O jornalismo profissional vive um grande desafio. Não é apenas sobreviver monetariamente ao avanço da tecnologia e às transformações da sociedade. É, sobretudo, manter-se relevante e ser considerado essencial para contribuir com os seus leitores. Nem sempre o jornalismo é compreendido. Muitas vezes, erroneamente, é carimbado como politicamente enviezado. Em outras, acertadamente, é taxado de militante ideológico. A autocrítica é preciso ser feita sistematicamente.
O Hora Campinas está prestes a completar cinco anos de fundação e, desde que chegou ao mercado, tem buscado oferecer um jornalismo propositivo e original. O que é isso? Contribuir com temas inspiradores, assuntos de grande importância para a sociedade e manter-se intransigente a pilares democráticos.
Isso faz toda a diferença. Em tempos de polarização política, os desafios se agigantam. O Hora não é nem de esquerda nem de direita. Mas ele é bastante transparente com as suas pautas e sua linha editorial: o portal defende a democracia de forma intransigente, apoia a ciência e a pesquisa, combate a intolerância e valoriza a diversidade e a pluralidade de ideias. Em resumo, é um projeto cuja bússola moral é a civilidade.
Neste sentido, para ser ainda mais específico, o Hora Campinas condena e repudia os sucessivos atos antidemocráticos que gestaram o ovo da serpente do autoritarismo do governo anterior e a tentativa de golpe de Estado que traz as digitais do bolsonarismo e de militares que afrontaram a Constituição.
O Hora defende a punição ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos demais golpistas que estão sendo julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O Hora rejeita a anistia por entender que isso significa impunidade. E o Hora entende que, ainda que imperfeito, o STF cumpre missão pedagógica e democrática ao seguir com o rito do julgamento, após investigações da Polícia Federal (PF) e denúncias apresentadas pela Procuradoria Geral da República (PGR).
Essa posição editorial não pode ser confundida com militância.
É um posicionamento civilizatório. Não se pode tolerar conspirações políticas para mudar o jogo eleitoral e atentar contra o Estado Democrático de Direito. Esse arcabouço basilar das regras constitucionais faz do projeto Hora Campinas um veículo sintonizado com a democracia. Fora disso, é golpe.
Nem por isso, o portal pode se privar de dar voz a quem defenda Bolsonaro, ainda que isso possa soar estranho. Foi o que aconteceu essa semana, quando o Hora publicou artigo da deputada federal Rosana Valle (PL), em que argumentava que o ex-presidente era vítima de uma injustiça. O texto gerou bastante controvérsia nas redes sociais. Foi um saudável e acalorado debate, mas era preciso que o Hora viesse aqui em editorial para reforçar seus princípios centrais.
A área de Opinião do Hora traz um aviso, que será reproduzido aqui: “Os artigos refletem as opiniões de seus autores, com ampla liberdade e respeito pela pluralidade e troca de ideias. Essas opiniões não expressam, necessariamente, a visão editorial do Hora Campinas”.
No mesmo dia, o portal e suas redes sociais publicavam um outro texto, com visão totalmente oposta. Era a opinião do deputado federal Lindbergh Farias (PT), onde criticava a tentativa de apoiadores de Bolsonaro de fazer avançar um projeto de anistia no Congresso. Duas visões, dois contrapontos.
O jornalismo padece desta dificuldade de exercer o seu ofício sem que para isso seja, rotineiramente, rotulado e criticado em praça pública, agora, na verdade, no tribunal da internet.
Ouvir vozes diferentes é prática do jogo democrático, nem que isso embrulhe o estômago. O que o jornalismo não pode é dar voz a conteúdos que propaguem ódio, violência e fake news.
Vale lembrar que a comunicação contemporânea, por conta das bolhas induzidas por algoritmos, é prisioneira de um ciclo vicioso que faz o leitor, invariavelmente, ter acesso aos conteúdos em que acredita. É o viés da confirmação, ou seja, é quase sempre rotina o leitor ver aquilo que confirma as suas crenças, deixando conteúdos que repudia de lado.
Com a polarização política, a linha da pluralidade ficou muito tênue. Mas é preciso exercer o direito da discordância e da contrariedade. Assim como o STF e a democracia, o jornalismo é imperfeito.
Com todas as críticas, algumas acertadas, o Supremo dá sim lição ao mundo por enfrentar pressões internas e externas e levar a cabo o julgamento de Bolsonaro e de outros golpistas.
Com o Hora, guardadas as proporções, a missão é parecida: defender seus pilares democráticos de forma inquestionável, mas oferecer o contraditório a quem pensa diferente. Isso faz bem!
De qualquer forma, a curadoria do jornalismo do Hora Campinas estará sempre aberta às reflexões e críticas. E permanecerá vigilante a eventuais excessos e erros.
Marcelo Pereira, editor-chefe e CEO do Hora Campinas, é escritor, professor de Comunicação e especialista em fact-checking pelo Knight Center for Journalism in the Americas. Graduado em Jornalismo pela PUC-Campinas e com 33 anos de profissão, tem pós-graduação em Jornalismo de Qualidade e em Jornalismo Latino-americano







