Quando nos encontramos para essa entrevista, a professora Maria Regina estava exausta. Carregava no corpo e na voz as marcas de uma crise severa de burnout. Depois de vinte anos dedicados à educação infantil, ela simplesmente não via mais sentido em continuar. Queria abandonar a docência e trocar a sala de aula pelo chão da fábrica — qualquer coisa que não a fizesse mais adoecer emocionalmente.
Maria Regina sempre foi daquelas professoras que todo gestor quer ter na equipe: comprometida, competente, capaz. Não à toa, por onde passava, em pouco tempo era promovida a coordenadora. Mas a sobrecarga, o acúmulo de funções, a pressão constante e a falta de respaldo fizeram seu corpo gritar. Palpitações, crises de ansiedade, idas e vindas ao hospital. Chegou ao limite. Pediu demissão da creche que atuava e tentou, por um tempo, sair da educação. Não conseguiu. Mãe solo de duas adolescentes. A realidade bateu à porta e, para sobreviver, hoje ela está de volta, há seis meses está atuando em uma conveniada.
O relato de Maria Regina não é isolado. É sintoma de um modelo que adoece quem educa. Nos primeiros dias na nova escola, ela já se deparou com um cenário absolutamente cruel: gestão frágil, ausência total de apoio pedagógico, clima de medo, sobrecarga absurda e um faz de conta pedagógico que beira o cinismo.
Na prática, a proposta pedagógica vira fachada. A rotina é voltada para produzir fotos bonitas, alimentar relatórios e cumprir protocolos — não para garantir desenvolvimento, aprendizagem e cuidado real às crianças.
Enquanto isso, Maria Regina se vê sozinha em uma sala lotada, com cinco crianças que necessitam de acompanhamento especializado — algumas com laudo, outras em investigação — além de mais trinta alunos. E, pasmem, a escola inteira conta com apenas uma educadora especial para atender toda a demanda. Isso não é gestão. É improviso institucionalizado.
E não, não é falta de preparo das professoras. Muito pelo contrário. Quando bem realizada, a terceirização pode — e deve — ser uma estratégia inteligente de gestão. Ela fortalece vínculos com o território, valoriza profissionais da própria comunidade e traz agilidade na contratação e no atendimento das demandas locais. Nas creches cogeridas e conveniadas, muitas das educadoras são pessoas que vivem no próprio território. Profissionais que conhecem as famílias, as crianças, as histórias. Isso tem um valor social imenso — e deveria ser reconhecido como potência, não como fragilidade.
O problema não é o modelo em si. O problema é quando ele vira sinônimo de precarização. E é isso que, infelizmente, estamos vendo acontecer. Salários menores, contratos frágeis, ausência de direitos, zero garantia de carreira, pressão constante e a ameaça permanente: se questionar, se reivindicar, perde o emprego.
A terceirização não pode ser desculpa pra institucionalizar o improviso e transformar educadoras em profissionais de segunda classe. Ela deveria ser caminho pra fortalecer a comunidade, não pra adoecer quem cuida das nossas crianças. Não se trata de atacar a terceirização em si, mas de denunciar a precarização que esse modelo, na prática, vem produzindo.
Por isso, o Observatório da Educação Campineira (OEC) — rede independente e apartidária — realizou este estudo qualitativo ouvindo cinco professoras da rede conveniada. A metodologia utilizada foi a Pesquisa Narrativa, conforme Jean Clandinin (Universidade de Alberta, Canadá), que entende que as experiências são, sim, fonte legítima de conhecimento. Mais do que ouvir relatos, buscamos entender como as pessoas atribuem sentido às suas vivências, aos espaços e às relações.
Já problematizamos a questão salarial em artigo anterior. Agora, aprofundamos o debate sobre os processos inclusivos e as condições reais de trabalho. E, para isso, oficializamos junto à Secretaria Municipal de Educação, via Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), a solicitação de dados essenciais: 1) Quantidade média de alunos por sala, discriminada por escola e por modelo de gestão (direta, conveniada, cogerida); 2) Distribuição demográfica das matrículas, detalhada por bairro e território; 3) Informações sobre as salas com processos inclusivos, especificando se contam ou não com profissionais de apoio.
O pedido foi encaminhado a todos os vereadores da Câmara Municipal, reforçando nosso compromisso com a transparência, o debate público qualificado e a incidência social sobre a política educacional de Campinas.
Porque, no fim das contas, a pergunta que não quer calar é essa: quem cuida de quem educa?
Vanessa Crecci é doutora em educação pela Unicamp, professora da rede municipal de Campinas e membro do Observatório da Educação Campineira (OEC).







