É no espaço democrático da mesa de um bar ou restaurante que nasce a resenha antecessora da tradição. Foram muitos os colóquios de balcão até Campinas se tornar lar de uma rica herança cultural e gastronômica. Difícil é destacar 25 estabelecimentos. Fica então a deixa para uma futura falta de consenso que remeterá a novas resenhas – de preferência numa mesa de bar ou restaurante. Bom passeio pelo tempo!

Bar da Linguiça
Em 1937 nascia o reduto onde a boemia de Campinas encerrava o expediente, o Bar da Linguiça. Quase que escondido na Avenida João Jorge, na Vila Industrial, foi o primeiro ponto da baixa gastronomia campineira a permanecer aberto 24 horas. O Bar da Linguiça fechou a noite de muita gente famosa e de tantos outros campineiros fiéis à baixa gastronomia. As portas baixaram em 2007, após o delicioso lanche de linguiça com ovo frito virar lenda na cidade.

Bar e Restaurante do Pachola
O Mercado Municipal de Campinas tem lugares cuja história se mistura à do próprio prédio. O Bar e Restaurante do Pachola, inaugurado em 1908, é um deles. No estabelecimento acomodado num dos cantos do Mercadão ficava a parada obrigatória dos campineiros respeitosos ao bom serviço. Ali não havia luxo. Bastava a comida de qualidade e o acolhimento sempre perfeito do seu Hermínio, o famoso Pachola, pai da tradição. O virado à paulista era o carro-chefe, mas o que chamava a atenção mesmo eram os pratos de buchada, rabada e moela que remetiam à velha infância. Os sabores do Pachola sobreviveram por quase 100 anos.

Bate-papo
Fim de noite e caldo. A combinação levou muitos campineiros ao Bate-Papo para fechar o giro noturno e se precaver de uma eventual ressaca forrando o estômago com sopas autorais. Em frente ao Largo Santa Cruz, no Cambuí, o lugar trazia a saideira e mais um pouco de resenha acompanhados de sopas e cremes. Valia a parada, mesmo durante o Verão.

Café La Recoleta
O tempo de “vida” do Café La Recoleta nem foi tão longo – apenas dez anos –, mas a efervescência que causou em Campinas deixou marcas e memórias. Uma mistura de café, bar e espaço cultural funcionou no Centro de Convivência Cultural, com entrada volta à rua Conceição, entre 1993 e 2003. Adrian Alberto Verdaguer, o dono do lugar, sacudiu a noite campineira como poucos. Verdaguer, que faleceu em 2022, aos 76 anos, era ator e um grande incentivador da cultura.

Candreva
Candreva e torresmo pururuca conversam na mesma língua. Desde 1964, o estabelecimento ganha o respeito e a admiração de seus clientes por outras delícias tradicionais, como lombo, pernil, joelho de porco e costelinha. Os assados dão fama ao lugar estabelecido na Avenida Monte Castelo, pertinho do pontilhão e do estádio da Ponte Preta. Campineiro que presa a história da gastronomia da cidade sabe onde fica o bar e em algum momento da vida já sentou à mesa de lá ou levou para casa um pouco de seus sabores.

Cantina Alemã
Passa de meio século o tempo em que a Cantina Alemã recebe clientes no endereço aconchegante da Rua Luzitana, no Centro de Campinas. O melhor da culinária alemã mantém há décadas uma clientela cativa e tradicional, daquela que chama garçons e proprietário pelo primeiro nome. No cardápio há pratos à base de batata, joelho de porco, salsichão, a linguiça branca abratwurte e mais sabores especiais.

City Bar
Peça ao campineiro a indicação de um bar raiz. Ele vai abrir um sorriso e despejar histórias sobre os recantos secretos da Metrópole, aqueles esconderijos que só ele conhece. No discurso dele não faltará também uma citação à tradição, que nesse caso tem nome e sobrenome: City Bar. Mesinhas na calçada, tira-gostos, cerveja gelada, um garçom amigo e uma boa conversa. Tudo o que o City Bar proporciona ao campineiro há 64 anos. Trinta e três desses anos foram vividos sob a administração de José dos Santos Antônio, que sabe exatamente o peso da responsabilidade que carrega.

Chopão
Na avenida Heitor Penteado, em frente à Lagoa do Taquaral, a juventude campineira da década de 1970 e início dos anos 1980 batia ponto no Chopão. Os “playboys” circulavam pela avenida em Mavericks, Opalas e motocicletas. As pessoas se acumulavam na calçada, dos dois lados da via, como num ritual de “footing” adaptado à época. Nos domingos à tarde, aquele trecho da avenida era endereço certo para a “ferveção”. Quem viveu a época com certeza também vai se lembrar das “xispadas”. Não sabe o que é “xispada”? Pergunte à galera que beira os 60 anos!

Clube de Esquina
Na década de 1960, Milton Nascimento e companhia criaram um movimento chamado “Clube de Esquina” para celebrar a conexão entre músicos e compositores. Em Campinas, o Clube de Esquina uniu casais e reuniu amigos, sobretudo nas décadas de 1980 e início de 1990. Com duas unidades, ambas no Taquaral, o Cube de Esquina atraía quem gostava de dançar, mas não curtia o ambiente das discotecas. Era mais descontraído e comportava boas conversas e muitas paqueras.

