A dor começa discreta. Um incômodo na virilha ao levantar da cadeira, uma fisgada ao calçar o sapato, uma rigidez que aparece nos primeiros passos da manhã.
Para boa parte dos pacientes com artrose de quadril, esses sinais iniciais são ignorados por meses ou até anos, atribuídos ao cansaço, à postura ou ao envelhecimento natural. O problema é que, enquanto o paciente espera a dor passar, a cartilagem da articulação segue se deteriorando.
Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 10 milhões de brasileiros convivem com a artrose de quadril. A Organização Mundial da Saúde estima que 80% das pessoas acima de 65 anos apresentam algum grau de desgaste articular. Mas o número que mais preocupa ortopedistas não está nos diagnósticos confirmados. Está nos que ainda não foram feitos.
Diferente de uma fratura ou de uma lesão aguda, a artrose progride de forma silenciosa. E quando o paciente finalmente procura um especialista, o desgaste já comprometeu de maneira significativa a mobilidade e a qualidade de vida.
O que é a artrose de quadril e por que ela avança sem aviso
De acordo com Dr. Tiago Bernardes, ortopedista especializado em cirurgia de quadril e com consultório em Goiânia, a articulação do quadril é formada pelo encaixe entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, a cavidade óssea da bacia.
Esse encaixe é revestido por cartilagem, um tecido que funciona como amortecedor e permite o deslizamento suave entre os ossos durante o movimento. Na artrose, essa cartilagem se desgasta de forma progressiva, tornando a superfície áspera e irregular.
O resultado é atrito direto entre os ossos. A dor aparece na virilha, na lateral do quadril ou na coxa, podendo irradiar até o joelho. Com o tempo, os movimentos ficam limitados. Subir escadas, entrar no carro, agachar para pegar algo no chão e até calçar meias passam a ser tarefas difíceis.
A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) aponta que 10% da população entre 30 e 50 anos já apresenta algum grau de artrose. Em quem tem mais de 60 anos, a proporção sobe para 60%. Ou seja, não se trata de um problema restrito à terceira idade.
Por que o diagnóstico demora tanto
Três fatores explicam o atraso recorrente no diagnóstico da artrose de quadril. O primeiro é a localização da dor. A virilha e a região interna da coxa não são áreas que o paciente associa ao quadril. Muitos procuram primeiro um urologista, ginecologista ou clínico geral antes de chegar ao ortopedista.
O segundo fator é a progressão lenta. A artrose pode levar anos para causar limitação funcional evidente. O paciente se adapta: muda o jeito de andar, evita escadas, para de praticar atividade física. Essas compensações mascaram a gravidade do problema.
O terceiro fator é cultural. Existe uma crença de que dor articular é consequência inevitável do envelhecimento, algo com que se deve conviver. E essa mentalidade retarda a busca por avaliação especializada.
Em cidades com grande oferta de serviços de saúde, como Campinas, o acesso a ortopedistas especializados é amplo. Ainda assim, o padrão de demora se repete.
Pacientes que poderiam ser tratados com fisioterapia, controle de peso e fortalecimento muscular acabam chegando ao consultório em estágio avançado, quando a cartilagem já foi consumida quase por completo.
O que acontece quando a artrose avança sem tratamento
A articulação do quadril suporta o peso do corpo inteiro. Cada quilograma a mais representa uma carga multiplicada sobre essa articulação durante a caminhada. Quando a cartilagem se desgasta e o osso fica exposto, o corpo tenta se proteger. Os músculos ao redor se contraem para limitar o movimento, os ligamentos ficam encurtados e a articulação perde amplitude.
O paciente começa a mancar. A coluna lombar é sobrecarregada para compensar a perda de mobilidade do quadril. Dores no joelho, na lombar e até nos pés podem surgir como consequência indireta do problema original.
Conforme dados do Global Burden of Diseases, estudo publicado com base em registros de 156 países entre 1990 e 2019, a osteoartrite de quadril é a que mais cresce em termos percentuais entre todas as formas de osteoartrite. Os casos globais de osteoartrite mais que dobraram nesse período, saltando de 247 milhões para 527 milhões.
No Brasil, o peso dessa progressão aparece nos números do sistema público. Dados do DATASUS mostram que, entre 2012 e 2021, foram realizadas mais de 251 mil artroplastias totais de quadril pelo SUS.
A Região Sudeste concentrou 50,8% desses procedimentos, com destaque para São Paulo e Minas Gerais. Em 2024, o SUS registrou recorde de cirurgias eletivas no país, com mais de 13,6 milhões de procedimentos, um crescimento de 10,8% em relação ao ano anterior, segundo a Agência Brasil.
Quando procurar um médico de quadril e o que esperar da consulta
Não existe um limiar exato de dor que determine o momento certo de buscar ajuda. Mas alguns sinais merecem atenção: dor persistente na virilha ou na coxa que não melhora com repouso, dificuldade para calçar sapatos ou cortar as unhas dos pés, rigidez ao levantar pela manhã e limitação para caminhar distâncias que antes eram confortáveis.
