O Brasil deu adeus neste último final de semana a uma expoente da saúde pública no País. Morreu em Barretos, Interior de São Paulo, aos 101 anos, a dra. Scylla Duarte Prata, cofundadora de um dos mais bem-sucedidos projetos de oncologia da América Latina, o Hospital de Amor, serviço gratuito de prevenção ao câncer que atrai pacientes de todos os cantos do território brasileiro. Mineira de Sacramento e formada em Medicina na Universidade de São Paulo (USP) nos anos 40, a ginecologista e obstetra inspirou gerações de novos profissionais.
Ao lado de grandes nomes da medicina e de uma equipe multidisciplinar de excelência, a dra Scylla sustentou os alicerces de uma família que juntou filantropia e atendimento oncológico de qualidade para consolidar o Hospital de Amor, batizado assim desde 2017 e conhecido no Brasil inteiro como Hospital de Câncer.
O complexo hospitalar fica na cidade barretense, para onde vão, diariamente, caravanas de ônibus e veículos particulares levando pacientes e seus familiares na esperança da prevenção, da cura ou de um tratamento digno.
O Hospital de Amor é reconhecido internacionalmente por sua estrutura de excelência, mas também por sua mobilização social e midiática. Os pavilhões de atendimento no Hospital de Amor foram batizados ao longo dos anos por nomes de celebridades que emprestaram suas famas e solidariedade para ajudar na estruturação do serviço.
As unidades têm, por exemplo, nomes como Xuxa, Leandro e Leonardo e Chitãozinho e Xororó, entre outros. Por meio da doação de seus cachês, os artistas ajudaram – seguem ajudando – o Hospital de Amor. No início de expansão do serviço, fazendeiros e sitiantes se mobilizavam em torno de leilões de gado para angariar recursos e ajudar o serviço hospitalar.
Ser um complexo de excelência, com atendimento 100% gratuito pelo Serviço Único de Saúde (SUS), sempre foi a meta da família da dra. Scylla.
Esse legado de humanidade está impresso desde o início da carreira da médica, cuja importância para a saúde pública pode ser comparada a nomes como Silvia Brandalise (Centro Boldrini), Silvia Belucci (fundadora do Centro Corsini, falecida em 2012) e Zilda Arns (pediatra e sanitarista da Pastoral Internacional da Criança, morta num terremoto no Haiti em 2010).
É neste contexto de inovação, liderança e competência que a dra Scylla se assenta. A médica que morou em Barretos desde criança foi uma das grandes incentivadoras da introdução, no SUS, de métodos preventivos como o papanicolau para detectar o câncer genicológico.
Quando não estava atendendo no Hospital São Judas, primeiro nome do ainda modesto serviço oncológico da cidade, depois transformado em superpotência, a dra Scylla atendia mulheres barretenses em seu consultório, tanto da elite como de famílias simples. Elas são testemunhas deste atendimento generoso e afável, razão pela qual seu nome sempre foi lembrado com muita deferência.
A dra. Scylla montou essa obra de amor e medicina ao lado do marido, o dr. Paulo Prata, seu então colega de curso na USP. Prata morreu em 2004. A família do casal é grande: cinco filhos, 13 netos e 19 bisnetos.
Quem lidera o projeto do Hospital de Amor é seu filho, Henrique Prata.
A médica morreu no último sábado, dia 14 de junho, e foi sepultada no próprio complexo hospitalar, ao lado dos despojos de seu marido, Paulo Prata. Precursor do atendimento humanizado, ele chegou a ter seu nome defendido junto à Igreja Católica num eventual processo de canonização.

Elo com Campinas
Quem mora na região de Campinas pode usufruir desse atendimento gratuito de excelência do Hospital de Amor. A unidade está localizada na Avenida das Amoreias. Além disso, mantém na cidade duas carretas móveis. A estrutura, que existe desde 2017, é responsável por realizar exames preventivos gratuitos nas mulheres.
O hospital conta, por exemplo, com recepção, auditório, sala com mamógrafo de última geração, sala de biópsia com mesa de estereotaxia, que permite a realização de exame com mais qualidade e conforto para a paciente, salas com aparelhos de ultrassom para exames e biópsias de mama, salas de coleta de papanicolaou, consultórios médicos e centro cirúrgico.
O Hospital de Amor em Campinas foi construído graças a verbas do Ministério Público do Trabalho da 15ª Região e apoio da Prefeitura de Campinas, com a cessão de uso do terreno.
Parte dos recursos obtidos em uma ação civil pública foram destinados para cinco projetos relacionados à pesquisa e atendimento de saúde. O maior deles, orçado em R$ 70 milhões, foi para o Hospital de Amor. Desse montante, R$ 34 milhões foram dispostos para a construção do Instituto de Prevenção em Campinas e das unidades móveis.







