De vez em quando aparece em minha rua um carro de som, com música animada e narração lúdica, anunciando a chegada do circo, na Vila Padre Anchieta. Há uma área vazia naquele bairro, próxima aos prédios do CDHU e do antigo Novo Hotel, que se tornou o local favorito para a instalação de circos, em um cenário que tem ainda a vista da Rodovia Anhanguera e seu movimento constante.
Acho interessante a perseverança e tradição da arte circense, que resiste às mudanças do tempo e enfrenta a concorrência quase esmagadora de outros meios de entretenimento. Além disso, é uma atividade que precisou se reinventar para atender aos padrões aceitáveis do mundo contemporâneo. Sempre me questiono qual o nível de atratividade do circo nos dias atuais. Confesso que não sou frequentador, talvez nunca tenha sido, mas nunca foi por rejeição.
Lembro-me de que na infância desejei muito ir aos circos que chegavam perto de casa. Certa vez, um deles foi instalado em uma área vazia onde se situa hoje o bairro Parque Shalon, e cujo ponto de referência mais conhecido era a empresa Moinho da Lapa e o Centro de Progressão Penitenciária Professor Ataliba Nogueira.
Naquela época, houve uma ação promocional do circo que distribuiu desenhos do palhaço Bozo às crianças, e quem levasse o desenho colorido entraria gratuitamente. Não esqueço a euforia que me levou a sair de porta em porta na vizinhança para saber quem poderia me emprestar lápis de cor. Mas, naquela época, quando o Núcleo Residencial Boa Vista era apenas um conjunto de barracos em meio a plantações de bananeiras, todos compartilhavam igual pobreza, e mal sabia eu que mesmo com o desenho colorido e a entrada garantida, minha mãe não teria condições de pagar sua entrada para me acompanhar.
Por falar em lembranças do circo, os moradores mais antigos de Campinas e região devem se recordar com carinho de uma companhia circense que marcou época, e deixou uma saudade imensa: o Circo-Teatro Irmãos Almeida.
Este circo-teatro tornou-se muito popular na década de 1960, em Campinas, quando se fixou na cidade, mas antes disso, já encantava o público campineiro com apresentações memoráveis, e peças teatrais que estimulavam a imaginação das pessoas, em uma época na qual os aparelhos de TV eram raros nos lares, e o grande entretenimento era o rádio.
Frequentemente, o Circo-Teatro Irmãos Almeida – fundado por José Luís de Almeida – instalava-se em locais como a Rua Salles de Oliveira, na Vila Industrial, bem ao lado do Cine Rex; na Rua dos Alecrins no Cambuí; no bairro São Bernardo, próximo à Avenida das Amoreiras; no Taquaral, na Avenida Nossa Senhora de Fátima; no Centro de Campinas, na esquina das avenidas Francisco Glicério com Orosimbo Maia; na Avenida Alberto Sarmento com a Rua Salvador Penteado, no Bonfim; na Avenida Ângelo Simões com a Avenida da Saudade, no bairro Ponte Preta dentre outros locais da cidade.
Esta companhia circense recebeu o nome de Circo-Teatro Irmãos Almeida na década de 1950, quando era comandada pelos irmãos Walter, Alfredo e Abegair, netos de José Luís de Almeida e filhos de Diógenes de Almeida.
Sob o comando dos três irmãos, aquela companhia, que teve sua origem como teatro de rua, e que herdou o estilo artístico da família chinesa de José Luís de Almeida, tornou-se um grande sucesso com apresentações inesquecíveis e a presença no palco de artistas fantásticos, como Os Trapalhões, o ator e humorista Mazzaropi, a dupla de cantores sertaneja Tonico e Tinoco, e os cantores Cauby Peixoto e Luiz Gonzaga.

São apenas exemplos de alguns artistas renomados que prestigiaram e foram prestigiados naquele circo, que se destacou em suas temporadas no estado de São Paulo e em outras regiões do Brasil pelas peças teatrais bem elaboradas e com imenso valor nostálgico.
Walter de Almeida era uma celebridade daquele mundo de emoção e fantasia.
Tinha a fama de ser o galã e grande cantor. Seu irmão Alfredo interpretava o palhaço Fredô, e a irmã Abegair era a personagem Nhá Tica. Juntos, eles divertiram e alimentaram a fantasia circense até a década de 1970, quando a companhia circense perdeu fôlego e espaço na preferência popular, mas nunca foi esquecida.
O Circo-Teatro Irmãos Almeida recebeu várias homenagens e certamente inspirou as novas gerações, que trabalham heroicamente para manter viva esta arte tão antiga e tão essencial.
Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter vida a memória e a história da cidade
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