Observamos uma decepção generalizada com a Política, há muito tempo. Aqui no Brasil e fora dele, espocam fatos e perspectivas desanimadoras. Isso faz com que nós, eleitores, tendamos a nos acomodar, querendo não participar dessa bagunça, evitando horrores e nos colocando como “isentões”.
Política, verdadeiramente, é uma das mais belas, complexas e atrativas qualidades humanas, capaz de associar arte e ciência com maravilhosa harmonia nos assuntos públicos e pessoais. Acompanhando, debatendo, militando ou, no mínimo, votando, cabe a todos participarem.
Qualquer ação humana pode ter um efeito político. Uma reação automática, um simples reflexo cognitivo. Ou nas ações intencionais, obviamente. A Política atual afasta-se da ética, da moral, e aproxima-se da corrupção, dos delitos.
Alguns governantes até se distanciam do termo. O presidente argentino, Javier Milei, recentemente na ONU, iniciou o discurso dizendo: “Não sou político, sou economista”… Mesmo nesse caso, essa foi uma ação política!
Sabemos, e tantos alertas nos estressam, que a isenção pode ser a pior atitude, um favorecimento das complicações, da piora e da desgraça. Temos que participar, questionar, sugerir, especialmente aqui, em nosso País. Nossa democracia ainda é instável, suscetível a vacilações perigosas, nossos líderes não se sustentam em posições humildes e justas. Vemos frequentemente os líderes se entusiasmarem por arroubos ególatras, onipotência populista, arrivismo, sedução pelo poder e abusos de toda ordem.
Quando a nação envolvida tem estrutura democrática mais sólida e segura, o candidato pode até provocar alguma ansiedade autocrática, mas isso não representa risco ou abalo nacional.
O norte-americano Donald Trump declarou recentemente que “queria ser ditador por um dia”… Ele pode expressar isso sem nenhuma consequência antidemocrática ou suspeição disso. Nem a oposição se incomodou significativamente.
Para nós, brasileiros, a maior dificuldade é lidar com as perspectivas dos maiores líderes. Eles são, reiterada e sistematicamente, apontados como envolvidos em projetos tirânicos, como que ensaiando ditaduras opressoras, além do grande questionamento moral sobre corrupção.
Esquerda acusa Direita, e vice-versa, de intenção golpista, ditatorial. Um mecanismo psicológico de defesa, a projeção (quando depositamos no outro algo que é nosso) pode sugerir que cada um, por seu turno, tenha essas tendências.
O pessoal da Direita insiste em declarar o governo atual como trilhando o caminho ditatorial dos progressistas. Especulam que a Nova Ordem Mundial conspira neste sentido.
O pessoal da Esquerda repete insistentemente que vem se avolumando uma proposta autocrática e autoritária dos conservadores. E, muitas vezes, confunde militar com ditador.
O cineasta Tim Burton nos espeta: “a loucura para um é a realidade para o outro”. É difícil mesmo distinguir a paranoia da sanidade, especialmente entre políticos.
O paranoico onipotente, dono da verdade, então, é insuportável – ele sabe coisas que ninguém sabe… O efeito Dunning-Kruger, a confiança exagerada dos incompetentes, parece tomar conta das mentes dos políticos. Eles confundem-se, contradizem-se, mas seguem “confiantes” e querem ser vistos como confiáveis…
Os argumentos dos próprios atores e das suas linhas ideológicas são manipulados e explorados à exaustão, mas são insistentemente repetidos. Eles não aceitam críticas ou revisões. Isto é o inverso da boa evolução! Já no século 18, o filósofo irlandês Edmund Burke afirmava: “Quem luta contra nós reforça os nossos nervos e aguça as nossas habilidades. O nosso antagonista é quem mais nos ajuda”.
O esquerdista pode ser de vanguarda, interessado nas transformações sociais, mas defender alguns valores morais de modo intensamente conservador. Por exemplo, evangélicos progressistas defendem causas sociais, mas possuem uma visão muito conservadora sobre questões de gênero e sexualidade.
O conservador defende enfaticamente a liberdade individual e a responsabilidade pessoal, opondo-se a um Estado intervencionista, mas respeita algumas iniciativas fascistas de controlar uma população.
Christian Lynch, cientista político, tentou classificar as várias tendências ideológicas, tão misturadas e incongruentes. Ele as coloca em 6 grupos, no seguinte “Espectro Político”, com exemplos históricos: 1) Extrema Esquerda (Luís C. Prestes); Socialdemocracia (Lula); Liberal democracia (F. Henrique Cardoso); Neoliberalismo (Roberto Campos – avô e neto); Conservadorismo Liberal (Juscelino K.); Extrema Direita (Bolsonaro).
Trata-se de exercício interessante, especialmente porque confirma o uso conveniente, maquiavélico, desses conceitos no jogo de interesses dos profissionais que vivem da má política.
Estudiosos revelam essas incongruências, muitas vezes curiosas. O historiador Marcelo Andrade mostra que, em muitas ações, a nossa Ditadura Militar era de Esquerda: criaram-se inúmeras empresas estatais e havia forte intervenção do Estado…
Estamos em fase de turnos de eleições municipais por aqui, dos EUA elegerem presidente, então a Política se destaca, mas o problema não é sazonal. Necessitamos evoluir muito na teoria e na prática, na sequência diária dos protagonistas que ocupam os cargos da situação e dos que trabalham na oposição.
Não queremos escolher ditaduras! E seria maravilhoso o voto facultativo!
Precisamos de políticos com perfil essencialmente democrático, sensível à crítica, empenhado na justiça e na prosperidade, sem extremismos nem polarizações, em atuação dinâmica e reciclável. É muito otimismo?…
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.







