Neste mês de novembro, nós, brasileiros, tivemos a prova cabal de que criminosos coexistem em nossa sociedade da mesma maneira que bactérias coexistem com os seres humanos na Terra. Eles estão por toda parte. São apoiados pelas forças do Estado, estão no próprio Estado, infiltrados em instituições, nos bastidores da cultura, na construção civil, nas torcidas organizadas, e até no patrocínio de times de futebol. Na verdade, a sensação é de que não há mais setor ou âmbito da vida brasileira que não tenha a influência dessa ‘megaorganização’ – com esse termo, me refiro a uma das maiores teias de articulação de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, golpes de colarinho branco e outras práticas ilícitas envolvendo grandes quantias de dinheiro que o mundo já viu.
Estamos presenciando o funcionamento de um narcoestado, um que tem poder tanto sobre o setor público quanto sobre o setor privado.
Não importa o absurdo da vez: em uma semana temos a investigação das bets e famosos do show business fazendo fila pra depor; em outra é constatado que o dinheiro lavado pelo PCC transita por aí como se fosse água; em outra, e bem antológica, confirmamos as certezas de que o ex-presidente do país estava envolvido até os dentes em uma trama golpista; e nesta, recebemos a notícia de que existe um ‘call-center’ do crime que aplica golpes a partir do vazamento de nossos dados, aqueles que ‘confiamos’ a terceiros, como instituições de aposentadoria e bancos privados.
Ao recebermos notícias assombrosas como essas, temos que admitir que a sensação é a de que, quando eu e você acordamos em uma segunda-feira para viver nossas vidas ordinárias, estamos exercendo uma cidadania ilusória.
Os protagonistas e manda-chuvas mesmo estão dentro dessa máquina transnacional de assuntos criminais, tráfico de drogas, empresas de fachada e lavagem de dinheiro que opera ao nosso redor. Visivelmente apoiada por algumas entidades que deveriam zelar pelos nossos direitos, ela nos mantém presos em um ciclo de belicismo, que provoca a ilusão de que os problemas sociais não têm origem clara, de que sempre estiveram aí e de que são naturais.
Nós ouvimos falar dos acordos que existem entre a polícia e o tráfico, entre políticos eleitos e o tráfico, bem como entre os grandes empresários, banqueiros e a máquina estatal – que é explorada como caça-níquel pelas organizações criminosas. Mas ter a confirmação de que toda essa imoralidade existe e de que está bem ao lado da nossa porta pode afetar o mais confiante dos otimistas.
Deixo abaixo uma sugestão de livro que aborda esse tema de maneira precisa e esclarecedora.

Pedro Basso é músico, graduando em Administração Pública e analista de mídia no Hora Campinas.







