O curso de extensão “Desenvolvimento, Trabalho e Políticas Públicas”, oferecido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a partir de convênio estabelecido com a Fundação Perseu Abramo, está gerando polêmica e questionamentos. O módulo – já concluído – ocorreu no âmbito do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, um colegiado formado por professores do Instituto de Economia (IE) da universidade.
O curso teve carga horária de 90h, organizado por meio de transmissões on-line pela plataforma Teams e pelo YouTube. Entre os palestrantes convidados estiveram o presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Marcio Pochmann, que também presidiu a Fundação Perseu Abramo, entre 2012 e 2020. Ele fez a aula inaugural.
Em outra palestra esteve o fundador e principal líder do Movimento Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile.
Dizendo-se “estarrecido” com o fato de uma universidade pública estadual oferecer um curso a partir de acordo com uma fundação que é reconhecidamente um braço de formação política do Partido dos Trabalhadores, o deputado estadual Rafa Zimbaldi, do Cidadania, que tem base eleitoral em Campinas, decidiu denunciar publicamente o caso.
Ele enviou à imprensa nesta sexta-feira (11), incluindo a redação do Hora Campinas, uma nota em que revela ter acionado o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) pedindo a abertura de sindicância na Unicamp.
No ofício, Tarcísio é questionado sobre as motivações da parceria com a Fundação Perseu Abramo. O parlamentar também oficiou o reitor da Unicamp, Paulo Cesar Montagner, cobrando esclarecimentos sobre a implantação do curso.
Sua denúncia está sendo reproduzida por outros veículos de comunicação, como a Gazeta do Povo e O Antagonista. O site oficial da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), onde Rafa tem assento, também divulgou a notícia.
“A Unicamp é uma das maiores instituições de ensino do Brasil e mantida com recursos públicos. Sendo assim, não pode haver distinção política-partidária dentro do campus. Ao meu ver, está claro o objetivo desta extensão voltada à ‘Perseu Abramo’: aumentar a militância petista, utilizando a estrutura estadual. Queremos uma sindicância para levantar os responsáveis pela implantação desta capacitação na Unicamp e punir quem quer que seja”, defende Rafa.
O convênio foi assinado na gestão anterior da Unicamp, do então reitor e professor Antonio José de Almeida Meirelles, o Tom Zé.

No site da Fundação Perseu Abramo, o curso foi anunciado da seguinte forma: “A Fundação Perseu Abramo acaba de fechar convênio com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para a realização de cursos de extensão destinados a filiados e militantes do partido, integrantes de movimentos sociais e servidores públicos. O objetivo é capacitar esse público a respeito de temas da conjuntura nacional, de modo que possam ser pensadas propostas, ações e projetos aos diversos problemas enfrentados atualmente pela sociedade”.
O curso foi ministrado entre março e junho último. De acordo com os termos do edital, as 100 vagas da primeira turma de extensão eram “destinadas a militantes, pessoas que atuam nas estruturas de partidos políticos, candidatos e similares”.
O Hora Campinas entrou dentro do site da Escola de Extensão da Unicamp (Extecamp). No módulo do curso “Desenvolvimento, Trabalho e Políticas Públicas”, há um aviso de que não há previsão de oferta de novo curso. O interessado pode, porém, se cadastrar para receber informações sobre novas turmas. O convênio da Unicamp com a Fundação Perseu Abramo prevê cursos de capacitação até 2029.
“Fico estarrecido com a possibilidade de estar havendo escolhas ideológicas para o ingresso em formações na Unicamp. Como pode os candidatos serem selecionados com base em trajetória política e sindical? Estas capacitações que estão sendo ministradas na universidade de Campinas evidenciam doutrinação num espaço onde é proibido esse tipo de ação”, conclui Rafa. Para ele, trata-se de uma “imoralidade administrativa”.
O que diz o Cesit
O Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho defendeu a legalidade do curso. Veja a nota:
Em atenção aos questionamentos encaminhados, esclarecemos:
O curso “Desenvolvimento, Trabalho e Políticas Públicas” é uma atividade de extensão universitária promovida pelo Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT), do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Seu conteúdo é de natureza acadêmica, elaborado por docentes da universidade, com foco em temas como desenvolvimento, transformações do trabalho e políticas públicas.
A iniciativa é custeada integralmente pela instituição demandante — a Fundação Perseu Abramo (FPA) — não havendo repasse ou uso de recursos da Unicamp. Cabe ao Instituto de Economia a oferta técnico-científica, conforme sua missão institucional.
O Instituto de Economia conduz suas atividades de extensão com base no pluralismo institucional, atendendo demandas de diferentes entidades da sociedade civil, órgãos públicos e instituições, sem discriminação de natureza ideológica ou político-partidária. Todas as propostas são avaliadas segundo critérios técnicos e acadêmicos, conforme a legislação vigente. A continuidade deste ou de outros cursos dependerá do interesse da instituição demandante e da disponibilidade do CESIT, seguindo os trâmites e normas institucionais. O CESIT reafirma seu compromisso com a autonomia universitária, a liberdade de cátedra e o interesse público.
Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho – Cesit







