Reginaldo Pupo
Pedras que emitem sons de sinos semelhantes aos de igrejas, quando tocadas por outras pedras menores ou martelos, intrigam os moradores e turistas que frequentam Ilhabela durante séculos. Mas não intrigavam os índios que habitavam o arquipélago. Não por acaso, a praia de Garapocaia tem o nome oficial de origem tupi, que significa “pedra que canta”.
Turisticamente a praia é conhecida como Pedra do Sino. As pedras estão localizadas no canto direito para quem olha para o mar. Devido à quantidade de turistas que visitam o lugar, há anos, a prefeitura se viu obrigada a instalar uma estrutura de madeira, que circunda as pedras, para ter fácil acesso à costeira.

Para chegar até o lugar os moradores e turistas caminham pela ponte de madeira, com cerca de 100 metros de extensão. Mas apenas algumas das pedras emitem o som metálico quando são tocadas. Para que os sons de “sinos” sejam emitidos, é preciso “golpeá-las” com outras pedras pequenas ou martelos.
O caso fez com que diversas lendas surgissem para explicar o feito e até hoje povoa o imaginário popular.
Uma das mais contadas remonta o ano de 1647, quando o som dos sinos despertou a tranquila população da ilha durante a madrugada. Todos os habitantes correram em direção aos sons e, assombrados, viram passar em frente à praia um caixão com seis velas.
Eles se puseram de joelhos no chão e rezaram enquanto o caixão passava lentamente pelo Canal de São Sebastião, levado pela correnteza, em direção ao sul. Segundo historiadores, um navio de guerra de Segismundo Van Schkope afundou uma embarcação portuguesa que transportava uma imagem de Bom Jesus, destinada à igreja de Pernambuco.
Este fato teria ocorrido em fevereiro de 1647 e por causa da correnteza a imagem acabou chegando na cidade de Iguape no dia 2 de dezembro de 1647 daquele ano. Até hoje a imagem é venerada no município do litoral sul como Bom Jesus da Cana Verde.

Schkope atuou em batalhas no Maranhão (captura de São Luís), na tomada da Ilha de Itamaracá e Batalha dos Guararapes (Recife), na invasão a Porto Calvo (Alagoas), na captura do Forte de Santa Catarina do Cabedelo (Paraíba) e invasões ao Rio de Janeiro.
Milagre?
Outra lenda contada em Ilhabela diz que no século XVII, ao amanhecer, surgiu uma caravela de piratas que se dirigia à Ilha de São Sebastião (antigo nome de Ilhabela), enquanto a população ainda dormia. Os piratas estariam prontos para abrir fogo contra a ilha quando ouviram o soar dos sinos despertando o povo que se preparou para receber os inimigos. Nisto surge um guerreiro que tomou o comando e, em pouco tempo, fez o inimigo recuar. Este guerreiro era São Sebastião, segundo a lenda.

Após a calma reinar no povoado, todos queriam saber onde estavam os sinos. Mas perceberam que não eram os da igreja da Armação, bairro próximo dali. Ninguém sabia explicar, a não ser os indígenas, que diziam “Garapocaia, Garapocaia” enquanto apontavam para as pedras.
Pedras que emitem sons semelhantes a sinos não são particularidades de Ilhabela. Em diversas partes do Brasil, especialmente no Nordeste, também existem. E não necessariamente em praias.
Na cidade de Currais Novos, no interior do Rio Grande do Norte, distante 186 quilômetros de Natal, também existe a Pedra do Sino por causa do som semelhante aos de sinos de igreja.
Por lá, por muito tempo o mistério foi atribuído à força da natureza e serviu de comunicação para índios e até hoje desperta a curiosidade do povo e alimenta a imaginação das crianças.

Ao menos na cidade potiguar, a causa do som de sino, de acordo com físicos e geólogos, é o fato da rocha ser porosa, ter vácuo na parte interna e pouco contato com o solo. É uma soma de fatores. Mas saber disso não apaga a surpresa de ouvir as batidas de sino pessoalmente pela primeira vez.
Praia paradisíaca
A praia da Pedra do Sino possui 274 metros de extensão e é conhecida também por suas águas tranquilas, excelentes para a prática de stand up paddle, caiaque e mergulho. Semelhante a uma “piscina”, é amada pelas crianças.
No canto esquerdo um ribeirão de água doce desemboca no mar.
Uma das principais características do lugar são as dezenas de coqueiros e palmeiras que são curvados para o mar, dando um charme todo especial à orla da praia, conferindo as características típicas de uma ilha.
Nos arredores há restaurante, banheiro público, estacionamento e meios de hospedagens. O acesso à praia da Pedra do Sino é fácil pois está na principal avenida da cidade, que corta a ilha de norte a sul.







