A Meta removeu um post publicado pelo Hora Campinas em sua página no Facebook na manhã deste sábado (18), sob alegação de que o conteúdo poderia ser um spam. A postagem jornalística reproduzia a coluna do articulista Luis Felipe Valle, intitulada “O tecnofeudalismo de Trump e Musk”, com o subtítulo “A propriedade privada está ameaçada, e não é pelo comunismo!”.
Luis Felipe Valle é um professor universitário que mantém a coluna Versões e Subversões no portal. Seus textos sobre temáticas contemporâneas são analíticos e críticos, incluindo geopolítica, política, jornalismo e ambiente digital.
A remoção do conteúdo coincide com o momento de revisão da Meta sobre as suas políticas de moderação de conteúdo. A Meta, do empresário Mark Zuckerberg, é dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, três das maiores redes digitais do planeta.
Recentemente, Mark anunciou o fim da checagem de fatos das plataformas. A princípio, a suspensão deste fact-checking destinado a identificar fake news e postagens com desinformação, seria limitado apenas aos EUA.
Não se sabe se a remoção do conteúdo do Hora Campinas já atende às novas diretrizes da plataforma.
Diariamente, o portal reproduz em suas páginas das redes sociais parte de seu conteúdo. As colunas de seus colaboradores são repostadas normalmente. É a primeira vez que um conteúdo do Hora Campinas é removido sob essa alegação. O spam é um termo que define e-mails ou outros tipos de mensagens considerados indesejados ou perigosos.
O que dizia a coluna
A coluna de Luis Felipe Valle trazia uma análise dos novos horizontes da geopolítica e da sociedade a partir da posse de Donald Trump na próxima segunda-feira, dia 20 de janeiro, e de seu alinhamento com o empresariado que domina as plataformas de informação, como Elon Musk, dono do X, antigo Twitter, e do próprio Mark.
Em seu texto, o articulista foi incisivo.
“Numa estrutura de colonialismo digital, o neoliberalismo informacional perpetua a exploração do trabalho, do tempo e das relações sociais, transformando usuários em produtos (e produtores e consumidores de conteúdos) e dados em moedas de troca”, escreveu.
“O impacto desse tecnofeudalismo ultrapassa a esfera econômica e reflete diretamente na política global. A recente vitória de Donald Trump às eleições presidenciais de 2024 nos EUA, amplamente apoiada por campanhas digitais repletas de ódio, fake news e negacionismo científico, ilustra como as big techs se tornaram peças-chave no fortalecimento de discursos autoritários”, continuou.
“Plataformas como X (antigo Twitter) e Meta, lideradas por Elon Musk e Mark Zuckerberg, desempenham um papel central nesse processo, permitindo a proliferação de notícias falsas e do discurso polarizador, que moldam a opinião pública e lucram bilhões de dólares com engajamento. Esse alinhamento das big techs com a extrema-direita global evidencia uma perigosa fusão entre interesses econômicos perversos e agendas políticas regressivas”, argumentou Luis Felipe.
“Super-ricos que se vendem como defensores da liberdade e do progresso apoiam o afrouxamento de regulamentações que limitam o poder das plataformas digitais. O discurso de Musk, Zuckerberg, Trump e peças menores no tabuleiro, como Pablo Marçal e a família Bolsonaro, muitas vezes baseado em ideais de meritocracia e empreendedorismo, mascara a realidade de que empresas globais operam como monopólios feudais, concentrando poder e minando a soberania dos Estados-nação”, seguiu o articulista.

A remoção
A censura ao post aconteceu na página do Facebook onde o Hora Campinas disponibiliza o link de acesso ao texto. Leia a coluna na íntegra aqui. No Instagram, o post não foi removido, já que lá não se pode incluir o link. Por isso, os milhares de internautas que seguem o Hora em suas plataformas de mídias sociais continuam enxergando o post no Instagram, mas não no Facebook.
O Hora tem 5 milhões de usuários únicos em sua audiência global no portal. No Instagram, acumula quase 30 mil seguidores e no Facebook quase 10 mil. O Hora se constitui hoje num dos principais veículos de comunicação da região de Campinas. A plataforma fará quatro anos de fundação em março próximo, oferecendo um jornalismo crítico, analítico e propositivo.
Em seus pilares editoriais estão o apoio à ciência, a defesa da democracia, a repulsa ao preconceito e ao racismo e o incentivo à pluralidade e à diversidade.
Ao remover o conteúdo, o Facebook apresentou a seguinte alegação: “Pode ser que o post esteja usando conteúdo ou links enganosos para induzir as pessoas a visitar um site ou permanecer nele”.
O Hora Campinas recorreu da decisão do Facebook e pediu análise da remoção. Não há data para essa definição. O Hora observa que o post pode ter sido mal-interpretado e que ele não é um spam. No comunicado (veja abaixo), a plataforma menciona que o post “não segue nossos padrões da comunidade sobre spam”.

Posição do Hora Campinas
O comitê editorial do portal, formado por editor-chefe e editoras-executivas, considerou a remoção uma “censura”. Para os jornalistas que comandam a plataforma, houve um equívoco da Meta ao compreender o post como “spam”.
“Trata-se de uma coluna de opinião, protegida pela liberdade de expressão. O Hora Campinas respeita o ponto de vista do articulista Luis Felipe Valle e defende que o seu texto está no campo das ideias e do debate, jamais avançando para qualquer outra seara que possa ser perigosa”, salienta o comitê em nota.
Para o comitê, a remoção num momento em que a Meta está revisando suas políticas de checagem passa para a opinião pública uma mensagem de interferência em conteúdo que desagrada a plataforma. “Gostando ou não, é preciso respeitar a opinião contrária”, resumiu o comitê.

A posição do colunista
O articulista Luis Felipe Valle se pronunciou no final desta tarde deste sábado sobre a remoção. Ele acredita ser possível que o post tenha sido denunciado à Meta por seguidores que não compartilham dessa visão.
“A própria reação algorítimica da Meta comprova a tese trazida pelo artigo. A denúncia sobre o tecnofeudalismo é que as redes e essas infovias não são democráticas, não são livres e não são abertas. Elas têm dono. Claramente esses donos têm interesses políticos, econômicos, financeiros e pessoais”, argumenta o colunista.
“Essas redes parecem um espaço democrático de liberdade e diversidade, mas é controlado pelas bigtechs”, resume.
Para ele, a “censura do algoritmo já existe e não é imparcial. Ela é arbitrária”. Luis Felipe Valle afirma ver como “preocupante” a remoção. “O artigo traz uma reflexão crítica sobre o tema sem nenhum tipo de acusação e indício sequer de ilegalidade”, continua.
Luis Felipe Valle afirma que é importante o Hora Campinas trazer esse assunto ao público “para denunciar a arbitrariedade dessas redes que se dizem neutras”.







