Se é preciso entender o passado para compreender o presente, o livro “Campinas, teus passos me guiam”, escrito por Janete Trevisani, jornalista com longa trajetória na imprensa da cidade, mostra que a atual metrópole, no início um povoado, contou com o talento e a dedicação de muitos profissionais corajosos e obstinados para chegar aos 252 anos, completados em 14 de julho de 2026.
Depois de elaborar muitos textos sobre a memória da terra fundada por Barreto Leme, a profissional que trabalhou em vários veículos de comunicação, escolheu personagens marcantes que fizeram parte do crescimento da cidade para destacar no livro que começou a ser escrito durante a pandemia do coronavírus, quando a terra das andorinhas fechou suas portas e a população se trancou em casa, como ocorreu em 1889, período em que Campinas enfrentou a febre amarela.
É esse esforço e dedicação que o Hora Campinas apresenta aos leitores neste especial que estará disponível entre esta sexta-feira (10) e o outro domingo (19). Depois, o especial ficará fixo para consulta nos arquivos digitais do portal, para ser acessado a qualquer tempo, de qualquer lugar do mundo, de forma gratuita.
Ainda não publicada e à espera de patrocínio, a obra é um documento histórico que lança luz em personagens importantes da história e em fatos de grande impacto na trajetória da cidade.
O livro-reportagem é, antes de tudo, uma homenagem a mentes brilhantes que fizeram Campinas chegar até hoje, uma metrópole pujante, de economia robusta e destaque nacional em áreas como educação, ciência, tecnologia e inovação, entre outros segmentos.
Não é uma cidade perfeita. Tampouco atende a todas as expectativas sociais e corporativas. Mas é uma Campinas de múltiplas oportunidades e um eldorado para quem enxerga gratidão e portas abertas no ciclo natural de uma vida urbana em constante transformação.

Entenda o livro-reportagem
A febre amarela que invadiu Campinas no Verão de 1889 quase a transformou numa cidade deserta. Ao todo foram cinco surtos (1889, 1890, 1892, 1896 e 1897), sempre com início em fevereiro.
O auge ocorria em março e abril, com declínio em maio, sendo que em junho já não havia novos registros da doença.
Uma das vítimas da febre amarela foi o médico João Guilherme da Costa Aguiar, que morreu em 19 de maio de 1889, quando tratava os doentes. Em 1886, o município de Campinas contava com 41.253 habitantes. Estima-se que a população urbana fosse da ordem de 15 a 20 mil habitantes e que tivessem permanecido na cidade de 3 a 5 mil. Quase a metade foi a óbito.
O Colégio Florence, dirigido por Carolina Krug Florence, foi transferido para Jundiaí. Já as firmas produtoras de máquinas e implementos agrícolas, Cia McHardy e Cia Lidgerwood, migraram para a capital. Várias farmácias também fecharam suas portas: restaram apenas oito, entre elas a Imperial, de propriedade do farmacêutico e vereador Oto Langgaard.

Viagem aos anos sombrios da Covid
Para mostrar que a cidade sofreu o mesmo impacto recentemente, quando o coronavírus deixou ruas vazias, campineiros mortos, lojas fechadas e moradores assustados, o fotógrafo Osvaldo Furiatto, que acompanha Trevisani no projeto, saiu pelas ruas, cemitérios e hospitais para fotografar o impacto que a Covid 19 causou em Campinas.
Mas, da mesma forma que a cidade conseguiu renascer no passado, agora ela também se refaz, e o livro mostra exatamente os passos que os habitantes deram, com coragem e determinação, do passado até o presente.
O livro-reportagem “Campinas, teus passos me guiam”, tem fotos da Campinas atual feitas por Osvaldo Furiatto, que já atuou como editor de arte na Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), e também trabalhou no portal Globo.com.
“As imagens da cidade nos anos da recente pandemia do coronavírus, com ruas vazias e população isolada, contrastam com as antigas, quando Campinas sofreu sérios surtos de febre amarela e também ficou longe das aglomerações”, diz Janete.
Olhar apurado para a memória
Formada pela PUC-Campinas, Janete Trevisani foi editora-chefe do Jornal de Domingo, semanário já extinto, e que pertencia ao grupo O Estado de São Paulo. Também foi repórter e editora nos jornais Correio Popular, Diário do Povo, Jornal do Lar (Diário do Povo), Gazeta do Cambuí e Revista Metrópole (Correio Popular).
Na Metrópole ela manteve por três anos e meio a coluna Memorável, com textos de memória que serviram de inspiração para “Campinas, teus passos me guiam”. Mais recentemente, a jornalista assinou as colunas Empodera e Memória no portal Hora Campinas.

O que seria de Campinas sem as imagens do passado?
O livro escrito por Janete Trevisani presta uma homenagem a alguns fotógrafos, especialmente a dois que já partiram depois de retratar as grandes transformações da cidade: Aristides Pedro da Silva (o V-8) e Gilberto De Biasi.
O riquíssimo acervo dos notáveis profissionais das lentes hoje pertencem ao Centro de Memória da Unicamp (CMU).
“Também cito Neldo Cantanti, que morreu em 2021, com quem trabalhei no Diário do Povo, profissional muito competente que deixou sua marca na imprensa de Campinas”, lembra a jornalista.

