Você já sentiu aquele incômodo de ter um olho lacrimejando constantemente, sem motivo aparente? Aquela lágrima solitária que escorre pelo rosto, borra a maquiagem, atrapalha a leitura e parece não ter fim, mesmo que você não esteja triste ou emocionado. Esse problema, conhecido pelos médicos como epífora, é mais do que um simples inconveniente. Ele pode ser o sinal de que algo não vai bem no sistema de drenagem dos seus olhos.
A boa notícia é que a medicina moderna oferece uma solução altamente eficaz, rápida e, o melhor de tudo, sem deixar marcas no rosto. Trata-se da Dacriocistorinostomia endonasal, um nome complexo para um procedimento que revolucionou o tratamento do canal lacrimal entupido.
Para desvendar os mistérios por trás do olho que lacrimeja sem parar e explicar em detalhes essa cirurgia, convidamos a Dra. Camilla Duarte, oftalmologista especialista em plástica ocular. Prepare-se para entender de uma vez por todas por que seu olho lacrimeja e como é possível dar um ponto final a esse problema.
O encanamento dos olhos: entendendo o caminho da lágrima
Para entender por que um olho começa a lacrimejar sem controle, primeiro precisamos pensar no sistema lacrimal como um sofisticado sistema de “encanamento”. Ele tem duas partes principais: a produção e o escoamento.
De um lado, temos as “fábricas de lágrimas”, que são as glândulas lacrimais. Elas produzem a quantidade exata de lágrimas para manter nossos olhos lubrificados, protegidos e limpos. Do outro lado, temos o sistema de escoamento, que funciona como o “ralo” dos olhos.
“Imagine uma pia”, explica a Dra. Camilla Duarte. “A torneira (glândula) libera a água (lágrima) para lavar a cuba (o olho). Depois, a água precisa escoar por um ralo (os pontos lacrimais) e descer por um cano (o canal lacrimal) até o sistema de esgoto (o nariz). É por isso que, quando choramos muito, o nariz começa a escorrer. Está tudo conectado.”
Esse caminho é muito preciso. A lágrima entra por dois pequenos orifícios no canto interno das pálpebras, passa por canais finíssimos, chega a uma pequena bolsa chamada saco lacrimal e, finalmente, desce por um duto que atravessa o osso do nariz até a cavidade nasal. O simples ato de piscar ajuda a “empurrar” a lágrima por esse caminho, como uma pequena bomba.
Quando o “ralo” entope: as causas do lacrimejamento
O lacrimejamento excessivo acontece quando há um desequilíbrio nesse sistema. Ou a “torneira” está aberta demais (produção excessiva de lágrimas, geralmente por irritação ou alergia) ou, o que é muito mais comum, o “ralo” está entupido. É a chamada obstrução do ducto nasolacrimal.
Esse entupimento pode ter várias causas:
- De nascença: Alguns bebês nascem com o canal ainda fechado por uma fina membrana, mas na maioria dos casos, isso se resolve sozinho nos primeiros meses de vida.
- Com o passar do tempo: Em adultos, especialmente em mulheres após os 40 anos, o canal pode ir se estreitando naturalmente, sem uma causa específica. É a chamada obstrução primária.
- Por um motivo específico: A obstrução também pode ser consequência de outros fatores, como fraturas no rosto, inflamações crônicas como a sinusite, cirurgias nasais prévias, tumores ou até o uso de certos medicamentos.
Quando o canal entope, a lágrima não tem para onde ir. Ela se acumula no olho e transborda, escorrendo pelo rosto. Pior ainda, essa lágrima parada dentro do saco lacrimal pode se tornar um ambiente perfeito para a proliferação de bactérias, causando uma infecção dolorosa chamada dacriocistite.
“A dacriocistite é um sinal de alerta importante”, ressalta a oftalmologista. “Ela se manifesta como um inchaço vermelho e dolorido no canto do olho, perto do nariz. É uma infecção que precisa ser tratada com antibióticos, mas a única forma de evitar que ela volte é desobstruir o canal com a cirurgia.”
