A validade de 10 anos da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) é uma anomalia que coloca em risco a segurança viária no Brasil. Estabelecida sem o devido embasamento em pesquisas e sem a consulta a especialistas em segurança viária e saúde, essa regra ignora a dinâmica da saúde humana, que sofre alterações significativas ao longo de uma década.
Outra anomalia é dar aos motoristas profissionais, que muitas vezes chegam a dirigir por 16 horas ao dia, o mesmo tratamento conferido aos demais motoristas. Isso cria um vácuo perigoso no monitoramento da saúde e das habilidades de quem está ao volante.
Os motoristas comuns têm sua saúde mental avaliada uma única vez, apenas quando ingressam no processo para obtenção da carteira nacional de habilitação. A realidade é que em 10 anos, condições físicas e mentais podem se deteriorar, comprometendo a capacidade de dirigir com segurança. Doenças silenciosas, como diabetes, hipertensão e problemas de visão, podem surgir e evoluir sem serem detectadas, tornando-se fatores de risco para acidentes.
A saúde mental, crucial para uma condução segura e responsável, é completamente negligenciada no modelo atual. No país que lidera o ranking mundial de ansiedade, no qual o transtorno se tornou uma epidemia, especialmente entre os jovens, seus impactos no trânsito são alarmantes.
Diariamente vemos exemplos nas redes sociais e imprensa de brigas, desentendimentos e sinistros de trânsito provocados por motoristas imprudentes, violentos e agressivos.
O uso excessivo de telas, tão comum nos dias de hoje, agrava o problema, comprometendo a concentração, aumentando a impulsividade e prejudicando o sono. O bombardeio incessante de informações e estímulos provoca a chamada “síndrome do pensamento acelerado”, que afeta diretamente a capacidade de foco e atenção.
Como consequência, temos motoristas ansiosos, com tempo de reação reduzido e maior propensão a tomar decisões arriscadas, transformando as ruas em espaços de perigo.
Dados alarmantes mostram que a desatenção, frequentemente associada à ansiedade, figura entre as principais causas de acidentes em nossas rodovias. A ausência de exames psicológicos periódicos na renovação da CNH é uma omissão grave. A avaliação psicológica não visa apenas identificar patologias, mas também avaliar aspectos como atenção, concentração, tempo de reação e controle emocional, fundamentais para uma condução segura. A inclusão desses exames seria um importante instrumento de prevenção, permitindo o diagnóstico precoce de problemas e a adoção de medidas para mitigar riscos. Estaríamos, assim, protegendo não apenas o condutor, mas a sociedade como um todo.
Quando políticas públicas são modificadas e já instantaneamente nos dão muitas sinalizações, como aumento de acidentes e de mortes, é preciso mudar. Ampliar o prazo para a renovação da CNH trouxe consequências imediatas. Agora, precisamos não só aprimorar e reajustar a legislação, mas também investir em ferramentas que façam a diferença na mudança do comportamento do motorista.
Renovar a CNH a cada 5 anos, com a obrigatoriedade de exames médicos e psicológicos para todos os condutores, independentemente da categoria da habilitação, é uma medida urgente e necessária. Não podemos continuar ignorando a dinâmica da saúde humana e os riscos que a ausência de acompanhamento representa para a segurança viária.
A saúde mental precisa ser parte integrante da política de trânsito, e a renovação da CNH é a oportunidade ideal para implementá-la. Trata-se de um investimento na prevenção, na saúde pública e na construção de um trânsito mais seguro para todos.
Alysson Coimbra é especialista em segurança viária, médico do Tráfego e coordenador da Mobilização Nacional dos Médicos e Psicólogos Especialistas em Trânsito







