‘Kokusho-bi’ é o termo utilizado no Japão para designar dias de calor extremo, com temperaturas acima de 40 graus, o chamado “calor cruel”. Mais do que uma definição, o conceito revela um alerta de que o que antes era exceção começa a se consolidar como novo normal.
O aquecimento global já não é mais uma previsão. Ele se manifesta nas ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, afetando diretamente a vida, a saúde, a produção agrícola e a forma como viveremos. Não se trata apenas de desconforto, mas de riscos incomensuráveis, consequência de decisões absurdas e da falta de respeito com a natureza. E, diante disso, a pergunta se impõe: estamos fazendo o suficiente e o correto?
Esse desafio vai além de soluções pontuais. Não basta amenizar o calor. É preciso enfrentar a causa. Plantar mais árvores, ampliar áreas verdes, investir em energia limpa e reduzir a dependência de combustíveis fósseis, além de começar a educar todos, desde a criança, sobre esse risco sistêmico. O problema nunca foi falta de alternativas, mas dificuldade de transformá-las em prioridade.
Ainda assim, seguimos em um ritmo contraditório. Avançamos em tecnologia, mas hesitamos nas escolhas. Falamos de futuro, mas agimos no curto prazo. Enquanto isso, decisões imediatas continuam ampliando emissões e adiando soluções que já sabemos que são necessárias.
Há quem ainda acredite que um país como o Brasil estaria protegido pela sua dimensão, mas a realidade começa a mostrar o contrário. O aumento da temperatura, combinado com a umidade mais baixa e a irregularidade das chuvas, já altera rotinas, pressiona regiões inteiras e impõe novos desafios à produção agrícola e à vida cotidiana.
Estudos indicam que, em 30 anos, algumas áreas do Brasil podem se tornar inabitáveis, devido à combinação de calor extremo, superando a capacidade do corpo humano de regular a temperatura corporal.
Nossos netos vão sofrer, pois vão herdar um mundo onde o “normal” envolve insegurança alimentar, calor mortal, poluição elevada e a constante ameaça de desastres naturais. O ritmo atual de inação está acelerando a transformação da Terra em um ambiente hostil à vida humana. E, acredite, por enquanto não vai dar para morar na Lua!
O mundo já dispõe de conhecimento e tecnologia para mudar esse cenário. Energia limpa, inovação e novas formas de produção estão disponíveis. O que ainda falta, em muitos casos, é decisão, porque, no fim, o futuro não é apenas algo que acontece, mas o que construímos, todos os dias, nas escolhas que fazemos.
Será que teremos que nos acostumar com essa “comida” indigesta?
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar












