Em nossa atualidade, já estreado o ano 2026, entramos no segundo quarto de século 21, em pleno Terceiro Milênio. De acordo com a divisão historiográfica, estamos na Idade Contemporânea, iniciada no século 18, em 1789, com a Revolução Francesa.
Alguns geólogos e inclusive historiadores entendem que estamos no período Antropoceno, que corresponde a esta nova época em que a atividade humana seria a força dominante sobre a Terra. Esta época antropocena teria início em 1950, logo depois da II Guerra Mundial, quando se deu a “Grande Aceleração”, com a disparada da evolução tecnológica.
Os primeiros hominídeos, desde os ancestrais da linhagem humana (após a separação dos chimpanzés), surgiram há cerca de 7 milhões de anos. O Gênero Homo surgiu há cerca de 2,8 milhões de anos. A nossa espécie moderna, o Homo sapiens, é bem mais recente, em torno de 300 mil anos.
Os primeiros assentamentos fixos surgiram logo após o domínio da agricultura. Cidades como Jericó têm registros de cerca de 11 mil anos atrás. A vida urbana mais complexa (com templos e escrita), como na Suméria, consolidou-se há cerca de 5 mil anos.
Então, temos uma razoável temporada de vida inteligente para nos exigir e criticar bastante. Evoluímos, é claro, mas podíamos estar bem melhores.
Entendemos que não nos desenvolvemos a contento por inúmeras razões, mas o pior entrave reside em nosso exercício mental e emocional. Sabemos que a nossa evolução depende essencialmente da razão e da emoção, da inteligência e do amor. O amor e a inteligência, agilizados na teoria e na prática, produziriam ativamente um mundo melhor, com mais justiça, liberdade, prazer e paz.
No entanto, amamos pouco e mal, como lembra Jean Yves Leloup. Leloup é um autor com biografia curiosa. Foi padre católico, depois se identificou com o cristianismo ortodoxo. Traduziu textos apócrifos, fez pontes entre as religiões ocidentais e orientais. Ele defende que o cristianismo original não é uma religião baseada na culpa e na punição do pecado, mas sim no conhecimento (gnose) e na expansão do ser através do amor.
Temos muitas dificuldades afetivas e ideológicas que se opõem ao afeto e à gnose. Uma das principais é a vaidade, este orgulho tolo, esta soberba burra. Temos que descontar, é claro, aquela vaidade estética, da boa aparência, dos cuidados higiênicos e da apresentação social.
Vaidade pecaminosa, ruim, é essa carência profunda do ego, a necessidade obsessiva de montar uma imagem poderosa, de muita força, competitividade, preparar uma beleza extraordinária ou alardear grande superioridade. Um esforço absurdo e neurótico em alicerçar a egolatria. E tentar amplamente expor essa imagem para o mundo.
A vaidade é o mais decisivo e importante pecado capital. É o “pecado raiz”. Desde o século 13, tivemos grandes lições sobre a fundamentação perniciosa da vaidade. No topo ou no fundo da alma. São Tomás de Aquino apontou o topo (rainha dos vícios) e Dante Alighieri, na Divina Comédia, registrou artisticamente que ela está no fundo (no polo apertado do funil do inferno) de todas as perdições. A vaidade é a autoidolatria.
Manter-se nesse pedestal vaidoso é muito pesado, exige uma sobrecarga de controle e exibição. A pessoa vaidosa mergulha em um destino perigoso e pernicioso. Somos seres animais um pouco mais desenvolvidos, podemos nos reconhecer como animais racionais. E também seres emocionais, porém aí nos falta a maior e mais necessária evolução: o caminho para chegar ao nível de “seres amorosos”. A vaidade atrapalha demais essa sequência amorosa.
Como animais, dependemos do medo para sobreviver, do medo útil, da boa agressividade, que permite reagir, enfrentar, encarar desafios. O medo é o motor da sobrevivência. A vaidade é uma tentativa do ego de esconder o medo.
O medo de ser excluído, de ser ninguém, de viver na insignificância, demanda defesas. A vaidade entra como formação reativa, mobilizada em defender com a inversão, criando o melhor, o mais bonito, o mais poderoso, o inatingível.
Como a vaidade é frágil (depende do olhar do outro), qualquer um que ameace essa imagem desperta uma agressividade violenta. Ninguém ataca quando está forte. Preso nessa armadura pesada e vazia, o enfraquecido fica violento, maldoso.
O amor é a única força que permite “desarmar” a vaidade, pois ele dispensa o medo. Yuval Harari indica que a resiliência e a vulnerabilidade serão as ferramentas de sobrevivência definitivas em um mundo onde a força baseada apenas em imagem está desmoronando.
A experiência inteligente e amorosa permeia as pessoas, favorece a humildade, os encontros livres, artísticos, as interações prazerosas, com menos egos individuais e mais convivência democrática e bem-estar coletivo.
À medida que nos entusiasmamos com as celebridades tão apontadas pela mídia e redes sociais, que acreditamos que existam ícones e ídolos, que aspiramos a destaques semelhantes para nós, inspirados na nossa própria vaidade, estamos lamentavelmente idiotas e distantes do amor.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.







