No dia 4 de outubro eu completei 57. No dia 5 de outubro a Unicamp fez 59 anos. Não havia me dado conta da semelhança de idade entre mim e a universidade onde fiz a graduação, o mestrado e o doutorado. Nascemos em plena ditadura militar. Então eu comentei nas redes sociais que a Unicamp é uma das maiores referências na minha vida, porque ela me deu estrutura. E só tenho a agradecer a esta instituição acadêmica, orgulho de todos nós, paulistas e brasileiros.
Eu tinha 20 anos quando ingressei na Faculdade de Educação em 1989. Quando formada passei a lecionar em cursos de magistério na cidade, como na Escola Estadual Carlos Gomes e no Projeto CEFAM (uma proposta de excelência para a formação de professores criada pelo governo paulista, no contexto da redemocratização do país, que visava uma política de melhoria da qualidade do ensino público).
Em 1997 ingressei no Mestrado e fui a primeira orientanda da estimada professora Helena de Freitas. Realizei minha pesquisa de campo numa escola municipal que foi indicada pelo ex-professor Ezequiel Theodoro da Silva, que na época era Secretário Municipal de Educação. A discussão pedagógica gerava em torno do Construtivismo, das premissas da pesquisadora argentina Emília Ferreiro, que causou um grande solavanco no modelo da escola tradicional.
Muitos eram os autores e tendências pedagógicas, e havia uma dicotomização de concepções pedagógicas que estavam ora mais alinhadas ao sistema capitalista, ora se contrapunham como tendências mais críticas proponentes da transformação social. Muitos foram os autores e suas correntes, clássicos ou contemporâneos que marcaram a Educação: Paulo Freire, Piaget, Vygotsky, Dewey, Anísio Teixeira, Maria Montessori, Freinet, Dermeval Saviani, Maurício Tragtenberg, latinos ou europeus e que nos fizeram pensar em princípios, fundamentos e políticas para o ensino e aprendizagem nas escolas do nosso país.
O compromisso aprendido na Unicamp foi com a escola pública, laica, gratuita, democrática em sua luta contra o fracasso escolar, preconizando uma avaliação diagnóstica, a gestão democrática e o projeto pedagógico coletivo.
Na educação infantil foram os pressupostos da pedagogia da infância, pautados na experimentação livre das crianças vistas como sujeitos com voz, autonomia e protagonismo nas interações, para além do assistencialismo que preconizava exclusivamente o cuidado nas creches. A educação inclusiva despontou nos anos 1990 com legislação, diretrizes curriculares, implementação de políticas públicas que mudaram a realidade das escolas, com a inserção dos alunos com deficiência.
Com o título do Mestrado da Unicamp passei a lecionar em faculdades e universidades privadas, em cursos de pedagogia e licenciaturas e pós-graduação Latu Sensu (Especialização). Foram anos de docência no ensino superior em cidades da região metropolitana de Campinas, tendo iniciado a carreira em São Paulo e grande São Paulo.
O Doutorado realizei no grupo Memória da Faculdade de Educação da Unicamp e, como pesquisadora no campo da história da educação, orientada pela Professora Vera De Rossi, fiz a descoberta da professora Balbina Cesarino Silva como fundadora, em 1920, da Escola Mista do bairro Felipão (atual Escola Estadual Prof. Luiz Gonzaga da Costa no bairro São João), filha de Balbina Cesarino e neta de Antônio Cesarino.
No tempo do Império, no século XIX, os Cesarinos – uma família de professores negros na cidade de Campinas, fundaram o Colégio Perseverança, onde hoje se situa o Centro de Convivência. Balbina alfabetizou seu sobrinho Antônio Cesarino Júnior, primeiro aluno negro do colégio Culto à Ciência e que se tornou renomado professor da USP.
Na Unicamp fiz disciplinas de psicanálise na graduação. Líamos Freud, Marx, Taylor, Ford, Bourdieu, Durkheim, Althusser… Fiz uma disciplina com a Professora Maria da Glória Gohn sobre movimentos sociais, e meu grupo escolheu o movimento feminista: entrevistamos a coordenadora do SOS Ação Mulher – Campinas. Essas experiências me marcaram para sempre.
Os referenciais teóricos eram quase todos representados por homens brancos, mas eram críticos do sistema social. Nesse contexto histórico o grande desafio era superar os anos de repressão da ditadura e construir a democracia, tendo a escola um papel importante, de formação da cidadania. Hoje, os movimentos se voltam para as questões identitárias como a luta contra o machismo e a misoginia, o racismo, a LGBTfobia e todas as formas de discriminação de gênero, etnia, capacitismo, etc.
A Unicamp me deu estrutura porque me tornei uma profissional de Ciências Humanas, da Educação, e com essa base constitui minha família e cultivei meus laços.
Obtive dignos empregos nas redes pública e privada, estando próxima de me aposentar na rede de ensino municipal. Na Unicamp aprendi muito com meus professores e orientadores de pesquisa. Na Unicamp fiz muitas amizades, que mantenho até os dias atuais. Na Unicamp aprendi a olhar o mundo sem preconceitos e a me indignar contra todas as formas de violência. Aprendi a acreditar na ciência como base do desenvolvimento, a valorizar todas as formas de cultura e diversidade, a me posicionar politicamente em compromisso com a igualdade, a democracia, a justiça social e os direitos humanos.
Os benefícios advindos das ciências devem ser distribuídos a todos, por mais qualidade de vida. Eu saí da minha cidade pequena paulista, nas barrancas do rio Paraná e fiz a vida em Campinas graças à Unicamp, minha universidade, que, pelos conhecimentos adquiridos, assegurou minha base profissional e me proporcionou autonomia, independência e liberdade como cidadã.
Eliana Nunes da Silva, pedagoga, supervisora educacional, é doutora em Educação pela Unicamp.







