Das palavras ligadas à espiritualidade e à religião que encontramos com muita frequência no nosso cotidiano, uma das mais comuns é “bênção”. Vamos refletir sobre alguns aspectos que me parecem contraditórios e indevidos neste contexto.
No dia a dia de muita gente, e durante muito tempo, pelo menos na infância, o pedido de bênção que os filhos dirigem aos pais acompanhou a história de suas vidas. Alguns mais aderidos ao hábito o repetem até na idade adulta e na maturidade, enquanto têm os ascendentes vivos. Não são poucos os que ainda querem ser abençoados pelos espíritos, mesmo depois da morte do pai e/ou da mãe. E existem também os que preservam uma conexão espiritual com avós ou ascendentes mais antigos, de quem esperam bênçãos ainda mais poderosas e influentes.
É evidente que esse ato parental comum tem uma perspectiva simples e direta de proteger o descendente, salvando-o, blindando-o das mazelas que pudessem ameaçá-lo. Se não os elitizam, não demandam críticas.
Há aquelas bênçãos de consagração, quando temos um clérigo cumprindo rituais para assegurar bons resultados em uma iniciativa. Vai o padre na inauguração de uma loja, vem o pastor proceder o batismo de um fiel. Essas também não mereceriam questionamentos.
À medida que a bênção enfatize a conexão com o divino, a responsabilidade social, proteção pessoal, efeitos coletivos de ética e humildade, é iniciativa saudável. Muitas vezes, pode ser interpretada como uma oportunidade de crescer espiritualmente e servir aos outros. Nesse circuito, estaríamos despreocupados e até incentivaríamos tais ritos.
O drama começa à medida que a bênção favorece uma diferenciação pessoal aqui, na Terra-Gaia, e lá, no Além-Túmulo.
Vemos, a toda hora, na mídia, nas redes sociais, frases, comentários e citações sobre pessoas abençoadas, supostamente merecedoras, superprotegidas, selecionadas por este privilégio.
Assim, o artista, o atleta, uma pessoa famosa, o que se convencionou indicar como “celebridade” e qualquer cidadão comum podem entrar nesta tendência narcisista, vaidosa e perversa, onde se sentem muito especiais e superiores aos demais.
A superioridade os elitiza aqui no universo terrestre e sugere um lugar assegurado no Paraíso…
Tal configuração implica a pior das conjunturas: atribui-se a Deus esta seleção!
Ateus e crentes estariam bem afinados neste ponto de vista: tanto para os que creem quanto para os que não creem em Deus, a elite dos abençoados é terrível, um absurdo.
Em todas as religiões, a tendência é não caracterizar competição entre os fiéis, é favorecer as inclusões, evitar discriminações e, mesmo para grandes pecadores, desenvolver tolerância e perdão.
O perdão é um exercício difícil, complexo, que exige muita compaixão e desapego.
Um vídeo interessante (https://www.youtube.com/watch?v=ZYkknRd2yyE) mostra como o perdão é uma extensão do amor, através do prefixo “per”. No amor, você doa. Na extensão, você perdoa.
Portanto, qualquer seleção de supostos abençoados é submissão aos recursos humanos menores, é pretensão vaidosa, narcisista, ensaios perversos.
O alinhamento à perversão incrementa-se à medida que o corrupto impune, o criminoso glamoroso e condutas antiéticas despertam inveja de muita gente, quase acreditando que esses teriam sucesso devido à garantia de uma escolha divina, que os premia com uma bênção incompreensível à boa indagação humana…
Então, talvez, coubesse aqui uma especulação mística: seria uma ação do Anti-Cristo, uma bênção do demônio?
No site CNP (Christo Nihil Præponere – “A nada dar mais valor do que a Cristo”), o Padre Paulo Ricardo alerta: “… Satanás espalhou pelo mundo que a Igreja Católica não é obra de Deus, mas dele mesmo; e os homens, em sua simplicidade, fogem de Cristo como se fosse o diabo, e correm para seus braços como se ele fosse o Cristo”.
Seja no enfoque religioso ou na perspectiva descrente, criar e incentivar uma seleção de pessoas por uma imaginada força divina que os abençoasse é lamentável. É antirreligioso e antiético, uma ofensa ao amor divino e um retrocesso do amor humano.
Nestas primeiras décadas do Terceiro Milênio, há estudos mostrando que algumas características da sociopatia, como oportunismo e insensibilidade, foram úteis para a sobrevivência humana.
Que assim seja. Precisamos sobreviver! No entanto, temos que estar muito alertados para as armadilhas que nos seduzem com os privilégios do cartel religioso.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.







