O Oscar 2026 acontece neste domingo (15) e, como é tradição quando o Brasil entra na disputa, as expectativas estão renovadas. Após o sucesso de Ainda Estou Aqui em 2025 que rendeu a Walter Salles o prêmio de Melhor Filme Internacional e uma indicação histórica para Fernanda Torres, os holofotes se voltam agora para O Agente Secreto. O longa de Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner Moura, chega à cerimônia representando o novo fôlego do audiovisual brasileiro.
Para o jornalista e cineasta campineiro Hamilton Rosa Jr., no entanto, é preciso cautela.
Crítico e curador de mostras do Museu da Imagem e do Som (MIS) de Campinas, Hamilton acredita que as indicações nas categorias principais, como Melhor Filme e Melhor Ator, enfrentam concorrentes pesados. Por outro lado, ele enxerga um caminho sólido para o Brasil em outras frentes, incluindo uma vitória quase certa em Melhor Fotografia para o brasileiro Adolpho Veloso, pelo filme “Sonhos de Trem”.

As Apostas de Hamilton Rosa Jr.
Melhor Filme e Direção: Uma Batalha Após a Outra, Paul Thomas Anderson
Embora seu preferido seja Pecadores, de Ryan Coogler, Hamilton aposta na vitória de Paul Thomas Anderson com Uma Batalha Após a Outra. Com 13 indicações e vitórias de Melhor Filme no PGA (prêmio do Sindicato dos Produtores dos EUA), Globo de Ouro, Critics Choice e BAFTA (prêmio da Academia Britânica de Cinema), o filme chega como o grande favorito. “É uma campanha que deve garantir o primeiro Oscar do cineasta”, projeta.
Sobre a direção, Hamilton mantém a aposta em Anderson, mas faz uma ressalva técnica: “Tenho reservas sobre premiar sempre o mesmo nome para filme e direção. Às vezes a direção é fabulosa, mas o filme, como conjunto, não atinge o mesmo nível. No caso de Anderson, porém, o trabalho é realmente maravilhoso”.
Melhor Ator: Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Apesar da torcida por Wagner Moura, Hamilton nota uma mudança de ventos na reta final. “Wagner estava na crista da onda quando ganhou o Globo de Ouro em janeiro. De lá para cá, a campanha de Timothée Chalamet (Marty Supreme) cresceu muito. Isso dificulta as chances do brasileiro, pois as preferências estão divididas”, avalia. O principal adversário de ambos é Michael B. Jordan (Pecadores), fortalecido pelo prêmio do sindicato dos atores (SAG).
No entanto, uma polêmica recente pode colocar o favoritismo de Chalamet em xeque. Durante um evento da revista Variety e da CNN em 21 de fevereiro, o astro de Marty Supreme afirmou que o balé e a ópera estão “em declínio” e que “ninguém mais se importa” com essas artes. A fala gerou forte repercussão negativa entre profissionais e instituições do setor e pode ter pesado na escolha dos acadêmicos, já que a votação final do Oscar se encerrou apenas em 5 de março.
Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)
Para Hamilton, a categoria de Melhor Atriz já tem dona: Jessie Buckley por Hamnet. “Ela é a grande força do filme. Virou uma unanimidade entre público e crítica, vencendo todos os prêmios das associações até agora. A chance de uma zebra é remota”, afirma.
Filme Internacional e Elenco: O Agente Secreto
É nestas categorias que reside a maior esperança brasileira. Hamilton aponta que o contexto político global pode favorecer o filme de Kleber Mendonça Filho. “O interesse pelo que o Brasil viveu na ditadura e no governo anterior é algo que o povo dos EUA está compreendendo melhor, dado o cenário atual com Trump deixando o mundo desconcertado. Essa tomada de consciência sensibiliza a classe artística de Hollywood”, explica. Além do fator político, ele destaca que o elenco é uma das maiores qualidades da obra, que tem como principais rivais o norueguês Valor Sentimental, em Melhor Filme Internacional, e Pecadores, como Melhor Direção de Elenco, categoria estreante na premiação deste ano.
Melhor Fotografia: Adolpho Veloso
Mesmo em um filme estrangeiro (Sonhos de Trem), o talento brasileiro deve ser premiado. “Nem acho Sonhos de Trem um grande filme, mas a amplitude que o Veloso dá à fotografia é de encher os olhos. A chuva de prêmios para ele, incluindo o Critics Choice e o Spirit Awards, reforça sua sensibilidade”, destaca o crítico.
O Cinema em Campinas
Para além dos holofotes de Hollywood, Hamilton traz uma reflexão necessária sobre o cenário local. Ele aponta o paradoxo de Campinas: uma cidade com produção efervescente, mas carente de telas que fujam do circuito comercial dos shoppings.
Atualmente, o MIS, e centros acadêmicos como a Unicamp e a PUC-Campinas são resistências.
“A pessoa faz um filme em Campinas e não consegue exibir na própria cidade. Existem cineastas no Campo Grande, no Ouro Verde, mas falta espaço”, lamenta. Ele cita como exemplo o longa Malu, aclamado pela crítica: “Para assisti-lo, precisei ir a São Paulo, pois não passou aqui. E olha que o considero um dos 100 melhores filmes brasileiros da história”.
Para o cineasta, o fortalecimento do setor depende de políticas de Estado que garantam que impostos do setor, como os de streaming, retornem para o fomento da produção nacional. “O dinheiro faturado no audiovisual deve ser refinanciado no próprio setor. Isso deveria ser uma regra imexível, independente de governos”, conclui.