Doceria Términus
É de dar água na boca a lembrança do Mil Folhas com recheio de creme da doceria do Hotel Terminus. O prédio art decó na esquina da 13 de Maio com Francisco Glicério, obra do engenheiro e ex-prefeito Miguel Vicente Cury, recebeu celebridades e políticos de renome desde sua inauguração, em 1949. Tão famosa quanto o hotel foi a doceria instalada no andar térreo, com entrada pela avenida Francisco Glicério. Eram tempos de bules prateados e xícaras de porcelana. De chocolate quente e chá da tarde. A doceria se adaptou à passagem dos anos e sobreviveu por algumas décadas. Até que, em 1985, o Hotel Terminus deixou de existir, assim como a doceria e o mil folhas de doces lembranças.

Eden Bar
“Há mais de 100 anos servindo sabor e tradição no coração de Campinas”. O slogan do estabelecimento que fica no número 1.218 da Rua Barão de Jaguara, em Campinas, diz tudo sobre a tradição que acompanha o lugar. O Eden carrega a responsabilidade de ser considerado o bar mais antigo de Campinas em funcionamento. E tudo lá exala lembrança. A começar pelo prédio onde está localizado. A edificação tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) passou por renovação. O prédio do Eden Bar é uma mistura de estilos resultante da influência italiana naquela região.

Facca Bar
Desde a década de 1950 o Facca Bar se diferença pelo chope sempre gelado e uma cozinha que faz os clientes quererem voltar sempre. O piso do salão quadriculado em preto e branco e a decoração nos levam mesmo para década passadas. Nasceu como um “sujinho”, a partir da iniciativa de quatro ex-funcionários do Bar Ideal, que ficava ali perto na Conceição, e virou referência de quem reverencia a tradição.

Fellini
Localizado no Cambuí, no coração da cidade, o restaurante Fellini completou 35 anos de existência em 2023, funcionando sempre no mesmo ponto: Coronel Silva Telles, número 514. O local abriu as portas nesse endereço em 1988, quando o cineasta Federico Fellini ainda estava vivo e em atividade. José Ferreira, grande entusiasta da obra de Fellini, foi também o responsável pela ideia de homenagear o ídolo com o nome da cantina italiana. A inauguração da Cantina Fellini ocorreu numa sexta-feira, dia 10 de junho de 1988, e contou com a presença do grande radialista e locutor esportivo Osmar Santos, conhecido como “O Pai da Matéria”.

Giovannetti
Difícil existir um campineiro que nunca tenha entrado numa das unidades do Giovannetti, seja para tomar um chope gelado ou para experimentar lanches tradicionais como o psicodélico. O imigrante italiano Enrico Giovannetti fundou a primeira unidade há 87 anos, na Rua General Osório, em frente ao Largo do Rosário. O estabelecimento sobrevive até os dias atuais guardando o tempo no ambiente com peças de embutidos expostas. Diz a história que foi o Giovannetti que lançou o corte “boca de anjo”, hoje quase uma exigência para os lanches servidos em Campinas.

Hirata
Quem diria que a salada de rúcula ajudaria a construir a fama de uma churrascaria de Campinas! Pois foi graças aos condimentos secretos usados no acompanhamento que, reza a lenda, nasceu no Restaurante Hirata o hábito de acompanhar churrasco com rúcula. Fundando em 1974, o estabelecimento ocupa um prédio modesto, porém com muitas mesas, no Parque Industrial. E o próprio Hirata revela que a opção pela rúcula foi um daqueles felizes acasos do destino. Originalmente, o restaurante apostava no agrião para salada, mas um tempestade de granizo que caiu em Campinas em 1975 destruiu as plantações da região e o jeito foi apelar para a rúcula.

Idalvos
Quem gosta da boa gastronomia na região de Campinas já ouviu falar do restaurante Idalvo’s, especializado em peixes e frutos do mar. Nos guias especializados, sempre obteve boas notas e ótimas avaliações. O espaço localizado no bairro Bonfim foi fechado em março de 2022. O impacto da pandemia da Covid-19 foi severo demais para o negócio.

Macarronada Italiana
Há menos de um ano de completar meio século de existência, a Macarronada Italiana. O casal Marilza e Giuseppe inaugurou a primeira unidade do restaurante em janeiro de 1975, na estrada para Valinhos, com cardápio modesto, de Tagliarini à Bolonhesa. Após um ano e meio, a Macarronada Italiana mudou-se para o centro de Campinas, na Avenida Francisco Glicério, esquina com a Duque de Caxias, onde permaneceu por quatro anos, até fixar morada na Avenida Marechal Carmona. O tempo enriqueceu o cardápio do estabelecimento e fidelizou clientes com lasanhas, raviólis e outros pratos tradicionais da casa.

