“Torturam-se e matam-se pessoas, mas não ideias.” (Carlos Lamarca).
Neste aniversário de 61 anos do Golpe Militar que instalou a Ditadura no Brasil, escrevo sobre a entrevista exclusiva que fiz com três ex-guerrilheiros de Carlos Lamarca para a Rede Globo, mas que nunca foi exibida. Pela primeira vez, um repórter voltava com três sobreviventes da Vanguarda Popular Revolucionária — a VPR — à base de treinamento de guerrilha rural, criada por Lamarca, instalada no coração do Vale do Ribeira.
O texto e roteiro foram aprovados pelo editor-chefe do plantão do Fantástico em São Paulo naquele fim de semana, a reportagem foi editada, sonorizada e, definitivamente, esquecida. Jamais foi usada em nenhum dos telejornais da emissora.
Oficialmente, nunca me deram uma explicação sobre o destino do material. Um colega me confidenciou: “parece que a sua reportagem faz muita apologia à guerrilha”.
Já se passaram 25 anos. Felizmente, guardo uma cópia desse trabalho jornalístico.
O texto a seguir foi escrito com base no roteiro aprovado e na decupagem que fiz das imagens e entrevistas gravadas em oito fitas. Ao ficar sabendo, recentemente, desse episódio, o jornalista e escritor Fernando Morais aconselhou: “publica!”. Então, vamos lá!
Manhã de 26 de agosto de 1999. Eu e o repórter cinematográfico Carlos Torrente nos encontramos com os ex-guerrilheiros de Carlos Lamarca (1937-1971), na Rodovia Régis Bittencourt, bem próximo ao acesso que eles costumavam pegar para chegar ao topo da montanha na qual funcionava o centro de treinamento. Estávamos numa região conhecida como Capelinha, no município de Jacupiranga, a 241 quilômetros de São Paulo.
Na base viviam 18 guerrilheiros. Na época em que esta reportagem foi feita, dez ainda estavam vivos e três voltaram comigo ao esconderijo 30 anos depois da criação da VPR:

♦ Subtenente Darcy Rodrigues, o “Leo” (1941-2022). Na época da matéria, estava com 57 anos. Deixou o Exército em janeiro de 1969 e se tornou um dos homens fortes do capitão Carlos Lamarca, o ajudando a roubar uma Kombi carregada de fuzis de dentro de um quartel do Exército, em Osasco. Foi preso durante a ditadura militar. Na condição de exilado político, viveu na Argélia e em Cuba;

♦ Sargento José de Araújo Nóbrega. Estava com 61 anos. Foi outro homem de confiança de Lamarca. Capturado pelos militares, acabou exiliado no Chile;

♦ Joaquim dos Santos, o “Monteiro”. Estava com 57 anos. Era o chefe dos transportes da VPR e o motorista particular de Lamarca. Em razão de circular muito de carro, ele se apresentava na região como Antônio e dizia que era fazendeiro.
Logo que chegamos ao pé da montanha, Joaquim comentou: “parece que vai começar tudo de novo!”. E Darcy revelou que os guerrilheiros chegavam até ali com os olhos vendados. “Havia a necessidade de uma segurança extrema até entre nós. O conhecimento de situações estratégicas causaria problemas numa situação de prisão e de tortura”. Darcy era o mais emocionado: “eu me sinto voltando a ser o Leo!”.
Seguimos a nossa caminhada. Mais à frente, entrevistei o lavrador Manoel Gomes. Ele disse que já encontrou três bombas lançadas pelos aviões militares contra a VPR: “Eu vi aquele bicho comprido assim, peguei e coloquei nas costas”.
Depois, passamos pela sede da fazenda que havia sido comprada pela guerrilha. Segundo Joaquim Monteiro, era uma fazenda de fachada, “a casa era maior, um aparelho bem montado. Pagaram 80 mil cruzeiros pela fazenda”.

