Por ocasião da posse do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, por várias vezes fiquei emocionado. O cumprimento dos momentos simbólicos do rito democrático, as palavras fortes nos discursos, a presença de autoridades representantes de todas as instituições que sustentam a democracia no Brasil, a quantidade de representantes de outros países, o desfile em carro aberto, a Polícia Federal no seu devido lugar, isto é protegendo o presidente da nação, as Forças Armadas enfileiradas e em posição para ser apresentada ao seu novo “chefe supremo” e o povo feliz, aplaudindo, chorando, cantando e comemorando o resultado de sua participação individual e coletiva.
Tudo no seu devido lugar.
A sensação é de que a esperança, paz e a tranquilidade voltaram a ocupar o centro do poder, e por consequência, ocuparam também o coração e o cotidiano de todos os que enfrentam os desafios da vida comum. Com o coração em paz e em segurança, vida que segue!
Dentre tantos momentos belíssimos, um me marcou de forma sensível e profunda. Trata-se do significado de alguns movimentos na subida da rampa do Palácio. O ato de subir a rampa do Palácio do Planalto, que até então trazia consigo o peso de palavras ameaçadoras e do horror da violência simbólica presente nos discursos dos opositores, no momento de sua realização ganha um novo e surpreendente significado.
O entrelaçar de braços, representando a força da união dos fracos, que pode ser uma bela imagem a ser explorada pela astúcia e criatividade do marketing político, pode também expressar a gratidão de alguém que reconhece o valor de mãos que se estendem e se oferecem como presença generosa e solidária em tempos difíceis.
Assim também é a vida cotidiana na periferia. A generosidade e a solidariedade que estão presentes no ato de uma jovem senhora branca quando estende a mão para ajudar o idoso indígena na superação das limitações e fragilidades de sua idade e ao subir a rampa, apresentar-se mais uma vez com a coragem, força e altivez de um grande líder indígena, fazem parte de seu jeito de ser.
Quando uma jovem negra, catadora de materiais recicláveis segura no braço de um senhor com deficiência, a fim de ajudá-lo na superação de um obstáculo, também, estão presentes a generosidade e a solidariedade.
Elas são formas cotidianas singelas de expressão da gratidão que mora no coração das pessoas simples que contam com isso para sua sobrevivência.
Quando um menino negro que acredita que pode ser presidente um dia, coloca-se ao lado de um presidente de verdade, como se fosse um ensaio, para fazer com ele o aceno presidencial destinado a atender a multidão desejosa daquele gesto, esse menino recebe o ato generoso que alimenta a esperança cuja força se transforma em convicção de que seu sonho pode ser realidade.
Portanto, através deste simples gesto, este menino experimenta a concretude da força da esperança, o que pode fazer toda a diferença na sua trajetória de vida. Considerando que uma imagem vale mais que mil palavras, usando a força da minha emoção, resolvi traduzi-las em palavras através deste texto, que também poderia ter o seguinte título: “Gratidão, esperança, generosidade e solidariedade na simplicidade de um gesto”.
Calvino Camargo é psicólogo, mestre e doutor em psicologia, professor do curso de medicina da Universidade Federal de Roraima, bacharel em teologia e pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.