Padaria Orly
A Padaria Orly é uma das muitas esquinas de saudades em Campinas. Após 55 anos, o lugar baixou as portas no último dia do fevereiro bissexto de 2020. O estabelecimento, que servia de panificadora, restaurante e de pausa para um café, ficava no cruzamento das ruas Barão de Jaguara e Bernardino de Campos. Era um ponto de nostalgia para os campineiros que cresceram aguardando pelo passeio no Centro da cidade que levaria aos balcões da Orly. As vitrines exibiam mil folhas, enrolados de presunto e queijo e batatas recheadas que remetiam a sabores presentes apenas naquela esquina.

Papai Salim
Há 47 anos o Papai Salim ocupa o mesmo endereço e oferece o mesmo cardápio da culinária libanesa no Centro de Campinas. O estabelecimento nasceu em 1977 e sete anos depois passou a ser administrado por família libanesa que leva à mesa do campineiro pratos como tabule, homos, coalhada seca, kibe cru, caftas, charutos de repolho ou uva e, claro, as famosas esfihas e kibes. Ali no número 1.307 da Avenida Benjamin há também um empório com produtos como temperos e especiarias.

Rosário
A história de Campinas deixou de ser contada pelos salões tradicionais do Restaurante Rosário, no Centro da cidade. As mesas ficaram vazias de memórias. Pelos corredores não passam mais os garçons e maitres que fizeram do lugar um ponto de lembranças. A comida, essa sim, ainda pode ser saboreada – mas apenas aos finais de semana, pelo sistema delivery ou de retirada no estabelecimento. “Desde 1948 tornando seu momento mais especial” é a mensagem postada na página do Rosário nas redes sociais. Foram 75 anos de funcionamento presencial na esquina das ruas General Osório e Regente Feijó, até que, no segundo semestre de 2023, as portas principais baixaram.

Setor
A década era 1980 e o bairro Cambuí despontava como ponto da noite campineira. City Bar e Paulistinha recebiam os universitários e jovens de Campinas para encontros nas calçadas. Faltava, porém, a música ao vivo. Foi então que nas redondezas da Avenida Júlio de Mesquita surgiram o Candeeiro, Ilustrada e Caicó. Dava para percorrer a pé o circuito de opções, que se expandiram para áreas próximas com a inauguração de bares como o Luz Del Fuego, na rua Dom Pedro. O Setor perdeu função em 1996, quando o barulho limitou o funcionamento até as 22h, horário em que a agitação começava a esquentar.

Sousas e Joaquim Egídio – Circuito Gastronômico
Os distritos de Sousa e Joaquim Egídio ficam a poucos minutos do Centro de Campinas, mas parece que foram horas de viagem para chegar tamanha a mudança de paisagem e de energia. Áreas de proteção ambiental e restaurantes bucólicos levam o campineiro para aquelas pequenas cidades de interior em que aparentemente todo mundo se conhece. Região de turismo rural, os dois distritos ganham fãs também pela qualidade da gastronomia que dezenas de restaurantes oferecem em meio a paisagens que a Metrópole já não dispõe mais.

Timbó
O ano de 1982 foi de muita dor de cabeça, mas também de bastante entusiasmo para os comerciantes do bairro Guanabara. Além da duplicação da Avenida Brasil, surgia naquela região uma das mais conhecidas rotatórias de Campinas: o Balão do Timbó. Não menos famosa, a Pizzaria Timbó acabou por dar nome à praça (balão) batizada de Dr. Souza Siqueira. O proprietário do imóvel onde décadas funcionou o Timbó, José Abdel Massih, registrou em fotos o passo a passo das obras, que duraram pouco mais de um ano. As pizzas de filé mignon com creme de milho e de bacalhau ajudaram na fama do lugar, que encerrou suas atividades naquele ponto no final dos anos 1990.

Tonico’s
Durante 20 anos, o bar localizado na Rua Barão de Jaguara foi reduto de cantores e compositores renomados de Campinas e região, além de artistas consagrados no cenário nacional, principalmente do samba de raiz. O anúncio do fechamento do Tonico’s Boteco, no Centro de Campinas, foi dado em setembro de 2021. Pelo seu palco e corredores passaram nomes reconhecidos no cenário regional e nacional como Diogo Nogueira, Noca da Portela, Leandro Fregonesi, Walter Alfaiate, Nei Lopes, Nelson Sargento, Monarco, Dona Inah, Noite Ilustrada e tantos outros.

Voga
Quando pastel é o assunto em pauta do campineiro, Voga é o lugar vem à mente. Fundado em 1940, o estabelecimento recebeu esse nome por funcionar encostado ao antigo Cine Voga. O cinema mudou de mãos, de nome e de finalidade, mas o Voga continuou firme no número 35 da avenida Anchieta, só que com novos propósitos. A partir de 1963, o pasteleiro Romualdo Gianfrancisco se associou ao irmão Pedro e a Waldomiro Rossi para transformar o espaço no Bar e Pastelaria Voga. Foi então que a fama decolou. Para sentir Campinas é preciso sentar à calçada do Voga e tentar engatar uma conversa regada à cerveja gelada e pastéis, apesar do barulho dos carros na avenida – a trilha sonora da Metrópole!
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