O filme “De Volta para o Futuro”, de Robert Zemeckis, foi apresentado há 4 décadas. Premiado com dois Oscars e depois estendido em duas continuações, desde sua estreia até hoje é um dos mais cultuados pela comunidade artística.
Caracterizou-se uma trilogia memorável, de certa maneira, atemporal, que prossegue cativando o público e atraindo admiradores, há quarenta anos. A ideia de revisitar o passado, ir e retornar ao futuro e, em destaque, intervir nos destinos, é profundamente provocativa, mexendo nas expectativas de todos que sonham com essa possibilidade onipotente.
Afinal, a nossa ansiedade de antecipar o futuro é enorme, explorável por gente bem-intencionada, mas muitas vezes manipulável por pessoas de mau caráter.
O nosso dia a dia é repleto de tentativas de demonstrar o porvir. Horóscopos, leitura de mãos, runas para consultar oráculos, tarô e diversas outras manobras vão alimentando essas ilusões.
A obra mais clássica sobre viagens atemporais é o livro ‘A Máquina do Tempo’ de H.G. Wells, lançado há 130 anos, em 1895.
A arte literária e a cinematográfica já nos trouxeram muitos trabalhos sobre adivinhar e manipular o futuro. Vez por outra, na vida real, surgem personagens e narrativas que garantem performances de “viajantes do tempo”. Alguns merecem estudos e desafios, como o ucraniano Sergei Ponomarenko, que permaneceu algo misterioso e aceitável por 17 anos. A história foi desmontada pelo youtuber Joe Scott, há 2 anos.
Os filósofos têm alertado seus leitores e seguidores da importância em se dedicar ao tempo atual, em se concentrar no presente. Alguns nem cogitam especular sobre o futuro.
Contemporâneo de Jesus Cristo, Sêneca indicou: “Dedica-se a esperar o futuro apenas quem não sabe viver o presente”.
O próprio Cristo, sempre lembrado como um grande filósofo, desenvolveu, na atualidade da época, um projeto de salvação para o futuro da humanidade quando morreu por nossos pecados, passados, presentes e futuros, oferecendo perdão e redenção.
Santo Agostinho, que viveu 4 séculos depois, fez a reflexão: “passado não existe mais, o futuro ainda não chegou e o presente torna-se pretérito a cada instante”.
No século 13, São Tomás de Aquino mostra: “A humildade é o primeiro degrau para a sabedoria”. Essa lição é pragmática, pois devemos reconhecer que depender de adivinhar o futuro é um exercício muito pouco sábio.
“Eu ofendi Deus e a humanidade porque o meu trabalho não alcançou a qualidade que deveria ter”. Frase assinala a humildade vigorosa de Leonardo Da Vinci (século 16) em refletir, no tempo presente da sua época, sobre o que fez no passado e os efeitos (felizmente equivocados) que imaginou para o futuro…
Francis Bacon, que viveu no 16 e no 17, foi incisivo: “O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”.
Spinoza, no 17, mostrou: “O homem livre, no que pensa menos é na morte, e a sua sabedoria é uma meditação, não da morte, mas da vida”.
Schoppenhauer, que viveu no 17 e no 18, expressou fortemente: “(…) só o presente é certo e real(…)”
Nietzsche (século 19) sugere uma maneira inusitada de viver exclusivamente o presente: o eterno retorno. Ao invés de temer as repetições que a vida promove, deveríamos abraçá-las, amando cada aspecto da existência a tal ponto que desejaríamos vivê-las repetidamente – uma reflexão sobre como viveríamos se soubéssemos que cada momento presente se repetiria infinitamente.
Karl Marx, no século 19, antes de morrer, disse: “(…)Últimas palavras são para tolos que nunca disseram o suficiente”.
Sigmund Freud viveu nos séculos 19 e 20 e ensinou: “Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda”.
Fechemos essa sequência com um dos principais filósofos europeus contemporâneos: o francês A. Comte-Sponville. Sua filosofia, que busca a ética da felicidade e da sabedoria, oferece uma perspectiva interessante sobre nossa relação com o tempo: o presente é o único tempo real, o único momento em que a existência se manifesta. É o panorama do “ser-tempo”, a vivência plena do presente, sem se aprisionar pelas angústias do passado ou pelas incertezas do futuro, valorizando as pequenas alegrias e aceitando a transitoriedade da vida. As ações do presente, com bases no aprendizado do passado, são o que permite plantar um futuro promissor.
Portanto, o melhor seria mesmo revisitar o passado nas memórias registradas e relembradas, sonhar com os pés no chão sobre o futuro e insistirmos sempre em não perder o foco na atualidade. Sem alternativas ou desvios: “De volta para o Presente!”
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor







