Vivemos a Era da Informação. Recebemos cada vez mais notícias, comentários, novas descobertas, meios de facilitar o acesso ao que está próximo e ao que está distante.
A produção e o consumo são rápidos e generalizados. O conhecimento é intensa e aceleradamente impulsionado pelo desenvolvimento de tecnologias digitais. Aparelhos de computação, a internet e os dispositivos móveis transformaram radicalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos comunicamos.
As informações não selecionam temas nem usuários. Vêm de todo canto, assuntos os mais diversos, impactando todas as pessoas, a não ser nos países em que a liberdade de expressão é limitada. No entanto, felizmente isso acontece em um número pequeno de nações, apesar de incluir aí os habitantes chineses, cerca de 1 bilhão e 400 milhões de pessoas!
Quanto mais informadas, equipando-se de conhecimento, as pessoas tendem a se sentir mais seguras, contando inclusive com a chance de superar doenças e assegurar saúde.
Para se ter uma ideia: o Google recebe 70.000 pesquisas por minuto sobre diversos temas, e as buscas relacionadas à saúde estão entre as mais comuns.
Precisamos nos informar sobre as doenças, seus riscos e garantir saúde. Temos que aproveitar o momento, a Era Digital, o fluxo extraordinário de dados e opiniões para esticar nosso tempo de vida e adiar a morte.
Um dos autores que mais estudaram a complexidade da morte, o antropólogo e escritor norte-americano Ernest Becker foi premiado por seu livro “A Negação da Morte”.
Muito do mal no mundo, para Becker, não era senão uma consequência dessa necessidade de negar a morte. Ele indicou: “sem o salto para a fé, o novo sentimento de desamparo por ter abandonado a armadura do próprio caráter infunde puro terror”.
E Becker apresentou a salvação: “No ponto mais alto da fé, existe júbilo porque se compreende que este mundo é de Deus e, uma vez que tudo está nas mãos d’Ele, que direito temos nós de ficarmos tristes — o pecado da tristeza? (…) A dinâmica do mal é devida fundamentalmente à negação da condição de criatura”.
Desse modo, a criatura assumiria a morte, entregar-se-ia a Deus e se livraria do pavor necrófobo.
Portanto, uma vez bem reconhecida a condição de ser mortal, entidade limitada, perecível, comandada pelo Criador, os medos da morte diminuiriam, talvez até acabassem. Criatura e morte teriam mais é que comemorar o júbilo, apreciando a passagem adequada e natural para a postumidade.
Investir forte na morte, para o crente, seria uma aposta infalível, um ganho indubitável.
Guardadas as devidas proporções, isso é interessante e construtivo. No entanto, a promessa de uma recompensa eterna no paraíso é usada, no fanatismo ideológico, como motivação para atos extremos. O indivíduo pode ser convencido que seu sacrifício será muito bem contemplado, que é a única maneira de alcançar essa imortalidade gloriosa!
O descrente também pode vencer no jogo da vida. Ciente de que tudo se resolve na morte, sua aposta também resultará em um sucesso indiscutível.
Felipe Pondé, de modo didático e sintético, em matéria do programa “Linhas Cruzadas”, da TV Cultura de São Paulo, compara a vivência condizente das crianças com a regressiva dos adultos, em relação aos seres imaginários.
Ele mostra que, na fase de criança, é muito típico e adequado confundir a imaginação com a realidade. Depois, o desamparo, a dependência infantil tão característica, será progressivamente controlado pela pessoa em evolução.
A autonomia do adulto, no entanto, diante da morte, não consegue resistir. A pessoa regride à infância, recorrendo aos seres imaginários.
Para os crentes, verdadeiramente, a aposta é bem mais difícil e duvidosa.
Todas as religiões sugerem que a vida teria duas temporadas: a fase mortal e a postumidade. A vida seria o preparo para o que virá depois da morte.
Se a vida após a morte é tão mais importante, por que nos apegamos tanto às coisas e preocupações desta vida? Então, é porque, no fundo, sabemos que não há vida após a morte – estamos nos iludindo.
As religiões oferecem a promessa de uma vida eterna perfeita, mas nosso comportamento mostra que estamos investindo toda energia, tempo e emoções na vida terrena.
Talvez, esse paradoxo se entenda pelas conquistas tangíveis. Elas promovem sensação de controle e segurança, laços familiares, repertório patrimonial, dinheiro acumulado…
A vida após a morte, por outro lado, exige um ato de fé, uma entrega repleta de dúvidas. No mundo lógico, racional e tão farto de informações, há um hiato, falta a informação transcendente, definitiva.
Temos que nos consolar com um recado muito vivo de um grande intelectual brasileiro falecido recentemente. O legado é do escritor e humorista gaúcho, Luís Fernando Veríssimo: “Passamos a vida inteira nos preparando para a nossa morte e quando ela vem não podemos assistir”…
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.







