A senescência é um processo natural: envelhecer é a trajetória óbvia, é a vida que vai trilhando seu caminho até a morte. A natureza se expressa claramente nos processos de evolução e involução que definem os roteiros dos seres vivos.
Até as alternativas humanas com materiais inanimados e pretensões de perenidade para driblar a sequência involutiva não suportam as alterações naturais. Mausoléus são inundados, erosões modificam monumentos, furacões e terremotos arrasam construções de concreto armado pelos mais resistentes vergalhões.
As doenças e a morte, circunstâncias típicas das etapas da vida, têm que ser assumidas e administradas, não podem ser negadas ou evitadas ilusoriamente.
A psicóloga Maria Helena Bromberg comenta: “nossa cultura não incorpora a morte como parte da vida, mas sim como castigo ou punição”. Esta é a referência essencial e determinante para que consigamos a assunção e administração dos problemas de saúde e do final da vida: doenças e morte não são penalidades.
O moço de pouco mais de 30 anos já tinha um filho, garoto perfeito. Era a coisa mais simples e natural do mundo curtir aquela criança. Daí, nasceu o segundo, com uma grave doença neurológica. Quase 3 anos depois, ele, o pai, chorava no colo da avó, sua mãe, esbravejando contra Deus pela enorme desgraça, que era o maior absurdo – ele não merecia aquilo. Ela, sabiamente, comentou ao ouvido dele: “Você nunca agradeceu ao Senhor pelo maravilhoso primogênito”…
Nas fases mais longevas, à medida que amadurecemos e nos tornamos mais vulneráveis às morbidades e às hesitações, é fundamental reconhecer que a morte se aproxima.
Torna-se mais necessário do que nunca, neste momento, neste choque, equilibrar a tristeza e o bom humor. Ponderar o osso duro e deprimente que a proximidade da morte implica com alguma habilidade em sustentar a leveza e a graça dos encantos vitais.
Uma obra literária clássica, o livro “Lições de Abismo”, lançado na metade do século passado, de Gustavo Corção, ensaia esta possibilidade. O personagem, abandonado pela mulher e pelo filho, depara-se com um câncer que o levará à morte em 3 a 4 meses.
Ao invés de se desesperar tolamente, ele segue seu definhamento com a consciência lúcida e desperta para detalhes que desapareceriam no aborrecimento cotidiano. Desse modo, até os mais incômodos rancores se transformam. E podem virar arte, literatura.
O mundo estremeceu recentemente com as narrativas sobre o presidente norte-americano, Joe Biden. Ele mesmo teria decidido: renuncio como candidato à reeleição e persisto como presidente. Ele teria sido coagido, é outra versão. Ou essa possibilidade: se tem convicção e cognição firmes para seguir como presidente, não teria razão para renunciar à candidatura. Ou ainda: está mesmo prejudicado mentalmente, virou um bonifrate, tem algumas pessoas orientando suas condutas.
Se Biden escolheu ou se encolheu, talvez se saiba pelos registros históricos, daqui a algumas décadas, mas o episódio mobilizou todos que hoje vivem a senescência ou lidam com ela. Precisamos de muitos dotes científicos e sutilezas artísticas para bem aproveitar essas circunstâncias.
Temos poucos governantes acima de 80 anos pela nossa Terra. Um presidente africano (há mais de 40 anos, em Camarões), o rei da Noruega, o aiatolá do Irã, o Papa (ele é chefe de estado, do Vaticano).
Esses chefes de governo excepcionais cumprem monarquias, impõem-se no poder ou comandam teocracias. É muito difícil chegar ou permanecer nesses cargos com idade avançada, a não ser nesses contextos.
Uma psicoterapeuta bem-sucedida, com mais de 80, segue atendendo. Tem clientela fiel e renovada. Diante do evento Biden, com a impressão de que ele declinou rapidamente nos últimos meses, ela procurou em si mesma sinais de que estivesse perdendo forças. Por outro lado, pensou que talvez nem tivesse questionado esses dramas, se não fosse o efeito midiático dessa história…
O exercício contínuo e persistente de nossa habilidade cognitiva se impõe. Não podemos renunciar ao status de estudante até o fim da vida. Mente ativa, criativa, crítica, inquieta e questionadora ajuda muito. E humildade proporcional à faixa etária e às demandas escolhidas e/ou abdicadas.
Inspirados em Gonzaguinha podemos nos animar: persistirmos como “eternos aprendizes” permite que não renunciemos a ser felizes.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.











