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Home Opinião

Artigo: Balzac made in China e a comédia tarifária – por Lucius de Mello

Redação Por Redação
19 de abril de 2025
em Opinião
Tempo de leitura: 5 mins
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Artigo: Balzac made in China e a comédia tarifária – por Lucius de Mello

Imagem Gerada por IA

Tenho me perguntado se há resquícios de literatura na construção do atual pensamento macroeconômico e geopolítico chinês, nos contra-ataques de Xi Jinping na escalada da guerra de tarifas contra Donald Trump.

Desde o começo do século XX, o país asiático tem apostado na tradução, sobretudo de escritores europeus, para entender e decifrar a realidade e a subjetividade que habitam o outro lado do mundo. E assim, os chineses também têm estudado o Ocidente, seus costumes e valores; investigam a história do crescimento do capitalismo e os problemas enfrentados pela sociedade capitalista; o surgimento e os hábitos da burguesia; os pontos fracos do provável inimigo.

Na cátedra chinesa que analisa as fraquezas do Ocidente, um escritor francês detém o título de Doutor Honoris Causa: Honoré de Balzac.

Criador de A Comédia Humana, o maior espelho da realidade social da França do século XIX, Balzac conquistou um status literário elevado e singular na China — muito acima do atribuído à maioria dos escritores estrangeiros. É certo que o tempo de Balzac ficou para trás, as revoluções industrial e tecnológica mudaram radicalmente as relações comerciais e a vida no planeta, porém, o mesmo não podemos afirmar das paixões, vaidades e dos desejos humanos. Balzac fez da França um modelo de civilização capitalista imperfeita e decadente. Daí a razão dele ser tão lido na China.

Guan Meng, em sua pesquisa de mestrado O Fenômeno Balzaquiano na China (Le Phénomène Balzacien en Chine), defendida em 2014 na Universidade de Angers, no oeste da França, afirma que o governo chinês valoriza e sempre elogia Balzac por seu trabalho e experiência: “Todos os estudantes chineses são incentivados a ler os romances de Balzac pelo Ministério da Educação Chinês”. Segundo Meng, “Após o triunfo do Partido Comunista Chinês, isto é, a fundação da República Popular da China, o governo chinês colocou o Marxismo em alta estima. Desse modo, Balzac, escritor francês recomendado por Marx e Engels é parabenizado pelo governo chinês […] Assim, como um escritor francês de esquerda que descreve bem os defeitos de uma sociedade capitalista, Balzac obtém um lugar soberbo em nosso país socialista”.

Apesar de Meng definir Balzac como “autor de esquerda”, há críticos que discordam desse rótulo. Para o russo V. Grib, Balzac é um investigador sociológico, “disputado pela esquerda e pela direita”. No entanto, Grib afirma que Honoré de Balzac e sua obra pertencem à primeira fila das origens artísticas do marxismo: “Se não fora A Comédia Humana, o primeiro capítulo do Manifesto Comunista não teria ressonâncias tão claras e vibrantes”, escreve o pesquisador.

Como registro da ascensão do capitalismo na Europa, A Comédia Humana atrai o olhar não só dos chineses. Em livros lançados em 2013 e 2019, o economista francês Thomas Piketty trabalha com os romances O Pai Goriot e História da Grandeza e da Decadência de César Birotteau em capítulos inteiros de O capital no século XXI e Capital e ideologia. Piketty recorre à rotina e ao modo de vida dos personagens balzaquianos Goriot, Vautrin, Rastignac e Birotteau para explicar a renda média, a oscilação do valor dos salários, o poder de compra dos trabalhadores e o enriquecimento da burguesia na França oitocentista. Segundo Piketty, Balzac e suas obras: “[…] desnudaram os meandros da desigualdade com um poder evocativo e uma verossimilhança que nenhuma análise teórica ou estatística seria capaz de alcançar”. Um retrato realista que pode ser conferido com riqueza de detalhes seja no âmbito das pequenas histórias domésticas como também nos relatos da conturbada história francesa. Aliás, na narrativa da grandeza e da decadência do perfumista Birotteau, Balzac nos dá uma aula sobre o submundo do recém-criado capitalismo, o poder negativo da especulação financeira e da instabilidade econômica.

Na lista de obras balzaquianas que o Ministério da Educação chinês recomenda aos estudantes constam O Pai Goriot e Eugénia Grandet. Além dos cursos de literatura, o curso de política e o de história da China também abordam Balzac.

“Os textos balzaquianos são sempre citados como testemunho dos abusos da sociedade capitalista”, esclarece Guan Meng. “Então, quase todas as pessoas instruídas na China conhecem Balzac e têm uma compreensão simples de seu estilo. Em suma, sob o lema ‘literatura a serviço da política’, o governo chinês ainda continua a ter preferência por Balzac […] a obra de Balzac se espalha profundamente pela China”.

Só a partir de 1914 os leitores chineses conheceram contos de Balzac em versões em mandarim feitas por Lin Shu. Já o primeiro romance disponível foi Eugênia Grandet, traduzido por Mu Mutian e publicado pela Commercial Press em 1936. Na sequência, Mutian fez chegar ao mandarim O Pai Goriot e Esplendores e Misérias das Cortesãs, além de A Obra-prima Desconhecida, A Mensagem, Adeus, e O Romeiral. Ao mesmo tempo, A Missa do Ateu e Um Episódio do Terror são traduzidos por Xu Xiacun. Tradutores renomados como Zheng Yonghui e Zhang Guanyao (professor da Universidade de Pequim) também verteram a obra balzaquiana para o mandarim durante décadas.

Em 2000, Dai Sijie, escritor sino-francês, escreve o romance Balzac e a Costureirinha Chinesa. A história, também sucesso no cinema, se passa no começo da revolução cultural da China. Num relato autobiográfico, Dai Sijie usa do seu próprio repertório balzaquiano para contar o drama de uma jovem costureira que transforma sua vida ao conhecer personagens femininas criadas por Balzac. Ela diz: “Balzac me fez compreender uma coisa: a beleza de uma mulher é um tesouro que não tem preço”. Balzac também fez uma revolução na vida financeira de Dai Sijie. O livro foi publicado em 25 idiomas e ultrapassou um milhão de exemplares vendidos.

Será que o contraditório pensamento de Balzac também pode ajudar Xi Jinping nessa perigosa comédia tarifária?

No momento turbulento e decisivo entre as duas potências mundiais, o retrato pessimista que o romancista faz da sociedade francesa do século XIX, arquétipo do mundo ocidental, seria um recurso a ser usado para a China se dar bem? Sei que Xi Jinping já leu Balzac, porém, o todo poderoso chinês disse, numa entrevista, que sua obra literária preferida é Os Miseráveis, de Victor Hugo. Tudo certo na literatura. Hugo e Balzac eram amigos do peito. Já na economia….

 

Lucius de Mello é doutor em Letras pela USP e Sorbonne Université-Paris. Autor da tese A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os heróis bíblicos em A Comédia Humana. Jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003.

Tags: ArtigoBalzacChinaEconomiaEUAHora CampinasliteraturaMundoOpiniãotarifaçoTrumpXi Jinping
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