Procurar um médico de quadril com formação específica nessa articulação faz diferença no resultado. O especialista avalia a amplitude de movimento, solicita radiografias da pelve e da articulação e, quando necessário, ressonância magnética. Com esses exames, é possível determinar o grau do desgaste e definir o melhor caminho de tratamento.
Nem todo caso de artrose exige cirurgia. Pacientes com desgaste leve ou moderado podem se beneficiar de fisioterapia direcionada, controle do peso corporal, ajuste de atividades físicas e, em alguns casos, infiltrações com ácido hialurônico.
O fortalecimento de glúteos, quadríceps e musculatura do tronco é parte central do tratamento conservador, porque músculos fortes reduzem a carga direta sobre a cartilagem. A chave é não esperar a dor se tornar incapacitante para buscar avaliação.
O papel da artroplastia de quadril nos casos avançados
Quando o tratamento conservador não controla a dor e a limitação funcional compromete atividades básicas do dia a dia, a substituição da articulação por uma prótese se torna a alternativa mais eficiente. A revista The Lancet classificou a artroplastia de quadril como a cirurgia ortopédica do século, por seus altos índices de sucesso e satisfação entre os pacientes.
O procedimento consiste em retirar as superfícies articulares desgastadas e substituí-las por componentes de metal, cerâmica e polietileno. O paciente costuma andar com auxílio de andador ou muletas já no dia seguinte à cirurgia. A recuperação completa leva em média dois a três meses, e muitos pacientes retornam às atividades físicas regulares.
Registros internacionais de artroplastia indicam que os implantes modernos podem durar entre 15 e 25 anos, e uma parcela significativa ultrapassa esse período. A taxa de satisfação pós-operatória varia entre 82% e 95%, conforme dados do registro sueco de artroplastias, um dos mais confiáveis do mundo.
O volume de cirurgias no Brasil cresce. Dados da Revista Brasileira de Ortopedia mostram que as artroplastias de quadril e joelho estão em expansão, impulsionadas pelo envelhecimento da população, pelo aumento da obesidade e pelas sequelas de traumas e lesões esportivas.
Campinas e o acesso a tratamento ortopédico especializado
Campinas reúne condições que facilitam o acesso ao diagnóstico e tratamento da artrose de quadril. A cidade abriga um dos maiores centros universitários do país, com a Unicamp e seu Hospital de Clínicas, além de uma rede hospitalar privada densa.
O polo tecnológico e o perfil urbano da região metropolitana concentram uma população economicamente ativa que, por outro lado, está sujeita a fatores de risco como sedentarismo prolongado, jornadas extensas em escritórios e ganho de peso progressivo.
Segundo a equipe do COE, renomado centro ortopédico que atende na cidade de Goiânia, a combinação de longo tempo sentado com pouca atividade física é uma das principais engrenagens que alimentam a artrose precoce.
Quem trabalha em escritório passa em média oito horas por dia com o quadril em flexão. Os flexores do quadril encurtam, os glúteos enfraquecem e a articulação perde amplitude aos poucos. Quando essa pessoa resolve retomar corrida ou treino funcional sem preparo adequado, a sobrecarga pode acelerar o desgaste.
A disponibilidade de ortopedistas especializados na região de Campinas é alta. O acesso, porém, só resolve o problema quando o paciente decide procurar ajuda. E esse continua sendo o gargalo principal.
O que a medicina consegue fazer e o que depende do paciente
A ortopedia evoluiu de maneira significativa nas últimas décadas. Técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, próteses com materiais que geram menos atrito e protocolos de reabilitação acelerada mudaram o cenário do tratamento da artrose de quadril. O paciente que é operado hoje tem uma recuperação muito diferente daquele que passava por uma artroplastia vinte anos atrás.
Mas a medicina não substitui a decisão do paciente de buscar avaliação precoce. A artrose não regride. A cartilagem do quadril não se regenera sozinha depois de destruída. O que se pode fazer é retardar a progressão, tratar a dor e, quando necessário, substituir a articulação. Quanto antes o diagnóstico for feito, mais opções de tratamento restam disponíveis.
A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 já apontava que 23,4% dos adultos brasileiros relatavam problemas crônicos de coluna, um percentual que subiu para 33,9% durante a pandemia. Os dados sobre artrose de quadril seguem direção parecida, embora ainda haja menos levantamentos específicos para essa articulação.
O recado dos ortopedistas é direto: dor na virilha que dura mais de duas semanas, dificuldade para andar ou perda de mobilidade progressiva não devem ser ignoradas. A artrose do quadril é tratável em qualquer fase, mas os resultados são melhores quando o tratamento começa cedo.











