Tive o privilégio de conhecer a quinta edição, publicada em 1986, do magnífico livro “Vida e Obra de Fernando Pessoa”. Seu autor, João Gaspar Simões, foi um escritor, biógrafo e dramaturgo que chegou a conviver presencialmente em Lisboa com o biografado, nas décadas iniciais do século 20. Pessoa faleceu em 1935, e Simões, um ano depois de prefaciar esta quinta edição.
Este belo trabalho de quase 900 páginas é uma caprichada homenagem a este expoente da língua portuguesa, o maior poeta lusófono do século XX.
Em seus criativos e instigantes trabalhos, Fernando Pessoa serviu-se de muitos nomes e personalidades. O João Gaspar Simões indicou ao todo 202 nomes diferentes, sendo 127 heterônimos e 75 pseudônimos, embora o número de heterônimos mais conhecidos não chegasse a uma dúzia.
Com tantas identificações, quero me reportar a uma especificamente: a de Bernardo Soares. Curiosamente, este é interpretado como um semi-heterônimo de Pessoa. Então, destaco aqui uma frase de Bernardo Soares que abre a inspiração para este artigo. Ele disse: “A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final”.
Pois é, não existiria mesmo síntese mais adequada e precisa sobre nossa existência. Não é assim mesmo que vivemos verdadeiramente? Estamos seguindo nessa trajetória. Hesitamos entre exclamações e interrogações, experimentando nossas agradáveis ou ruins surpresas, encarando nossas complexas dúvidas, descobrindo algumas certezas discutíveis e terminando no ponto final da certeza indiscutível da morte.
Observamos aqueles que constituem verdadeiramente uma minoria pequena vivendo de modo desapegado da fama e da riqueza. Parece que esses vivem bem melhor, fruindo dos sucessos, administrando os fracassos, lidando com as exclamações e interrogações, esticando o mais possível o tempo de vida saudável e prazeroso, até o ponto final.
A maioria, infelizmente, vive de olho nos famosos e ricos, mais atentos a eles do que a si mesmos, empenhando-se em conseguir algo parecido de modo lotérico e milagroso, muitas vezes inconsequente.
Cerca de 80% da população do mundo têm uma crença religiosa. Aqui no Brasil o censo de 2022 mostrou que são aproximadamente 90%.
Desses 90%, a grande maioria é cristã, seguindo as referências dogmáticas católicas, evangélicas e espíritas.
Pelo apelo religioso, seria muito melhor para o crente uma vida material modesta, pois assim ele facilitaria a fruição espiritual que viria após a morte. O mortal que abrisse mão da fama e da riqueza terrestre garantiria a imortalidade abençoada.
A Bíblia cristã reforça essa importante tradição quanto à pobreza premiada com o Paraíso. Trata-se da passagem do “buraco da agulha”. Em Mateus 19:24, Marcos 10:25 e Lucas 18:25, temos a representação da dificuldade de um rico ou privilegiado entrar no Reino dos Céus. É mais difícil que ele consiga isso do que um camelo passar por um buraco de agulha.
Outra passagem bíblica que ratifica essa condição é a história do “jovem rico”, habitualmente associada ao relato de Mateus 19:21, que antecede ao episódio do buraco da agulha.
Disse Jesus a um jovem rico que lhe perguntava sobre o que fazer para ganhar o reino dos Céus: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.”
A exigência foi específica: teria que vender tudo o que possuía e dar aos pobres. O jovem se afastou muito triste, porque possuía muitas riquezas.
A lição principal não obriga que uma pessoa precise vender tudo, mas sim que precise se livrar de sua maior adoração, o apego à riqueza, para seguir Jesus de verdade. O exemplo religioso deveria servir para a grande maioria que segue a Bíblia, mas não é o que acontece, apesar da incoerência e da contradição.
Fernando Pessoa tem uma biografia curiosa. Durante sua vida, nunca foi famoso nem rico. Cerca de 5 anos após seu falecimento, explodiu uma sequência incrível de publicações e histórias a seu respeito. Ficou um dos nomes da literatura mais famosos do século passado, em todo o mundo…
É como se ele, depois de morto, entrasse em uma dimensão especialíssima, literária e artística, em um Paraíso cultural, diferenciado e imortal!
O destino de seu espírito teria que ser especulado, dadas às variações dos heterônimos. Em seu trabalho ortônimo, mostrava-se entusiasmado por mistérios. Sua fé estava no ocultismo, na magia, mais do que em igrejas ou credos tradicionais.
Como Ricardo Reis, identificava-se com o paganismo, uma crença nos deuses clássicos e no destino.
Como Álvaro de Campos e Bernardo Soares, aparecia como agnóstico, descrente de certezas dogmáticas.
Depois do seu ponto final, Pessoa continuou causando muitas exclamações e interrogações. Todos nós teremos algum legado a oferecer. Talvez fosse suficiente e satisfatório repetir a dica do ditado popular: ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore…
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