Durante a longa subida pela mata, notamos que a trilha aberta no passado não existia mais. José de Araújo Nóbrega começou a abrir o caminho com um facão, tal qual fazia nos velhos tempos. E a natureza surpreendia: ainda estavam ali os pés de amoras selvagens e de samambaias gigantes, cujas frutas e brotos matavam a forme do grupo de Lamarca quando faltava comida.
“A gente pegava o broto no alto, limpava, picava e refogava com sal”, explicou Joaquim. Eles também se alimentavam com palmitos colhidos na floresta.
Mais de 2h de subida e chegamos ao local no qual funcionava o ponto estratégico do centro de treinamento: “Ficávamos deitados aqui com binóculos observando por vários ângulos diferentes, era feito uma espécie de croqui panorâmico”, esclareceu Darcy.
José Araújo de Nóbrega nos mostrou todos os espaços que eram ocupados pelos companheiros, onde funcionavam as salas de aula, a cozinha, o riacho de águas cristalinas que matava a sede de todos e era usado para o banho. Tinha também o ponto destinado às aulas de tiro: “Era uma escola de guerrilha onde se aprendia educação política, militar, manuseio de armas, explosivos… A base era bem camuflada, a gente colocava redes nas árvores”.
Havia até um local especial para realização de assembleias e tomadas de decisões importantes: “Tinha um teto vegetal e embaixo quinhentos metros quadrados limpos, por isso nos chamávamos de Congresso”, disse Darcy.
Para montar a escola de formação de guerrilheiros no Vale do Ribeira, os combatentes da VPR organizaram a mais cinematográfica ação da luta armada já realizada no Brasil.
Em 29 minutos, tomaram um cofre com mais de dois milhões e meio de dólares (algo em torno de R$ 14,5 milhões em conversão atual) que pertencia ao ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros. O cofre estava na casa onde vivia o irmão de Ana Capriglione, amante do ex-governador, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Darcy Rodrigues e José Araújo Nóbrega participaram da ação realizada no dia 18 de julho de 1969.
O cofre foi coberto com uma lona e transportado na carroceria de uma caminhonete. Darcy relatou que ele e os colegas tiveram muito sangue-frio durante a fuga: “Era um dia de semana, tarde de trânsito intenso, o sinal fechou, o guarda viu o veículo arriado por conta do peso e perguntou: tudo bem aí, companheiro? O que vocês estão levando aí?”
Darcy conta que usou uma tática de guerrilha para garantir o sucesso do assalto.
“Eu mostrei para esconder!”. Ele, então, respondeu: “Estamos levando um cofre que a gente roubou ali atrás, estamos levando para ver o que tem dentro.” O guarda sorriu como se tivesse ouvido uma piada e falou: “Faça bom proveito, tomara que esteja bastante recheado!”
Segundo Darcy, as notas ficaram molhadas durante a abertura forçada do cofre: “Penduramos os dólares dentro de casa para que secassem, como num varal”.
Durante o dia inteiro que passamos no que restou do centro de treinamento da VPR, os homens de Lamarca me relataram outros episódios que protagonizaram em ações de guerrilha. Uma história que foi interrompida no começo dos anos 70 quando o Exército descobriu o esconderijo e transformou a região em cenário de perseguições, emboscadas, tiroteios, prisões, torturas, fugas e execuções. “Os helicópteros passavam e quando viam alguma clareira na selva eles metralhavam”, contava Darcy.

Perseguido por mais de dois anos pelos militares, Carlos Lamarca foi assassinado no sertão da Bahia em setembro de 1971. Para os sobreviventes Darcy Rodrigues, o Leo; José Araújo Nóbrega; e Joaquim dos Santos, o “Monteiro”, que me apresentaram à montanha que gestou o sonho revolucionário de Lamarca, voltar a esse lugar histórico é uma forma de lembrar de todos os que foram mortos pela Ditadura e, acima de tudo, celebrar a liberdade e a Democracia.
Lucius de Mello é doutor em Letras pela USP e Sorbonne Université-Paris. Autor da tese A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os heróis bíblicos em A Comédia Humana. Jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003.







