Entre os dias 29 de junho e 2 de julho, Brasília sedia a 1ª Conferência Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O objetivo é acelerar a implementação dos ODS no Brasil, inscritos na Agenda 2030.
A Agenda 2030 foi lançada em 2015 pela Organização das Nações Unidas (ONU), contemplando 17 grandes ODS. Na prática, a Agenda 2030 dá continuidade aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, lançados pela ONU em 2000.
Os 17 ODS são grandes objetivos para que o planeta alcance o máximo de desenvolvimento sustentável até 2030, nas áreas ambiental, social e econômica. Superação da pobreza, proteção dos recursos naturais e da biodiversidade, garantia de educação e saúde de qualidade para todos, enfrentamento das mudanças climáticas, promoção da energia renovável são em síntese o que pretendem os ODS, cada um deles com metas específicas a serem alcançadas até 2030.
Desde o lançamento da Agenda 2030, organizações da sociedade civil, governos e empresas de todo mundo inseriram os ODS em seus princípios e missão. É muito comum ver um site de ong ou empresa na Internet indicando seus esforços para contribuir com este ou aquele ODS.
O Brasil, entretanto, ainda está muito longe de atingir o que está previsto nos 17 ODS, daí a realização da Conferência, que oficialmente tem entre seus objetivos “sensibilizar, mobilizar e formar amplamente a sociedade brasileira em torno do debate público sobre a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Busca-se assegurar máxima legitimidade, representatividade e participação social, promovendo um amplo processo democrático de construção de propostas e estratégias para implementação efetiva dos ODS em território nacional, bem como a promoção do letramento dos cidadãos e cidadãs sobre a Agenda 2030 e os ODS”.
Tudo em uma linguagem mais ou menos protocolar, mas o grande motivo mesmo é acelerar a implementação da Agenda 2030 no Brasil. De acordo com o Relatório 2025 de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, o Brasil está em 54º lugar no ranking dos países que integram a ONU, considerando a observação dos ODS. O Brasil figura atrás de países como Portugal (20º lugar), Chile (35º), Uruguai (38º), Cuba (40º), Ucrânia (42º) e Argentina (46º), de acordo com o Relatório da ONU. Finlândia, Suécia, Dinamarca, Alemanha e França são os países que ocupam o topo do ranking.
De acordo com o mesmo documento, o Brasil tem avançado apenas em 1 dos 17 ODS, o de número 7, que trata de energia limpa e acessível (em função dos avanços na geração de energia eólica e solar, sobretudo na Região Nordeste). O país tem obtido avanços moderados nos ODS 13 (Ações climáticas), 8 (Trabalho decente e crescimento econômico), 9 (Inovação industrial e infraestrutura), 4 (Qualidade da Educação), 5 (Igualdade de gênero) e 11 (Cidades e comunidades sustentáveis). O Brasil, por outro lado, apresenta retrocessos ou está estacionado nos ODS 1 (Redução da pobreza), 2 (Fome zero), 3 (Saúde e bem-estar), 10 (Redução das desigualdades), 14 (Vida na Água), 15 (Vida na Terra), 16 (Paz, Justiça e Instituições Fortes) e 17 (Parceria para o desenvolvimento). A própria ONU, porém, já indicou que o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2025, depois de ter voltado a esse Mapa em 2022, no período do governo de Jair Bolsonaro.
O Relatório Luz 2025 também mostra que o Brasil está muito atrasado em cumprir a maioria dos ODS. O Relatório Luz é produzido desde 2017 pelo Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, que reúne um conjunto de organizações de vários segmentos e faz um monitoramento do cumprimento dos ODS no país.
Segundo o Relatório 2025, com base em dados de 2024, foram monitoradas 168 metas abrangidas pelos 17 ODS, conforme indicado pela Agenda 2030 da ONU. Das 168 metas, 73 têm cumprimento insuficiente (43,35%), 34 estão estagnadas (20,23%), 26 apresentam retrocessos (15,47%) e 15 (8,92%) estão ameaçadas. Somente 12 (7,14%) apresentam cumprimento satisfatório.
O Relatório Luz indica que as Metas 1.1, 1.2 e 1.3 (dentro do ODS 1, de Redução da pobreza), que tratam da redução da pobreza, apresentaram evolução satisfatória. As Metas 1.4 e 1.5, entretanto, tiveram retrocesso, sendo relativas ao aumento da população vivendo em situação de rua e continuidade da população morando em situação precária. A Meta 2.1 (dentro da ODS 2, de Fome Zero e Segurança Alimentar), de redução da população em situação de fome, teve evolução satisfatória. A Meta 2.4 está ameaçada, relacionada ao avanço no uso de agrotóxicos no Brasil. O mesmo na Meta 2.c, indicando a volta na inflação de alimentos.
Em termos de Saúde e Bem-Estar (ODS 3), a Meta 3.1 teve evolução satisfatória (Redução da mortalidade materna), mas a Meta 3.9 está ameaçada (redução das mortes por poluição). Com relação ao ODS 4 (Educação de qualidade), a maioria das metas está ameaçada ou em retrocesso, segundo o Relatório Luz. Em retrocesso por exemplo a Metas 4.1 (com redução no acesso ao Ensino Fundamental e baixo índice de estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental já alfabetizado) e 4.3 (baixa porcentagem de jovens em ensino técnico e profissionalizante).
Evolução satisfatória em metas como a 8.10 (digitalização financeira), 10.6 (maior participação do Brasil em fóruns econômicos internacionais) e 15.6 (melhor arcabouço jurídico e institucional para a proteção da biodiversidade nacional).
Em suma o Relatório Luz indica que o Brasil ainda tem muito a caminhar para o cumprimento pelo menos satisfatório dos 17 ODS e suas dezenas de metas. Mas o Brasil não está sozinho.
O Relatório 2025 de Desenvolvimento Sustentável da ONU indica que em média, globalmente, os ODS estão muito longe de ser alcançados. Em nível global, nenhum dos 17 objetivos está atualmente a caminho de ser atingido até 2030. “Conflitos, vulnerabilidades estruturais e espaço fiscal limitado impedem o progresso dos ODS em muitas partes do mundo”, afirma a ONU, apontando que apenas 17% das metas estão a caminho de serem alcançadas.
Tomara que a Conferência Nacional dos ODS alcance seus propósitos e a sociedade brasileira, de modo coletivo, avance no cumprimento da Agenda 2030. Mas as perspectivas não são boas, considerando os recursos necessários para financiar a maior parte das metas.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com