Nomes que batizam o que o campineiro vê
Da mesma forma que Costa Aguiar, que dá nome a uma rua central de Campinas, o livro destaca outras personalidades que também são nomes de vias que o campineiro cruza com frequência, como José Paulino, Campos Salles, Heitor Penteado, Orosimbo Maia, Francisco Glicério e Moraes Salles. Sabia que Francisco Glicério e Moraes Salles tinham desavenças? Hoje se encontram diariamente num dos principais cruzamentos do Centro, olha que sina!
Claro que grandes mulheres também são lembradas, especialmente Maria Monteiro, a primeira cantora lírica do Brasil, e Júlia Lopes de Almeida, a escritora feminista brasileira que morou na cidade da infância até o início da juventude. A educadora Carolina Florence é outra mulher de destaque em “Campinas, teus passos me guiam”, da mesma forma que Maria Umbelina Couto, figura importante na criação do Liceu de Artes Ofício, atualmente Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora.
Não poderia ficar de fora a influente Olívia Guedes Penteado, grande incentivadora do modernismo no Brasil e amiga de artistas importantes que integravam o movimento.
A imprensa
O nascimento da imprensa em Campinas, com o Aurora Campineira, em 4 de abril de 1858, dos irmãos João e Francisco Teodoro Siqueira e Silva, marcou o início de um período fertil de boas leituras, como A Onda, de 1921, primeira revista com perfil modernista, que retratava os costumes da época.
Em meados do século 19 e no início do século 20, revistas e jornais elaborados pela população negra surgem como ferramenta de luta, mobilização e discussão da posição do negro pós-abolição no Brasil. Textos do jornal O Getulino destacavam a relação do jornal com as entidades ligadas aos negros.
Como nem tudo são flores, o livro mostra também o descaso que um grande artista sofreu em Campinas. Ele se chamava Vitoriano dos Anjos Figueiroa e foi contratado com mais de 90 anos de idade para fazer a ornamentação da Matriz Nova de Nossa Senhora da Conceição, a Catedral.
O “professor dos entalhes”, como era chamado, foi o responsável pelos entalhes do altar-mor, das tribunas, dos púlpitos, da varanda do coro e condução das obras até 1862, quando foi dispensado pelo novo administrador, Antônio Carlos de Sampaio Peixoto, o “Sampainho”.
Em 1869, o entalhador baiano foi encontrado estendido na rua pelo pintor e dourador Francisco de Paula Marques, que teve a ideia de fundar uma instituição para abrigar os mais carentes.
Pobre e esquecido, Vitoriano morreu com mais de 100 anos de idade em 30 de julho de 1871 e seu corpo foi sepultado no antigo cemitério da matriz.
O livro fala também da demolição de dois teatros de Campinas, o São Carlos e o Municipal, além de citar o incêndio do Cine Rink, em 1951, um dos fatos mais tristes da história da cidade. Também enaltece o trabalho de médicos como Mário Gatti, Thomaz Alves e Joaquim Corrêa de Melo, conhecido como Joaquinzinho Boticário.
Outro especialista brilhante, Lycurgo de Castro Santos Filho (1910-1998), que escreveu, junto com José Nogueira Novaes, o livro “A Febre Amarela em Campinas 1889-1900”, tem sua trajetória lembrada em “Campinas, teus passos me guiam”.
Outra referência na área médica, Zeferino Vaz, nascido em 27 de maio de 1908, especializou-se em parasitologia e doenças parasitárias, biologia, genética e zoologia geral.
Assumiu a reitoria da Unicamp em 1966 e conduziu a construção do campus da universidade, que hoje leva o seu nome.
Ele é lembrado no livro, da mesma forma que o médico Celso Pierro, que em 1973 adquiriu um terreno na Avenida John Boyd Dunlop, nas proximidades da Rodovia Anhanguera, e iniciou a construção da Cidade da Saúde. Com a morte de Pierro, em 1977, aos 58 anos, a família doou a clínica construída no local para a Pontifícia Universidade Católica de Campinas, que assumiu a dívida da construção e comprou a área circundante, em que passaram a funcionar as Faculdades de Medicina, de Enfermagem e de Odontologia.

Carlos Gomes
Claro que Janete Trevisani incluiu o filho mais famoso de Campinas em sua pesquisa: o maestro Carlos Gomes, o mais importante compositor de ópera do País, autor de “O Guarani” e primeiro brasileiro a ter suas obras apresentadas no Teatro Alla Scala de Milão.
O seu pai, Manuel José Gomes, o Maneco Músico, é um dos personagens citados no livro: ele teve mais de 20 filhos, todos membros de sua banda.
A forte influência francesa no comércio e as propagandas mais atraentes em tempos remotos, bem como o flerte que rolava solto na Rua Barão de Jaguara, são outros temas abordados na publicação que convida o leitor a mergulhar com prazer nessa envolvente viagem de volta ao passado.
Um “tour” que permite ligar o ontem ao hoje de forma intensa e envolvente. Da febre amarela ao coronavírus, o que fica de lição é o trabalho de quem segue, passo a passo, uma rotina de afeto, coragem e muita persistência.
O Hora Campinas, com esse especial, apresenta partes da obra, dividindo esse esforço de Janete e Osvaldo com os seus leitores.













