No laboratório de panificação do Senai Prof. Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, na Ponte Preta, o cheiro de pão de batata se mistura à concentração dos alunos. A professora Sarah Marcondes Lapenna observa a fornada e diz, satisfeita: “Agora isso aqui já é pão de vitrine”. Meses atrás, muitos daqueles jovens estavam em semáforos, vendendo doces ou fazendo bicos. Hoje, discutem recheios, aprendem processos e projetam o futuro.
Sarah está à frente de uma turma do Programa Construindo Autonomia para o Futuro (Procaf), iniciativa criada em 2014, hoje na 22ª edição, financiada pela Unimed Campinas, em parceria com o Senai e com apoio da Prefeitura. O programa é voltado a adolescentes de 15 a 17 anos encaminhados pela rede socioassistencial, muitos deles abordados em situação de trabalho infantil.
“É muito especial ver o brilho nos olhos, ver o conhecimento sendo adquirido”, diz a professora. “Para muitos, foi a primeira vez vendo cacau de verdade.”
Entre os alunos está Nycolly Borges São Miguel, 16 anos. Estudante do Ensino Médio à noite, moradora do Jardim do Lago Continuação, ela chegou ao Procaf depois que o irmão, anos antes acolhido pelo Serviço de Abordagem Social de Criança e Adolescente em Situação de Trabalho Infantil, não pôde assumir a vaga.
“Eu não sabia mexer em Word, Excel… Agora monto planilha, mando e-mail”, conta. Além do Pacote Office, faz Preparação para o Mercado de Trabalho e Auxiliar de Produção de Pizzas, Salgados e Confeitaria.
“Eu só pensava ‘quero ter minha casa’. Agora entendi que não é só querer”, diz. Já cogita empreender com bolos e pães que leva para a família experimentar.
História parecida é a de Maria Emanuele Carvalho Rodrigues, 15 anos, moradora do Campo Belo. Ela ajudava a mãe em um pequeno restaurante na garagem de casa quando foi convidada, via Serviço de Abordagem Social, a integrar o Procaf. “Fiquei com medo. Achava que não sabia nada de tecnologia”, admite.
Hoje, cria arquivos, envia e-mails e sonha em profissionalizar o negócio da família. “Minha mãe disse que tem muito orgulho de mim.”
O mesmo Serviço de Abordagem Social que levou Nycolly e Manu ao programa atua diariamente nas ruas de Campinas. Conveniada à Prefeitura e integrante do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), a organização já contribuiu para a saída de 4,8 mil crianças das ruas desde 2011. Entre 2023 e outubro de 2025, foram 559 abordagens, com registros detalhados sobre trabalho infantil e vulnerabilidade social.
“Quando falamos em tirar crianças das ruas, estamos falando de política pública”, afirma Vandecleya Moro, secretária de Desenvolvimento e Assistência Social.
“O Serviço de Abordagem Social e a parceria com o Procaf transformam a lei em oportunidade concreta. Em vez de trabalho infantil, tem escola, curso profissionalizante e projeto de vida.”
João Gabriel da Silva Feitosa, 16 anos, conheceu o Serviço de Abordagem Social no semáforo do Ouro Verde. Vendeu bala, correu achando que era o Conselho Tutelar, mas aceitou o convite para conhecer o Senai. Hoje, estuda, frequenta o Procaf e não trabalha mais na rua.
“Mudou muita coisa. Estou tendo responsabilidade com a vida”, resume.
O Procaf dura seis meses e é dividido em quatro módulos: Auxiliar de Produção de Pizzas, Salgados e Produtos de Confeitaria; Pacote Office; Preparação para o Mercado de Trabalho; e Ressignificação da Aprendizagem Escolar. Desde 2014, já formou 384 jovens. Ao final, os alunos escrevem sobre a própria trajetória – relatos que dão origem a livros lançados nas formaturas.
“Nenhum segmento enfrenta o trabalho infantil sozinho”, reforça Vandecleya. “Assistência social, educação, iniciativa privada e sociedade civil precisam atuar juntos. O Procaf é um exemplo dessa engrenagem funcionando.”







