A história serve pra quê? O historiador britânico Eric Hobsbawm cita em sua obra, que ao discorrer sobre as grandes questões envolvendo o século 20 fora surpreendido numa conferência com uma simples indagação: “Se o mundo passou pela Segunda Guerra Mundial significa então que antes tivemos a Primeira”?
O ato de lembrar o que os outros esqueceram ou desconhecem, é ofício de quem lida com o passado. E a compreensão daquilo que ficou pra trás implica em afirmar: a história não é neutra, e sua serventia “às vezes” se casa com as ideias do presente.
Isto ocorre porque datas comemorativas são usadas para atender projetos de poder. E numa reeleição tudo fica evidente. Olimpíadas, Copa do Mundo e eventos históricos se misturam com a política, e o interesse em surfar na onda vira estratégia do governante de plantão.
Qual a razão do Grito do Ipiranga querer ecoar além do fato simbólico? O conceito de “Independência ou Morte” guarda alguma semelhança com ideário de liberdade difundido pela extrema direita brasileira? O coração de Dom Pedro I será o grande marco das comemorações? O povo nas ruas vestido de verde e amarelo representa que tipo de patriotismo?
Em primeiro lugar, o debate e suas implicações acerca do Bicentenário já foi contaminado pelas eleições presidenciais. Ao tentar instrumentalizar o 7 de Setembro com palavras de ordem contra as instituições, flerta-se com o golpismo.
Precisamos de retrospectiva histórica, olhos atentos e consciência crítica.
Apenas devêssemos ressaltar, que desde o Primeiro Centenário da Independência há 100 anos, o Brasil vem mudando radicalmente. Embora a simetria com o passado seja passível de contextualização. Basta registrar que em 1922 o País sofria os efeitos de uma pandemia, no caso, a da gripe espanhola. As questões sociais, racismo e pobreza são marcas daquela época, que por sinal ainda perduram.
No século passado, a indústria e a economia cresceram e se modernizaram. Na cultura, a Semana de Arte Moderna (1922) introduziu uma nova visão estética. Do ponto de vista social e político as mulheres (1932) e os analfabetos (1985) conquistaram o direito de votar. A Constituição de 1988 vem sendo saudada, apesar de ser afrontada pela sanha autoritária de minorias ressentidas.
E todas essas conquistas ocorreram mantendo a preservação da nossa unidade territorial. Valorizemos tudo isso!
Agora numa data tão especial qual o projeto de nação para o futuro que está sendo colocado em debate? Até quando ficaremos discutindo corrupção, mensalão, petrolão e orçamento secreto?
O Brasil está passando por uma desindustrialização nos últimos 30 anos, o que acabou nos transformando num grande polo agroexportador. Ou seja: para as próximas décadas continuaremos sendo o que já somos? Existe algum plano factível para a indústria do conhecimento? E como ficará os tratados internacionais sobre o meio ambiente a partir das nossas ações? No tocante à infraestrutura e a mobilidade urbana teremos capital e investimento a médio e longo prazo?
Nesse Bicentenário deveríamos refletir. Existe uma contradição profunda entre liberdade e bom senso.
Só haverá equidade social, se a democracia e o respeito às instituições estiveram em harmonia. O discurso em torno da liberdade não passa de messianismo tosco; trata-se de uma nova roupagem, ora visando à condição de subalternidade, ora se colocando como pária internacional.
Num precioso texto do cientista político César Benjamim, “A nação de vontade fraca: em busca de um novo projeto de desenvolvimento”, consta o seguinte. Diz ele: “Sucessivos governos brasileiros vem adotando a primeira opção, a da adaptação subalterna. A história não recomenda esse caminho, que parece ser o mais fácil em cada momento, mas repõe indefinidamente as dificuldades e os impasses estruturais. Grandes países periféricos, como os Estados Unidos do século 19 e a China do século 20, já passaram por isso, cada um ao seu jeito, e só obtiveram êxito quando ousaram contrariar o lugar que lhes fora atribuído pela ordem internacional de seu tempo. Fizeram pro fundas reformas internas. Alteraram seus sistemas de poder. Cometeram erros e aprenderam com eles. Pagaram o preço associado a essas decisões. Mas, ao fim e ao cabo, deixaram para trás a condição periférica”.
Resumindo: não existe fatalismo. E para o Brasil voltar a ter um pingo de esperança, o primeiro e urgente passo é a valorização da educação pública.
Eduardo Borges é sociólogo











