A nossa sociedade idealiza a mulher como modelo de mãe, esposa, avó, profissional zelosa, cuidadosa e dedicada. Essa idealização pressiona a mulher a seguir um modelo de perfeição. Mas a mulher é humana e vulnerável. Ela também sente, chora, sofre e adoece.
Adoece, inclusive, de alcoolismo – uma doença crônica, progressiva e potencialmente fatal.
Segundo relatório recente da Organização Mundial da Saúde, cerca de 2,6 milhões de homens e mulheres morrem, anualmente, em todo o mundo, devido a problemas relacionados ao uso de álcool.
É conhecido que os homens apresentam maior prevalência de alcoolismo em relação às mulheres, mas também sabemos que muitas mulheres sofrem com problemas relacionados ao uso de álcool e encontram dificuldades maiores para obter ajuda.
No Brasil, 17% das mulheres adultas afirmaram ter ingerido bebidas alcoólicas uma vez por semana ou mais em 2019. Esse dado demonstra um crescimento de mais de 4% do que era em 2013, segundo as estatísticas do Programa Nacional de Saúde.
Outros estudos mostram um crescimento no padrão de abuso de bebidas alcoólicas entre as mulheres. Os homens bebem mais do que elas, mas os problemas relacionados ao uso de álcool têm crescido mais entre as mulheres, que estão bebendo mais e cada vez mais cedo.
A mulher é mais sensível ao álcool e sob seu efeito apresenta maior vulnerabilidade a ter problemas físicos, emocionais e sociais em decorrência do uso dessa substância. Aliás, eles ocorrem mais precocemente e são mais graves, devido às características biológicas e sociais das mulheres. A evolução da experimentação do álcool para a dependência é mais rápida na mulher.
Biologicamente as mulheres são mais vulneráveis à intoxicação alcoólica por apresentarem menos enzimas que digerem o álcool quando comparadas ao homem, além das diferenças na composição corporal e hormonal que aumentam a sensibilidade feminina ao álcool.
Do ponto de vista social, a mulher que apresenta os problemas relacionados ao uso de álcool são mais criticadas e encontram mais dificuldades para obterem a ajuda necessária para o seu tratamento. Além disso, sofrem maior discriminação e estigma social.
Uma outra consequência diz respeito à violência doméstica. Mulheres sob efeitos de álcool estão mais expostas à violência e as mulheres vítimas de violência também são mais suscetíveis a desenvolverem problemas relacionados ao uso de álcool. Ainda há outros problemas sociais, como a separação conjugal, complicações no trabalho e desemprego.
Todas essas adversidades causadas pelo álcool trazem para a mulher o sentimento de vergonha e culpa, o que provoca seu isolamento e a desconecta das relações humanas, levando essa mulher alcoólica a seu fundo do poço.
Mas, enquanto elas não reconhecem os problemas causados pelo uso de bebida nas suas vidas e nem tomam consciência da necessidade de mudança, o alcoolismo progride e os problemas se acumulam. Acontece que uma dificuldade comum das mulheres que sofrem dessa doença é a negação dos problemas e a minimização das consequências com o uso de bebidas alcoólicas.
Um problema multifatorial como o alcoolismo precisa de uma abordagem multidisciplinar para seu controle e tratamento, para restauração da saúde, ou seja, o bem-estar físico, emocional, social e espiritual.
Para estruturar a recuperação é importante contar com uma rede de apoio que poderá ser formada por médicos, psicólogos, assistentes sociais, familiares e grupos de ajuda mútua, como Alcoólicos Anônimos, que possuem mais de 60 reuniões semanais de composição feminina.
A mulher que sofre com os problemas relacionados ao uso de álcool precisa de ajuda, apoio, cuidado e acompanhamento. Se você tem problemas com a bebida alcoólica dê o primeiro passo. Você não está mais sozinha!
Carlos Henrique Costa é médico cardiologista e do trabalho, com mais de 35 anos de experiência e amigo de Alcoólicos Anônimos há mais de 20 anos.











