A Associação Cornélia Vlieg, com sede em Campinas (SP), luta para manter as oficinas de geração de renda para 300 pacientes com transtornos mentais, dependência em álcool e outras drogas. As 13 oficinas são realizadas em parceria com o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira e funcionam em dois endereços: Armazém das Oficinas e Casa das Oficinas.
A municipalização do serviço de saúde, firmada entre o Cândido Ferreira e a Prefeitura Municipal de Campinas em 2025, vai impactar as 300 vagas disponíveis para os pacientes, com o fechamento de oficinas e a transferência de usuários para centros de convivência do governo municipal, que ainda não estão estruturados.
Os pacientes que participam das oficinas têm entre 20 anos e mais de 70 anos. Eles recebem bolsas que variam de R$ 200,00 a R$ 1.700,00 e, com esse valor, conseguem custear as despesas pessoais e ajudar as famílias.
Dona Ana da Silva Teixeira Filho, de 73 anos, é um desses exemplos de inclusão e geração de renda. Ela participa há mais de 20 anos do projeto. Dona Ana conta que, com os R$ 900,00 recebidos por mês pela produção de vitrais, consegue pagar as contas de água, luz e telefone.
“Ainda consegui guardar um pouquinho de dinheiro e pretendo esperar esquentar para ir com o meu esposo para a praia”, revela Dona Ana, já sonhando com os dias de sol, descanso e passeio no litoral.
Oficinas
Os pacientes passam o dia nas oficinas, em média, de três a cinco vezes por semana. Eles aprendem a fazer vitrais, papeis reciclados, agricultura e outros ofícios. Os usuários são encaminhados pelos centros de saúde e Centros de Atenção Psicossocial (Caps), nos quais realizam os tratamentos em saúde mental.
“As oficinas são fundamentais para garantir renda, inclusão social, melhora nas condições clínicas e no tratamento do paciente, além da socialização com a família e a sociedade. Também eleva a autoestima. A Associação Cornélia Vlieg tem 32 anos de prestação de serviços de acolhimento de pacientes com transtornos mentais. Somos uma referência no Brasil”, afirma a presidente da Associação Cornélia Vlieg, Elizabete Santana.
Preocupação
A Associação é responsável pela gestão administrativa dos projetos de geração de renda e inclusão social dos pacientes com transtornos mentais, que são realizados em parceria com o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira.
A Prefeitura de Campinas, a partir do acordo firmado com o Cândido Ferreira, prevê mudanças no projeto de geração de renda. O plano estipula o fechamento de vagas e a transferência de 200 pacientes para Centros de Convivência sob gestão direta do governo municipal. Mas alguns centros ainda não têm sede própria e outros espaços não estão funcionando na totalidade.
Segundo a gestora do Armazém das Oficinas, Angelica Quartaroli, a Associação Cornélia Vlieg busca o diálogo com a Prefeitura de Campinas e parceiros para encontrar uma solução que garanta a oferta de trabalho e renda aos pacientes.
A maior preocupação é o reflexo na vida dos usuários do projeto que não têm oportunidades no mercado de trabalho e que precisam da renda para sobreviverem e ajudarem as famílias.
Outro aspecto relevante é a consequência sobre o tratamento da saúde mental dos pacientes do projeto, cuja atividade diária reduz crises e hospitalizações. Dona Ana, diagnosticada com esquizofrenia, afirma que antes de chegar às oficinas passou várias vezes por internações e tinha crises severas de insônia.
“A falta de uma ocupação, e o fato de eu ficar com a mente vazia só fazendo os serviços de casa, me causavam as crises. Hoje, não sei mais o que é internação, durmo bem e fui dispensada das consultas psiquiátricas”, conta. Ela vai ao clínico geral apenas para pegar as receitas das medicações.
A gestão da entidade também está alerta com a possibilidade da demissão de funcionários que atuam nas oficinas e são especializados nos cuidados com os pacientes em tratamento de sofrimentos psíquicos, de dependência em álcool e outras drogas.

