Venho procurando em diferentes textos convocar as pessoas a rever suas condições religiosas. Cheguei a criar uma palavrinha que foi título de alguns artigos: “questionateu”, ou seja, um ateu que se questiona sobre sua própria (des)crença e um ateu que também questiona os (des)crentes em geral.
Ao longo desses debates, sempre tentei focalizar mais as contradições e dúvidas da fé em Deus, na entidade do Bem. Aliás, vários pensadores importantes da História fizeram esses questionamentos, inspirando-me a seguir nessa meta.
Ludwig Feuerbach sugeriu: “Deus nunca existiu fora da mente humana”. Para Karl Marx, Deus morrerá quando a desigualdade social acabar. Sigmund Freud indicou que a humanidade precisa abandonar essa muleta psicológica para encarar a realidade.
Jean-Paul Sartre sugere que Deus precisa não existir. A morte de Deus é a libertação — dolorosa, mas necessária — do ser humano. Para Auguste Comte, Deus foi terminado por obsolescência. Ele seria um brinquedo de criança que a humanidade, agora adulta e científica, pode dispensar.
O mais impactante foi Friedrich Nietzsche, que tratou isso como tragédia. Ele alertava que, ao matarmos Deus, perderíamos o norte moral e cairíamos no niilismo (o nada). O beatle John Lennon nos legou, em sua famosa canção “Imagine”, versos interessantes e expressivos: “… Nenhum motivo para matar ou morrer. E nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz”.
Essa é a experiência mais difícil e mais temida: se não tivermos Deus, cairemos no nada? O próprio Nietzsche que “matou” Deus não caiu. Ao contrário, criou muito, mostrou que é bem possível viver sem Deus e não despencar no nada. Esse é o panorama dos nossos esforços: a chance diferenciada de viver bem, com muita responsabilidade e prazer, sem Deus.
Na virada do século 19 para o 20, há 126 anos, quando Nietzsche morreu, em 1900, o número de descrentes não chegava a 1% da humanidade. Hoje, está em torno de 15%.
Ao longo deste tempo, houve muitas revoluções sociais, políticas, até mesmo guerras mundiais, motivadas por profundas causas ideológicas e religiosas.
Também acompanhamos uma transformação tecnológica fantástica, inimaginável para os contemporâneos do início do século passado (eles não conheciam aviões, telefones, televisão, antibióticos e muito menos a vida digital). Entretanto, apesar de tudo, temos muito poucos descrentes. Representam apenas um número de minoria estatística.
Vejamos como alguns nomes destacados da nossa contemporaneidade cultural trabalham a “morte de Deus”. André Comte-Sponville e Luc Ferry são mais respeitosos e digamos, conservadores. Entendem que Deus está fora de questão, mas a sacralidade pode ser um valor mantido e praticado pelos humanos. Richard Dawkins e Michel Onfray são mais críticos, menos tolerantes com qualquer apelo religioso restante.
Então, de modo mais pesado ou mais leve, tem permanecido assim: as pessoas seguem difíceis e resilientes quanto à fé religiosa.
Poderíamos tentar algo diferente? Talvez não entrar no mérito da entidade do Bem e irmos ao debate sobre a do Mal? Afinal, se Deus é o principal e único “Sentido” da vida, o grande “Conflito” nosso seria o Demônio.
Se eliminássemos o Mal, talvez não precisássemos do Bem (do Bem que Deus representa) e trabalhássemos mais com os nossos próprios bem e mal.
Talvez tenhamos mais medo de viver sem o demônio do que com ele, porque, sem o Satanás, o único “monstro” que sobra somos nós mesmos. Porém, todo cuidado é pouco… Já nos alertava Charles Beaudelaire “A maior astúcia do Diabo é convencer-nos de que ele não existe.”
Matar o Demônio agitaria a lógica religiosa tradicional, colocando-a de cabeça para baixo. Se Deus é o “Sentido” e o demônio é o “Conflito”, sem o demônio iríamos viver em um estado de tensão constante sem poder apontar um culpado.
Se Deus existe e o demônio não, que respostas teríamos à pergunta: “por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?”
Se uma criança pequenina adoece gravemente ou um terremoto arrasa um país, e não há um “adversário” para culpar, a imagem de Deus sofre um golpe. Ele passaria a ser o único responsável pelo bem e pelo mal.
Algumas pessoas abandonariam Deus por não aceitar um Criador que é o autor direto de toda a dor.
A história humana (e religiosa) é estruturada em torno do conflito. O bem só brilha porque existe o contraste da sombra do mal.
Ao cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann, Hanna Arendt não matou, mas “desmitificou” o demônio. Ela percebeu que o mal não vinha de uma entidade maligna, mas de burocratas medíocres que apenas “cumpriam ordens”.
Imagino que poderíamos desenvolver uma “fé descrente”, uma forma mais honesta de viver no século 21. É a percepção de que, se Deus e o Demônio saírem de cena, o cenário não fica vazio – fica sustentado pelo Humano.
Essa “fé” permite que o ardor dos prazeres seja bem responsável – eu aproveito o agora não porque “tudo é permitido”, mas porque é a única coisa sagrada que eu realmente possuo.
A “fé descrente” — baseada na responsabilidade e no prazer lúdico — seria algo que a maioria das pessoas conseguiria sustentar na falta de um “Pai Celestial”.
Ou ainda é cedo? O vazio seria grande demais para a média da humanidade? Teríamos que experimentar…
Caros leitores: ótimo final de ano e excelente 2026!
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