O diagnóstico
Se você se identificou com os sintomas, o primeiro passo é procurar um oftalmologista. No consultório, o médico fará uma investigação completa para confirmar o diagnóstico.
“A jornada da minha paciente começou exatamente assim”, relembra a Dra. Camilla Duarte, oftalmologista particular. “Ela era jovem e se queixava de lacrimejamento no olho esquerdo há um mês. O primeiro teste que fiz foi o de desaparecimento de corante. Pinguei uma gota de um colírio com corante laranja (fluoresceína) em cada olho. No olho direito, o corante sumiu rapidamente, sinal de que estava sendo drenado. No esquerdo, ele ficou ‘empoçado’, um claro indício de obstrução.”
Depois desse teste inicial, o oftalmo pode realizar a irrigação da via lacrimal. Com anestesia em colírio, o médico insere uma cânula finíssima no ponto lacrimal e injeta soro fisiológico. Se o sistema estiver funcionando, o paciente sentirá o soro chegar à garganta. Se estiver entupido, o líquido voltará pelo próprio ponto lacrimal ou pelo ponto do outro canalículo.
Em alguns casos, para ter um mapa exato da obstrução, pode ser solicitado um exame de imagem chamado dacriocistografia, uma espécie de “raio-X com contraste” do canal lacrimal. “Foi o que fizemos no caso da minha paciente. A imagem não deixou dúvidas: o contraste parava no meio do caminho no lado esquerdo, confirmando a obstrução total”, detalha a doutora.
A solução: uma nova rota para a lágrima
Uma vez confirmado o entupimento, a solução é cirúrgica. O objetivo da Dacriocistorinostomia é muito simples: já que o “cano” original está bloqueado, o cirurgião cria um “desvio”, um novo caminho que liga diretamente o saco lacrimal ao nariz, contornando a área obstruída.
Historicamente, essa cirurgia era feita por fora, com um corte na pele do rosto. Hoje, a tecnologia permite realizar o mesmo procedimento de uma forma muito mais elegante e menos invasiva: por dentro do nariz.
Dacriocistorinostomia Externa vs. Dacriocistorinostomia Endonasal

Por dentro da cirurgia
A Dacriocistorinostomia endonasal é um exemplo fascinante de como a tecnologia pode tornar a medicina mais eficiente e confortável para o paciente. Realizada sob anestesia geral, a cirurgia é um trabalho de equipe entre o oftalmologista e o otorrinolaringologista.
“É uma dança sincronizada”, descreve a Dra. Camilla Duarte. “Enquanto o otorrino trabalha dentro do nariz com o endoscópio, eu trabalho por fora, guiando e confirmando os passos.”
A cirurgia acontece da seguinte forma:
- O acesso: O otorrino introduz a microcâmera pela narina, tendo uma visão clara e ampliada de toda a cavidade nasal em uma tela de vídeo.
- A janela óssea: Com instrumentos de alta precisão, como uma microbroca, o cirurgião remove um pequeno pedaço do osso que separa o nariz do saco lacrimal, criando uma “janela”.
- A confirmação: Neste momento, a Dra. Camilla entra em ação. “Eu passo uma sonda (Bowman) pelo ponto lacrimal da paciente. A sonda abaula o saco lacrimal e o otorrino a vê através da janela óssea que ele acabou de criar. É a nossa confirmação de que estamos no lugar exato e de que a janela criada está de tamanho adequado.”
- O novo caminho: Com a localização confirmada, o saco lacrimal é aberto, criando uma passagem direta para o nariz.
- O molde de silicone: Para garantir que esse novo caminho não se feche durante a cicatrização, um finíssimo fio de silicone é passado pelos canais lacrimais e deixado no local. “É importante entender que esse fio não é um dreno, mas sim um molde. Ele mantém o novo ‘túnel’ aberto enquanto o corpo cicatriza ao redor dele”, esclarece a Dra. Camilla Duarte.
