O hábito de trabalhar com os pensamentos e os sentimentos sempre me favoreceu a levantar perguntas e criar questões.
Na própria profissão, experimentando suas vertentes como psiquiatra, psicoterapeuta e sexólogo, pois essas áreas de trabalho são muito provocativas e ansiosas por respostas, vivo o modo questionador. E como leitor contumaz ou observador de vídeos ou matérias digitais, as dúvidas e as interrogações também são muito atiçadas – a leitura (especialmente a não ficcional) de ensaios, textos filosóficos e certas imagens estimulam tudo isso.
Esse panorama fica ainda mais rico e entusiasmante se contiver uma compreensão profundamente crítica do que se assiste e assimila.
A mente crítica permite que você interprete seus próprios julgamentos em vez de simplesmente aceitar o que lhe é apresentado. E permite também que você duvide de si mesmo…
Nos anseios de médico, querendo encontrar e oferecer prevenções, tratamentos e curas, diante do meu paciente, tenho as oportunidades.
As tentativas de ser um escritor, montar um artigo, um livro, parecem permitir que eu possa chegar a outras pessoas, um leitor que se disponha a pensar um pouco nesses conteúdos.
Essas são as motivações de eu me apresentar como um “questionateu”, um questionador de inspiração descrente.
Aliás, escrevo aqui para quem se permita uma abertura no seu referencial religioso, dando margem a levantamentos que vão mexer nos seu cânones e crenças.
Se você, iniciada a leitura desta crônica, não tiver essa disposição de questionar seus dogmas e sua fé, não prossiga. Pare e continue crendo. E procure até reforçar seu credo, mergulhando mais uma vez, e profundamente, no universo da sua religião.
Portanto, se estiver com abertura e disponibilidade, sigamos juntos nesse exercício.
Distinção entre “Religião e Religiosidade”. Coisa delicada, sutil e perigosa!
A I. A. sugere que a religião estaria ligada ao transcendente. E a religiosidade, ao sagrado. A transcendência implica o sobrenatural, a(s) divindade(s). O sagrado envolve experiência pessoal e a reverência pelo especial e distinto.
E a I. H. (Inteligência Humana)? O especial e o distinto, então, na experiência pessoal de cada um, podem ou não incluir a transcendência, pois uma divindade é muito especial e distinta. No entanto, é sempre muito complicado e difícil discriminar os limites do sagrado e do transcendente…
A religião estaria essencialmente ligada ao Divino – o ser humano transcende na tentativa de se relacionar com o Ser Divino.
O Ser Divino, Supremo, o Deus das religiões monoteístas, é o Todo-Poderoso, onisciente, onipresente e onipotente. Ele independe de passado, presente e futuro, sabe de tudo, antes, durante e depois.
Não tem cabimento atribuir a Deus qualquer apreensão e sentimento humanos: não existe “Ira de Deus” que reagisse a um descontentamento, nem “Vontade de Deus”, pois não Lhe cabe aspirar por algo – tudo já é conhecido. Ele não pode ser surpreendido. E, à medida que Ele é o Criador e a Providência supremos, tudo acontece conforme Seu destino. Desse modo, os humanos religiosos deveriam se referir às melhoras e pioras sob a mesma medida: “Tudo bem, graças a Deus”. Ou: “Tudo mal, graças a Deus”…
Por seu lado, a religiosidade estaria fundamentalmente ligada à dimensão espiritual humana. Quem tem religiosidade poderia ou não ter religião, mas nunca é desprovido de espiritualidade.
Um trabalho interessante sobre esse contexto é o livro do filósofo francês A. Comte-Sponville: “O Espírito do Ateísmo”. Portanto, um ateu pode ter espiritualidade, sem nenhuma religião, sem compromisso com a fé.
Na prática mais simples e objetiva, a pessoa que tem religião faz orações, pois rezar é a conexão com o Divino. E a pessoa que tem religiosidade pode se incluir na religião, fazendo orações. Ou não, simplesmente desenvolver-se espiritualmente como ser humano, sem se conectar à transcendência divina.
Todos os que têm religião têm religiosidade. Nem todos que têm religiosidade têm religião.
As conexões com o transcendente, portanto, as comunicações do crente com o Divino, pressupõem a possibilidade de o ser humano superar a morte e aproximar-se mais Dele. Ou seja, o ser humano crente tornar-se-á divino.
Essa perspectiva exige a manutenção dos mistérios da fé, ou seja, a fé não pode ser analisada e compreendida cientificamente, não pode ser demonstrada conscientemente. Fé comprovada pela ciência se descaracteriza.
O ser humano descrente segue na busca de esclarecimentos científicos e conscientes de toda ordem, principalmente contestando a fé e os mistérios que a sustentam.
À medida que o ser humano crente se encaminha para a morte e a vida póstuma, ele vive duas temporadas distintas.
A primeira: a vida humana comum, seguindo as crises cronológicas com nascimento, duração e falecimento. E a segunda: vida eterna, vamos realçar bem: vida eterna – algo absolutamente independente de tempo e de crises.
Na vida temporal comum, vamos da criança ao senescente, passando por ameaças, doenças, frustrações e oscilações. Na vida eterna, pelo menos quanto à finitude, o crente se torna Deus (imortal, com reencarnações ou não).
O espírito que reencarna tem consciência da sua imortalidade. Os espíritas dizem que alguns desencarnados demoram um tempo para ter essa consciência, mas todos chegam lá.
Um obsessor estaria se vingando de algo, por exemplo, perturbando um encarnado. Há uma contradição enorme nisso: a alma desencarnada é eterna, ela pode incomodar outro espírito neste milênio ou no ano 15.678. E, sabedora da sua imortalidade, nem se empenharia em vingança entre mortais…
A alma mortal do ser humano com espiritualidade, com religiosidade agnóstica, segue seu caminho natural para o final, quando termina junto com o corpo!
Fechamos hoje por aqui, mas voltaremos a esses temas.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.











