Na roda de conversa, durante evento em uma creche cogerida de Campinas, um pai comentou que era a primeira vez que participava de uma atividade escolar como família. Eles tinham conseguido a vaga pelo cadastro municipal e estavam começando a descobrir o espaço — ainda tímidos, mas atentos. Quando convidados a compartilhar um pouco de sua trajetória, falaram com simplicidade. Depois, participaram da brincadeira com a criança como se sempre tivessem feito parte dali.
Esse relato aconteceu na creche onde atua Ana Cláudia, coautora deste artigo. Professora da educação infantil em uma unidade cogerida pela rede municipal de Campinas, ela trabalha em um contexto em que a escola representa o primeiro contato da família com o serviço público de educação. Localizada na periferia da cidade, a unidade acolhe crianças pequenas e suas famílias — muitas delas com pouca familiaridade com o funcionamento escolar e suas possibilidades.
Em 2025, a equipe pedagógica escolheu como tema gerador do ano a frase: “Um passarinho me disse que somos feitos de histórias.” Essa ideia atravessou o planejamento, as vivências e o cotidiano da comunidade escolar ao longo do semestre.
Para o encerramento do primeiro semestre, nasceu o nome da festa: “Um quintal, mil histórias.” E não foi por acaso. Nos bairros populares de Campinas, o quintal é espaço de convivência: crianças brincam, vizinhos conversam, famílias compartilham rotinas, memórias e afetos. Inspirada nesse imaginário, a equipe transformou a escola em um grande quintal coletivo, onde cada família contribuiu com objetos, relatos e referências que ajudaram a compor a ambientação.
A festa foi mais do que uma exposição. Houve rodas de conversa, espaços de escuta e momentos de interação, onde as famílias participaram ativamente. Muitas relataram que era a primeira vez que se sentiam parte de um espaço público, não apenas como responsáveis legais pela criança, mas como sujeitos com história, voz e pertencimento.
Essas famílias, especialmente as chamadas famílias de cadastro — recém-chegadas ao sistema por meio da lista de espera — mostraram que inserção escolar não se resume à vaga conquistada. A experiência vivida naquele dia evidenciou que acolhimento e escuta qualificam o vínculo entre creche, criança e comunidade.
A iniciativa da escola de Ana Cláudia reforça o que o Observatório da Educação Campineira tem buscado acompanhar e divulgar: há movimentos consistentes de valorização do vínculo entre creche e território. Há equipes comprometidas com a construção de espaços significativos, mesmo diante de condições desafiadoras, apostando no envolvimento das famílias e na potência educativa do cotidiano.
Campinas vive hoje o avanço concreto de zerar a fila da educação infantil. Um feito importante, sem dúvida. Mas zerar fila não é fim de processo, é só um passo. O verdadeiro desafio está no que se faz após o acesso: garantir pertencimento, continuidade, reconhecimento e uma relação de confiança entre as partes envolvidas.
No evento Quintal de Histórias, foi isso que aconteceu. A creche abriu espaço real para a escuta. As famílias participaram, compartilharam, ocuparam. As crianças se reconheceram no processo. O chão da creche se tornou espaço de construção conjunta — histórias que ganham vida quando há quem queira ouvi-las.
Relatos como esse não devem ser tratados como exceção. São indícios de que é possível fazer uma educação pública conectada com o território, com as pessoas e com as realidades concretas da infância.
A educação infantil não precisa de invenções mirabolantes. Precisa de tempo para ouvir, coragem para incluir, vontade de partilhar. Precisa ser quintal: espaço aberto e coletivo — onde a história de cada criança se entrelaça com a da escola, e onde a comunidade deixa de ser coadjuvante para se tornar protagonista.
Vanessa Crecci é Professora da rede municipal de educação de Campinas e doutora em Educação pela Unicamp.
Ana Cláudia França é Pedagoga, psicopedagoga e professora da rede de educação terceirizada de Campinas.