Todo o procedimento dura cerca de duas horas, e o paciente geralmente vai para casa no mesmo dia, sem tampões no nariz e sem nenhum sinal externo de que passou por uma cirurgia.
A vida após a cirurgia
A recuperação é surpreendentemente tranquila. Os principais cuidados são fazer lavagens nasais com soro fisiológico e usar os colírios prescritos. Diferentemente da cirurgia tradicional, que deixa o rosto inchado e roxo por dias, a abordagem endonasal permite que o paciente retorne às suas atividades normais muito mais rapidamente.
“Minha paciente sentiu a diferença quase que imediatamente”, conta a Dra. Camilla Duarte. “Mesmo com o fio de silicone, o lacrimejamento já havia melhorado muito. O teste com o corante no pós-operatório foi a prova final: nós víamos, pela câmera do endoscópio, o corante laranja que eu pingava no olho dela escorrendo lindamente pelo novo caminho, dentro do nariz.”
Após cerca de dois meses, o fio de silicone foi removido no próprio consultório, um procedimento rápido e indolor. “O resultado foi a resolução completa dos sintomas. Ela ficou totalmente assintomática, livre do desconforto do lacrimejamento e muito feliz por não ter nenhuma cicatriz”, comemora a médica.
As taxas de sucesso da Dacriocistorinostomia endonasal são altíssimas, superando 90% na maioria dos estudos quando realizada por equipes experientes. As complicações são raras e geralmente leves, como pequenos sangramentos ou aderências nasais que podem ser facilmente resolvidas.
Quem deve considerar a cirurgia?
Nem todo lacrimejamento requer cirurgia. O primeiro passo é sempre procurar um oftalmologista para investigar a causa. Se o problema é apenas irritação ou alergia, colírios específicos podem resolver. Mas se o diagnóstico confirmar uma obstrução real do canal lacrimal, especialmente se acompanhada de infecções recorrentes (dacriocistite), a cirurgia é a solução definitiva.
“A maioria dos meus pacientes relata que deveriam ter feito a cirurgia muito antes”, comenta a oftalmo particular. “Eles passam anos convivendo com o incômodo, usando lenços constantemente, evitando sair de casa em dias de vento, e quando finalmente fazem a cirurgia, percebem o quanto isso impactava sua qualidade de vida.”
A cirurgia é especialmente indicada para adultos com obstrução confirmada, pacientes com histórico de infecções recorrentes, pessoas que não responderam bem a tratamentos menos invasivos e até para crianças em casos específicos.
Se você se identificou com os sintomas descritos, o primeiro passo é agendar uma consulta com um oftalmologista. Leve uma lista de seus sintomas, há quanto tempo começaram e se há histórico de infecções. Isso ajudará o médico a fazer um diagnóstico mais preciso.
Durante a consulta, o oftalmologista realizará os testes diagnósticos e, se necessário, encaminhará você para uma avaliação com um otorrinolaringologista. Essa parceria entre os dois especialistas é fundamental para o sucesso da cirurgia.
Não tenha medo de fazer perguntas. Um bom médico está sempre disposto a explicar o procedimento, os riscos, os benefícios e o que esperar.
Referências:
Para a elaboração deste artigo, foram consultadas informações de fontes médicas de alta credibilidade, como a American Academy of Ophthalmology (EyeWiki), o portal Johns Hopkins Medicine e artigos científicos publicados na plataforma SciELO. A colaboração e o estudo de caso foram gentilmente cedidos pela Dra. Camilla Duarte.
Roithmann, R., Burman, T., & Wormald, P. J. (2012). Dacriocistorrinostomia endoscópica. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, 78(6), 1-9.
Johns Hopkins Medicine. (s.d.). Dacryocystorhinostomy: Treatment for a Blocked Tear Duct.
American Academy of Ophthalmology. (2026). Dacryocystorhinostomy. EyeWiki.
Sung, J. Y., et al. (2019). Surgical outcomes of endoscopic dacryocystorhinostomy. Scientific Reports, 9(1), 19891.











