Representantes da comunidade cultural, no Brasil e na região de Campinas, foram a público prestar homenagem à cantora lírica Niza de Castro Tank, que morreu neste domingo (24), em sua casa, em Campinas, aos 91 anos, A soprano era considerada a maior intérprete da obra do maestro campineiro Carlos Gomes. O sepultamento acontece nesta segunda-feira em Limeira, sua cidade natal. Niza foi a artista que mais cantou a obra de Tonico.
Considerada uma das maiores cantoras líricas brasileiras do século XX, Niza de Castro Tank participou intensamente do cenário lírico brasileiro. Ela é, também, escritora. E dentre suas obras, escreveu “Minhas pobres canções: Antônio Carlos Gomes”, que analisa a obra do compositor campineiro.
O musicista e jornalista Alcides Acosta, presidente do Centro de Ciências, Letras e Artes e da Associação Brasileira Carlos Gomes de Artistas Líricos, exaltou a diva da música clássica. “Recebemos, entristecidos, a notícia do falecimento da extraordinária soprano e mestra Niza de Castro Tank. Niza, além de ter feito uma carreira operística de destaque, nacional e internacionalmente, foi a intérprete incomparável da personagem Ceci, em IL GUARANY, de Carlos Gomes, em sua primeira gravação sob regência de Armando Belardi”, lembrou.
“Niza cantou óperas nos palcos dos Theatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro, como Rigoletto, La Traviata, Lakmé, O Galo de Ouro, Condor, Lo Schiavo, entre outras. Doutora em Música, especializou-se com tese sobre Carlos Gomes e foi professora na Unicamp. Sua legião de admiradores é extensa e todos sentem essa perda com enorme saudade”, finalizou.
Doutora em Artes pela Unicamp, a cantora integrou o Departamento de Música da universidade como professora de técnica vocal. Participou de inúmeras óperas no Brasil e no Exterior apresentando-se na Rússia, Alemanha, Itália, Israel, Uruguai e Venezuela.
O musicólogo, ensaísta e crítico Luis Roberto Von Stecher Trench, presidente da Academia de Música do Brasil, cravou que Niza de Castro Tank “era uma das maiores cantoras líricas brasileiras de todos os tempos”. Ele recordou que a artista, que nos anos 50, convenceu o maestro Armando Belardi a realizar a primeira gravação em disco da ópera O Guarany, de Carlos Gomes.
“Sua voz, maravilhosa, limpa, afinadíssima e sutil, nos deixou de longe a melhor interpretação já gravada mundialmente da Ceci, de O Guarany, de Carlos Gomes. Nem a própria Bidu Sayão consegui a perfeição alçada por Niza Tank na célebre Cavatina da mais famosa ópera de Carlos Gomes”, pontuou o ensaísta.
Luis Roberto Von Stecher Trench ressalta ainda que a cantora era a “nossa imortal da Academia de Música do Brasil, nomeada, sendo também nossa chanceler. Em post nas redes sociais, ele acrescentou uma imagem do diploma conferido a Niza Tank. Veja abaixo o documento assinado por Trench e pelo voce-presidente da Chancelaria, Cesário Melantonio Neto.

Academia Campinense de Letras
A Academia Campinense de Letras (ACL) divulgou uma nota de falecimento onde reconhece a importância e o legado de Niza. A nota foi compartilhada com todos os acadêmicos.
A professora, antropológa e também cantora lírica Regina Márcia Moura Tavares também expressou se pesar pela morte de Niza, a quem definiu como “mui querida soprano coloratura, intérprete inesquecível de CeciI em ILGUARANY, do imortal CARLOS GOMES”.
Para a acadêmica, Niza “não somente se destacou como cantora, mas mestre carinhosa formadora de tantos amantes do Canto Lírico, no Instituto de Artes da Unicamp, onde fez seu doutorado pesquisando as canções do grande compositor campineiro”.
“Tive o prazer de participar durante alguns anos, como sua convidada, do MADRIGAL DECASON, o qual ela criou e manteve por incontáveis anos. Campinas perde um de seus maiores valores da área artística, mas também uma mulher especial, simples, amorosa, determinada e competente, a sempre diva Niza Tank”, escreveu Regina Márcia, em depoimento ao Hora Campinas.

Repercussão
Amigos, admiradores e ex-alunos foram às redes sociais neste domingo deixar uma mensagem de carinho à família e exaltar o legado de Niza. “Uma perda inestimável para a música brasileira. Morre uma das grandes divas brasileiras. Meus sentimentos aos familiares. Niza cumpriu sua missão como pessoa e foi excepcional em sua missão musical”, escreveu Rafael Sales Arantes.
“Que triste notícia! Guardo no coração as lembranças dos ensinamentos da minha mestra, da amizade da colega e do exemplo de cantora e artista impecável e inspiradora. Descanse em paz”, postou Adriana Kayama.
“Que perda irreparável como artista, pessoa e alma. Cumpriu a sua trajetória nesta vida, deixando lembranças a todos; sem sombra de dúvidas e com certeza, o mundo foi agraciado com a presença deste ser nestes vastos e longos anos dedicados à música”, acentuou Alex Meiester.
“Foi um privilégio ter Niza aqui nesta cidade… artista esplêndida, primeira professora, orientadora, conselheira e mãe! Mãe de tantos outros cantores! Com aquele jeitinho de olhar…quando levantava uma sobrancelha! Aí vinha algo!!! Niza é pura arte”, resumiu Márcia Aparecida Baldin Guimarães.

Trajetória de sucesso
Niza de Castro Tank recebeu em vida inúmeras homenagens e era reconhecida como uma musicista de altíssimo quilate. Durante cinco anos consecutivos, por exemplo, foi premiada com o Troféu Roquete Pinto, além de outros como Troféu Fumagalli, Troféu Cacique, Troféu Bandeirantes, Troféu Carlos Gomes, Troféu Ordem dos Músicos do Brasil e a Medalha de Associação de Críticos Teatrais.

Obra referência
“Minhas pobres canções: Antônio Carlos Gomes”, que analisa a obra do compositor campineiro, é considerado uma obra icônica. O livro traz as canções do maestro do ponto de vista musical e de interpretação vocal, apoiadas pela gravação, em dois CDs, das peças nos registros originais em que foram compostas.
O livro traz os seguintes temas: Por que falar destas canções; O caminho das canções; Modinhas e canções; Modinhas e canções em Carlos Gomes; Para entender; Para interpretar; Parceiros e destinatários; As primeiras edições; As canções, uma a uma – Bela ninfa de minh’alma; Suspiro d’alma; Anália ingrata; Quem sabe?; Io ti vidi; Notturno; Eternamente; La madamina; Lisa, me vos tu bem?; Lo sigaretto; Beato Lui; Giulietta Mia; Célia d’Amore; Qui pro quo; La preghiera dell’orfano; Aurora e Tramonto; Sul Lago di Como – La egata; Mamma dice; Realtà; Sempre Teço; Mon bonheur; Spirto gentil; Divorzio; Rondinella; Oblio; Il brigante; Bella Tosa; Cos’è l’amore; La piccola mendicante; Civettuola; Conselhos; L’Arcolajo; Lontana; Povera Bambola; Dolce rimprovero; Tu m’ami; Per me solo; Canta ancor; Addio; Noces d’argent; Fra cari genitor; A gravação – Os intérpretes; Minhas pobres canções.









