a caso, mas sempre com boas perspectivas quando o diagnóstico é realizado de forma precoce”, finaliza Zalis.