Acolhimento
Mais do que aprender um ofício, as oficinas representam para os usuários qualidade de vida com resgate da autoestima, atendimento psicossocial e inserção no mercado de trabalho. O projeto também contribui com o sistema público de saúde, uma vez que um paciente estável requer menos atendimento.
O gráfico Anderson Rodrigues, de 52 anos, seguia o curso normal da vida até que em 2001 viveu uma tragédia familiar. “Eu vi a minha mãe e o meu irmão serem mortos. A partir daí, comecei a viver em uma situação de extrema vulnerabilidade”, relata.
Ele trocou a casa onde morava pelas ruas e passou a pedir dinheiro. “Às vezes, era para comer e outras para beber. O álcool me fazia esquecer daquela cena que eu vi e não pude fazer nada”, lamenta.
Anderson conheceu as oficinas e aprendeu uma nova profissão. “Aprendi a fazer ladrilhos (pisos) e com a bolsa que eu ganhava passei a viver. Pagava um quarto para morar e me alimentava no Bom Prato. Foi muito importante esse tempo das oficinas para mim”, relembra.
Junto com o trabalho nas oficinas, ele faz acompanhamento no Caps, onde permanece em tratamento.
Parcerias
Para que a Associação Cornélia Vlieg possa dar um recomeço às centenas de pacientes que estão ou que já passaram pelas oficinas, ela conta com o apoio de empresas parceiras, como a Arcor, uma das líderes do ramo alimentício, que há pelo menos 15 anos apoia o projeto.
“O Armazém das Oficinas desempenha um papel fundamental. Por várias vezes, levamos os oficineiros às reuniões da diretoria e de gerentes nacionais para apresentarem e desenvolverem produtos com eles”, relata a gerente nacional do Instituto Arcor Brasil, Milena Porrelli Drigo Azal.
Milena ressalta que a parceria vai além da compra de produtos. “A aquisição é apenas uma parte dessa aliança e isso é pouco comparado ao impacto que essa iniciativa gera”, diz. Ela explica que a empresa leva funcionários para conhecer cada grupo produtivo no local das oficinas.
“Conviver com essas pessoas, escutá-las apresentando seus trabalhos, suas histórias de vida, aprender com elas, isso não se mede, se vivencia. Essas pessoas são empoderadas, sentem-se valorizadas, inseridas na sociedade, recebem uma renda e são verdadeiramente autores de sua própria história”, salienta.
Ela afirma que o fim do projeto ou a redução dos atendimentos teria um impacto negativo muito grande para a sociedade.
“É um trabalho de referência internacional que transforma vidas. Será uma grande perda para todos nós se o projeto deixar de existir”, lamenta a executiva.
Sobre a Associação Cornélia Vlieg
A Associação Cornélia Maria Elizabeth V. Hylckama Vlieg é uma organização sem fins lucrativos. Ela foi fundada em 1993 com o objetivo de viabilizar o funcionamento jurídico e administrativo das oficinas.
Reconhecida como de utilidade pública nas esferas municipal, estadual e federal, a instituição possui o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS). Ela administra oficinas de trabalho como espaços alternativos e estratégicos que contribuem na inclusão social oferecendo acolhimento, geração de renda, alimentação, tratamento e cuidados.
A Associação também oferece, em parceria com a Secretaria de Assistência Social de Campinas, o projeto Oficinas de Trabalho para Pessoas em Situação de Rua, com 30 vagas, que visa, por meio das atividades manuais realizadas nas oficinas, ensinar um ofício e mudar a condição social dessas pessoas.
A Associação atua com o Serviço de Orientação às Pessoas em Situação de Rua (SOS Rua), iniciativa que tem como objetivo estabelecer vínculos e prestar apoio para a população em situação de rua. O projeto tem a parceria da Secretaria Municipal de Assistência Social.
Outra frente de trabalho da entidade é o Centro de Convivência Inclusivo Intergeracional que tem como foco promover ambientes inclusivos e acolhedores por meio de experiências lúdicas, culturais e esportivas. As atividades propiciam o fortalecimento das relações familiares e comunitárias.











