Outubro é, em todo o mundo, o mês dedicado à CRIANÇA. Um tempo propício para olharmos com atenção e responsabilidade para o que estamos oferecendo às novas gerações — não apenas em termos de educação formal, mas, sobretudo, naquilo que estrutura profundamente o ser humano: o Brincar na Infância.
Há mais de três décadas, venho dedicando minha trajetória à Preservação da Cultura Lúdica da Infância, fruto de uma pesquisa de campo extensa e sensível que resultou no livro “Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade”.
Nele, estão documentados cerca de 100, entre brinquedos e brincadeiras tradicionais, testemunhos vivos de uma herança que atravessou gerações, povos e fronteiras. Este trabalho, apoiado e divulgado por organismos internacionais como a OEA e a UNESCO desde os anos 90, percorreu países da América Latina, Estados Unidos e Europa, revelando a universalidade e a riqueza desse Patrimônio Imaterial.
Brincar não é um luxo, nem um passatempo.
Brincar é uma necessidade vital da criança, fundamental para o seu desenvolvimento físico, motor, social e afetivo. Nas brincadeiras tradicionais livres e coletivas – de roda, de construção, de desafio, de imaginação – a criança desenvolve o corpo, a motricidade fina e grossa, a boa articulação para a fala, amplia a criatividade, aprende a conviver com os iguais e os diferentes, a cooperar e a lidar com limites. É por meio do Brincar que se formam as bases sólidas para a vida adulta.
No entanto, nas últimas décadas, assistimos a um progressivo empobrecimento das experiências lúdicas infantis. Os espaços públicos desapareceram ou tornaram-se inseguros; escolas reduziram o Brincar a intervalos cronometrados e as famílias, pressionadas pelo ritmo acelerado da vida, e ou pela ânsia em ampliar o espectro de conhecimento dos pequenos, substituíram o necessário convívio coletivo dos mesmos por telas, brinquedos industrializados, padronizados, escolas de línguas e outros, que pouco estimulam os aspectos já mencionados, assim como a invenção e a troca simbólica.
A preservação dessa Cultura Lúdica da Infância não é tarefa para poucos! Tem de ser coletiva.
♦ Pais devem resgatar as Brincadeiras da própria infância, partilhar tempo de qualidade com os filhos e oferecer espaços livres para o brincar espontâneo.
♦ Escolas precisam reconhecer o Brincar como parte integrante do processo educativo, e não como “intervalo” ou “recompensa”.
♦ Administrações públicas devem criar e manter áreas seguras de lazer, além de apoiar projetos culturais e educativos voltados à infância.
♦ Sociedade em geral tem o dever de valorizar a Criança como sujeito de direitos e a Cultura Lúdica como parte do Patrimônio Imaterial da Humanidade.
Proteger o Brincar será sempre proteger a Infância, e proteger a Infância é assegurar o futuro da espécie humana. Sem o exercício pleno da imaginação, da corporeidade e da convivência, empobrecemos não apenas culturalmente, mas também social e biologicamente.
Na ânsia de acompanhar o chamado “progresso”, assiste-se hoje a uma tendência quase automática de importar e incorporar inovações tecnológicas alheias, como se bastassem, por si sós, para assegurar um futuro promissor — ignorando, contudo, que nenhum genuíno Desenvolvimento pode prescindir da Herança Cultural própria de cada povo.
No caso brasileiro, a Preservação, Valorização e Reativação contínua da Cultura Lúdica da Infância não é um detalhe nostálgico, mas um ato estratégico de afirmação identitária e de superação dos resquícios coloniais que ainda nos aprisionam a modelos externos, impedindo-nos de construir caminhos genuinamente nossos.
Neste mês dedicado à Criança, reafirmemos juntos o compromisso de valorizar, preservar e divulgar a Cultura Lúdica, garantindo às novas gerações a alegria, a liberdade e a riqueza simbólica a que têm direito.
Regina Márcia Moura Tavares é antropóloga, professora universitária aposentada, escritora, palestrante e autora, entre outros, do livro “Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade”, divulgado internacionalmente com o apoio da OEA e UNE
Reg3mar@gmail.com







