Campinas deu um passo importante — e necessário — no enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes. O município consolidou o Guia de Implementação dos Fluxos de Atendimento Integrado, organizado pelo INSTITUTO WCF-BRASIL CHILDHOOD BRASIL gestado pela família Jeressaiti, documento que organiza como a rede pública deve agir quando uma criança ou adolescente é vítima ou testemunha de violência.
Os números mostram a gravidade do problema. Em 2023 e 2024, quase cinco mil denúncias foram registradas no Disque 100. Na prática, isso significa cerca de 13 casos por dia. E vale dizer sem rodeios: esse número não reflete toda a realidade, já que a subnotificação ainda é enorme. A maior parte das violências acontece dentro de casa, cometida por pessoas próximas.
A principal mudança trazida pelo fluxo integrado é o fim da atuação isolada dos serviços. Saúde, Educação, Assistência Social, Conselho Tutelar, Segurança Pública e Justiça passam a seguir um roteiro comum, baseado na Lei Federal nº 13.431/2017, a Lei da Escuta Protegida.
A ideia é simples e urgente: proteger a criança sem expô-la novamente à violência. O guia define etapas claras: acolhimento humanizado, escuta especializada, atendimento multidisciplinar, aplicação imediata de medidas de proteção, acompanhamento contínuo e responsabilização do agressor. Nada de improviso. Nada de empurrar o problema para outro setor.
Para garantir que isso funcione, Campinas instituiu um Comitê de Gestão Colegiada, responsável por articular a rede, monitorar a aplicação dos fluxos e corrigir falhas. O próprio documento reconhece que o fluxo é vivo e precisa ser constantemente ajustado com base na prática e na realidade do território.
O desafio agora é menos técnico e mais cultural. Implementar o fluxo exige mudança de postura, capacitação permanente e compromisso real dos profissionais. Guia bonito não protege criança. Rede que funciona, sim.
Campinas sinaliza que entendeu o tamanho do problema. Resta saber se, no dia a dia dos serviços, o fluxo vai sair do papel e virar proteção concreta. Criança não pode esperar. As famílias dizem que sim!
Vanessa Crecci é pedagoga e doutora em educação pela Unicamp. Coordenadora do Observatório da Educação Campineira. Professora da rede municipal de educação de Campinas.







