Marcelo Beraba, jornalista que influenciou gerações de repórteres ao moldar e comandar grandes redações em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília ao longo de mais de 50 anos de carreira, morreu nesta segunda-feira, 28 de julho, aos 74 anos, no Rio. A causa da morte foi câncer no cérebro.
Beraba foi o idealizador e fundador da Abraji, associação responsável pela organização dos maiores congressos de jornalismo do hemisfério sul. Segundo Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, “sem Beraba não haveria Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Sem Beraba, a Abraji não teria crescido e se consolidado como uma das maiores organizações de jornalismo investigativo do mundo, indo muito além do que seus fundadores imaginavam naquele dezembro de 2002”.
Ao longo de sua trajetória, Beraba tornou-se uma referência ética e profissional em grandes redações brasileiras, como as de O Globo, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo e O Estado de S.Paulo. Ele dedicou sua carreira a formar equipes, identificar e treinar talentos, e a implementar as melhores práticas jornalísticas. Almejava melhorar a qualidade do jornalismo no Brasil, e conseguiu.
Sua influência se estendeu também ao jornalismo latino-americano, como destaca Ricardo Uceda, diretor do Instituto Prensa y Sociedad (Peru). “Ele foi um dos fundadores da Conferência Latino-Americana de Jornalismo Investigativo (COLPIN) e do seu Prêmio Latino-Americano, no qual atuou como jurado por mais de dez anos. Seu papel foi decisivo na (consolidação da) relação entre jornalistas brasileiros e latino-americanos, inexistente até duas décadas atrás.”
Beraba era um defensor incondicional da liberdade de imprensa e um incansável promotor do jornalismo investigativo como ferramenta essencial para o fortalecimento da democracia.
Acreditava que não se faz bom jornalismo sem bons jornalistas, daí ter incentivado cursos de treinamento de jornalistas nas redações que chefiou e como presidente da Abraji. Sua visão de um jornalismo crítico e investigativo pautou sua atuação em todos os veículos por onde passou. E se difundiu ainda mais através da Abraji.
Beraba era um editor que gostava de reportagem e de bons repórteres. “Já fui editor, fechei Primeira Página…, mas o que me deu mais prazer, deu mais motivação, foi trabalhar com produção de reportagens, com repórteres, fazer planejamento, a pauta”. O jornalismo representou para ele uma vocação, uma forma de expressar sua criatividade e de contribuir para a sociedade.
Ao longo de sua trajetória, Beraba se dedicou a produzir reportagens de qualidade, a investigar os fatos a fundo e a defender os interesses do leitor. Ele sempre valorizou a ética, a imparcialidade e a transparência no jornalismo, buscando garantir que a informação chegue ao público de forma clara, precisa e completa.
O legado de Marcelo Beraba para as futuras gerações de jornalistas é marcado por sua paixão pelo jornalismo, sua dedicação à apuração dos fatos e seu compromisso com a ética e a qualidade da informação.
Américo Martins, que trabalhou com Beraba na Folha, afirma categoricamente: “Mudou a minha vida. Foi um mestre para mim”. Beraba sempre incentivou os jovens jornalistas a se aprofundarem em seus conhecimentos, a dominarem as técnicas de investigação e a buscarem a verdade com rigor e imparcialidade.
Para Beraba, alguns dos fundamentos do jornalismo incluem pesquisar, obter e dominar conhecimento, “porque você tem um leitor, um telespectador cada vez mais exigente”. Ele também enfatiza a importância da observação e critica o jornalismo “de aspas”, declaratório. Em sua visão, “um desvio do nosso jornalismo, exatamente por não ter muita observação de nada, foi se tornar um jornalismo ‘de aspas’, declaratório”.
Ao longo da vida Beraba era chamado pelos amigos de “mestre”. Era desse jeito que ele costumava chamar os colegas para uma conversa. O que começou como um vício de linguagem, tornou-se uma marca pessoal, refletindo a maestria com que apostava em novos talentos e estimulava reportagens investigativas.
Beraba deixa a esposa, Elvira, duas filhas, dois enteados e três netos. A cerimônia de seu funeral ocorrerá nesta quarta-feira, 30 de julho, no memorial do Carmo, no Cemitério do Caju, da 12h30 às 15h30.









